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O intérprete do não

por Pedro Alexandre Sanches — publicado 20/11/2010 07h00, última modificação 19/11/2010 22h35
Caixa de CDs relembra a trajetória de Itamar Assumpção, um compositor em luta contra a morte

Caixa de CDs relembra a trajetória de Itamar Assumpção, um compositor em luta contra a morte

Anteontem na UTI foi me visitar a morte/ mesmo sedado senti seu bafo no meu cangote/ de susto quase morri/ deu pânico, quase entrei em choque. O homem que escreveu esses versos não está mais aqui. Itamar Assumpção morreu em 2003, aos 53 anos, e deixou muitas músicas inéditas. Grande parte delas rondava a morte, um tema que ele transformou em música durante toda a vida, e não apenas nos três sofridos anos em que conviveu com um câncer no intestino.

Em 1998, antes de descobrir a doença, avisava, cantando versos do poeta para-naense Paulo Leminski (1944-1989): Um homem com uma dor/ é muito mais elegante/ (...) sofrer vai ser a minha última obra. Apresentada em shows de um Itamar em fase agônica, Anteontem (Melô da UTI) é uma das (irônicas, sarcásticas) canções que ele não lançou em vida e vêm agora se somar como apêndices à monumental Caixa Preta, íntegra de sua obra fonográfica bancada pelo Selo Sesc e coordenada por sua viúva, Elizena Brigo de Assumpção, e pelas duas filhas do casal, Serena e Anelis.

Dor Elegante, o autoaviso de 1998, integrava o último trabalho original completo lançado sob direção do próprio autor, o disco-trocadilho Preto Brás – Por que que eu não pensei nisso antes. O grupo de 29 gravações inéditas acrescidas como esboços de “última obra” à Caixa Preta constitui uma trilogia Preto Brás, mais ou menos como planejava Itamar, antes de adoecer.

Preto Brás II – Maldito Vírgula foi pós-produzido por Beto Villares, que elaborou arranjos e intervenções heterodoxas sobre registros voz e violão, por vezes precários, deixados pelo autor. Villares trouxe para o disco as vozes simbólicas, embora não tenham trabalhado diretamente com Itamar, de Seu Jorge, BNegão, Arnaldo Antunes e Elza Soares. Essa entoa uma canção tipicamente “itamariana”, chamada... Elza Soares. Elza canta que my soul is black/ meu sangue é quente e encerra o volume em catarse sobrenatural, caindo em choro livre e explicitado. “Tô chorando, cara!”, resfolega, sob aplausos dos colegas de estúdio.

Parceiro de vida inteira de Itamar, Paulo Lepetit encarrega-se da produção e dos arranjos de Preto Brás III - Devia ser proibido, que se inicia por Anteontem (Melô da UTI) e acaba com Os Incomodados Que Se Mudem: Quem compõe um Preto Brás incomoda muita gente/ quem compõe dois Preto Brás incomoda muito mais/ quem compõe dois Preto Brás não há Cristo que aguente/ o cão vem com três tridentes, quer bater de frente/ com quem compõe três Preto Brás.

Alinhado com o imaginário orgânico do parceiro, Lepetit convoca para seu volume os auxílios de Arrigo Barnabé, coidealizador com Itamar da chamada vanguarda paulista dos anos 1980, e de Ney Matogrosso, Naná Vasconcelos e Zélia Duncan, três dos poucos artistas da família MPB que valorizaram seu primo paulista desgarrado antes que ele morresse (outros apoiadores circunstanciais foram Rita Lee, Tom Zé e Cássia Eller).

Itamar sempre foi pródigo em prestar homenagens à tradição à qual julgava pertencer (e pertencia de fato, com honras e méritos, nervos e neurônios). Em versos, citou explícita e abundantemente seus ídolos, de Cartola a Cascatinha & Inhana (na inédita Ir pra Berlim, rima Tom Jobim com tamborim, além de Lou Reed com Daúde e “duvide”). Em 1995, gravou um disco inteiro em tributo ao sambista mineiro e impuro (logo, marginal) Ataulfo Alves. No show Às Próprias Custas S.A. (1982), cantou sambas de Adoniran Barbosa e Geraldo Pereira, tropicália de Jards Macalé e Waly Salomão e iê-iê-iê do “negro gato” Getúlio Cortes.

Dessa fase, a Caixa Preta recupera do ineditismo uma gravação vibrante de Não Vou Ficar, de Tim Maia, lançada em 1969 por Roberto Carlos. O samba, a black music brasileira e Roberto Carlos integravam o patrimônio genético de Itamar Assumpção, nascido no interior paulista de Tietê e consumado artista na adolescência e juventude vividas entre Arapongas, Londrina (PR) e São Paulo. Sambamos de Tudo: Funk, soul, blues, jazz, rock-and-roll, suingou em Quem É Cover de Quem? (1993), homenagem (irônica, sarcástica) a seu antecessor e duplo carioca, Luiz Melodia.

Há evidentes tons de colagem na conclusão póstuma da trilogia, e é possível adivinhar que Itamar cumpriria as normas e desaprovaria a intervenção, já que controle total e liderança absoluta da própria obra foram para ele objetos de obsessão, talvez de loucura. Podendo pirar/ eu posso esperar/ podendo morrer, que me importa?, cantou em Me Basta, na única trilogia que arrematou sob controle, o ultrafeminino Bicho de 7 Cabeças (1993-1994). Concebido por ele e executado pelas Orquídeas do Brasil, uma banda formada por oito (e mais) mulheres, Bicho de 7 Cabeças antecipou o Brasil das décadas seguintes e fez-se o maior projeto político-musical do final de século no País, algo que pouquíssima gente percebeu (ou quis admitir).

Esse cara é louco/ mora na Penha, São Paulo, zona leste/ dizem que eu sou pirex/ mas pirex não sou, não/ não dou rolê de Rolex, durex/ não sou relax/ relax não é fax, não, diz Pirex, da trilogia não concluída e só agora revelada. Uma de suas marcas distintivas foram versos como esses, de tez simbolista - ou concretista, como diriam tropicalistas enciumados das parecenças entre eles e seu (não) discípulo.

“Existe uma forte identidade, por exemplo, no aspecto da interpretação, do violão forte e da negritude, entre o Macalé, o Itamar e eu. (...) Isso é uma história negra. Aí somos todos idênticos, somos todos dessa linhagem”, afirmou Gilberto Gil, quando era ministro da Cultura e Itamar já tinha morrido, num depoimento incluído em Preto Brás – O livro de canções e histórias de Itamar Assumpção (Ediouro, 2006).

A poesia acurada e repleta de rimas inesperadas firmou-se a partir de 1985, quando o artista passou a conviver com o casal curitibano Alice Ruiz-Paulo Leminski. Alice se tornaria parceira constante e inspirada, inclusive nos versos da mortífera Milágrimas (1994): A cada milágrimas sai um milagre.

Antes, Itamar andara abrindo picadas a facão. Dependera da figura mítica do Nego Dito para emplacar, em 1980, ao conceber seu primeiro álbum, Beleléu Leléu Eu, após quase uma década de labuta em festivais interioranos. Obedecendo ao cânone-cárcere do mito da (boa) malandragem, o alter ego Benedito João dos Santos Silva Beleléu, “vulgo Nego Dito, Nego Dito cascavel” era violento, ameaçador: Apaguei um no Paraná/ (...) arranco o rabo do satã/ (...) se chamar polícia eu vou cortar tua cara/ vou retalhá-la, canalha, com navalha.

Responsável pelo sucesso inicial, o personagem abandidado foi executado ao vivo na tela da Rede Globo, no festival MPB Shell 82, por sua irmã e quase-sósia, Denise Assunção: Silêncio no tribunal/ olha a camisa de força/ redobrem a vigilância/ hoje aqui você é nosso réu/ comporte-se bem, entendeu?/ (...) cala a boca, fique quieto/ nem um pio, mais respeito no local/ preparem a carapuça/ ponham o capuz na cabeça.

Não foi às paradas de sucesso, e esse desejo permaneceu expresso para sempre em sua música. Já cantei no galinheiro/ cantei numa procissão/ cantei em ponto de terreiro/ agora eu quero cantar na televisão, avisava em Prezadíssimos Ouvintes, na abertura de Sampa Midnight – Isso Não Vai Ficar Assim (1985). Já sob a influência de Leminski e Alice Ruiz, Itamar se metamorfosea-va. Entre o sim e o não existe um vão, testava em Chavão Abre Porta Grande, preocupado em reconhecer que quem não vive tem medo da morte.

Intercontinental! Quem Diria! Era Só o Que Faltava!!! era o título de seu primeiro (e espetacular) disco não independente, editado pela hoje extinta Continental. Ali, Nego Dito se convertia em Zé Pelintra, meio demônio, meio anjo, que aparta briga feia/ (...) resolve impossível demanda/ (...) e seu cavalo sou eu. No absurdamente musical Bicho de 7 Cabeças, Itamar tentava emular à sua maneira (ou seja, afogado em gotas de mágoa e soterrado por toneladas de poesia) as modas musicais do momento, em Lambuzada de Dendê (em referência à axé music) e Onda Sertaneja.

O desejo de explodir o corroia, até porque seu rumo era diametralmente outro. Cobiçava descobrir “com quantos não se faz um sim” (em Vou Tirar Você do Dicionário, 1993), mas seu tempo o obrigava a continuar sendo um intérprete-cantor do não – e da morte. Na sala, numa fruteira/ a natureza está morta/ laranjas, maçãs e peras, bananas, figos de cera/ decoram a noite torta, desferia Noite Torta (1993).

A resistência à opressão e aos preconceitos foi firme, mas rudimentar em Itamar. Apareceu cedo, em forma de Batuque (1982), e foi à posteridade, como Cabelo Duro, do inacabado disco Isso Vai Dar Repercussão, com o pernambucano Naná Vasconcelos, iniciado em 2002 e só editado após sua morte. Eu tenho cabelo duro/ mas não o miolo mole/ sou afro-brasileiro puro/ é mulata minha prole/ não vivo em cima do muro/ da canga meu som me abole.

Citando “bichos e bichas” em mais de uma canção, Itamar estabeleceu forte coligação com a música brasileira feminina, fosse pelas célebres vocalistas dos discos iniciais, pela formação das Orquídeas ou pelo (des)encontro negrofeminino de Noite Torta, vocalizada pela parceira sul-matogrossense Tetê Espíndola: Na pia a louça suja me lembra a roupa suja no tanque que a vida é. Morto no dia dos namorados de 2003, Itamar Assumpção abdicou do governo Lula e não assistiu à chegada de Dilma Rousseff ao poder.

O homem inventou o e-mail porque não consegue ser inteiro, canta, depois de morto, em Devaneio. Ou, como dispara a Morte (interpretada por Elke Maravilha nos últimos shows) em Anteontem (Melô da UTI): Além de servir de mote/ vou ajudá-lo a assumir de vez o seu lado pop/ então é só decidir/ se morte é mote pra funk ou xote. O homem que escreveu estes versos ainda está aqui.