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Exposição

O mestre do paradoxo

por The Observer — publicado 29/06/2011 18h41, última modificação 01/07/2011 13h45
Exposição na Inglaterra revela um René Magritte surrealista e popular, que pinta o maravilhoso e o bizarro da maneira mais simples possível. Por Laura Cumming, de Liverpool
René Magritte

Exposição na Inglaterra revela um René Magritte surrealista e popular, que pinta o maravilhoso e o bizarro da maneira mais simples possível. Por Laura Cumming, de Liverpool. Foto: Houston Chronicle/AP

Há um quadro de René Magritte (1898-1967) que faz lembrar a definição do filósofo Thomas Hobbes do riso como “nada mais que uma glória súbita”. Ele é pintado no habitual estilo inexpressivo do artista belga e ambientado em uma de suas salas de piso nu. À direita existe uma porta escura sinistra em que um belo leque de renda se mantém, inexplicavelmente, de pé. Atrás, um céu de papel de parede com as nuvens de Magritte e seu azul. E, explodindo pela cena, como que para romper o clichê, um jato salta alegremente pelo ar como um laço. A pintura é intitulada Saí-da da Escola. A alegria repentina dessa imagem incorpora tão perfeitamente o título que somos tomados de surpresa. Esse não é o René Magritte da visão dupla, do enigma pictórico e paradoxo visual-verbal. É uma imagem de libertação eufórica, tão expressiva quanto o próprio riso. Aprendemos isso na enorme exposição de 200 obras do artista, até 16 de outubro na Tate Liverpool: Magritte nem sempre é o charadista pelo qual esperamos.

O mestre do paradoxo é ele mesmo um paradoxo. Surrealista, vanguardista e ao mesmo tempo popular, o belga Magritte é o homem sério que pinta o maravilhoso e o bizarro da maneira mais simples possível. Enquanto os surrealistas franceses são viciados na indignação do público, ele vive anonimamente em seu subúrbio de Bruxelas, casado com a mesma mulher durante 45 anos, caminhando com seu lulu--da-po-merânia à mesma hora todos os dias.

As pinturas retorcem a mente com cenários impossíveis, mas são transmitidas com absoluta clareza e sentido. Ele tem muito pouca fluência como pintor, mas sua obra é uma exploração constante da própria pintura, como funciona, o que ela poderia mostrar ou dizer realmente. Seu vocabulário pictórico é rudimentar e restrito: pão, chapéu-coco,- maçã e nu, balaustrada de madeira, gaiola de ave e buraco de fechadura. Tudo corriqueiro para os funcionários belgas em seus casacos pretos, que chovem do céu. Em essência, tudo o que o próprio Magritte podia ver sem sair da sala onde pintava, quase sem luz natural, as janelas dando para uma parede de tijolos, uma tela em branco para as projeções de sua mente.

*Confira este conteúdo na íntegra da , já nas bancas.