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O interior de Adélia Prado

por Rafael Nardini — publicado 02/10/2013 09h59, última modificação 02/10/2013 10h39
Para a poeta mineira, convidada do evento literário Primeira Página, o cotidiano é a força-motriz da criação artística. "Até Mozart tinha dívidas para pagar"
drøm fine art
Adélia Prado

A poeta Adélia Prado, durante o encontro literário

"Achava que, por ser poeta, estaria usurpando um ofício masculino. Mas precisava escrever." A declaração é de um dos maiores nomes da poesia brasileira. Convidada do segundo encontro literário Primeira Página na terça-feira 1°, a poeta mineira Adélia Prado defendeu a presença do cotidiano em sua escrita. Segundo ela, esta é a força motriz de todas as criações artísticas. “Mozart tinha família, dívidas para pagar, uma peleja para sobreviver. Todo mundo só tem isso. Desde o gari até a princesa da Inglaterra. As necessidades básicas não mudaram”. Durante 76 minutos, Adélia falou sobre literatura, inspiração, mulheres e religião no auditório do TUCA, o Teatro da Universidade Católica, em Perdizes, São Paulo.

Se Ferreira Gullar - o primeiro convidado do projeto, realizado em setembro - foi ouvido num cenário inspirado em seu escritório particular, dessa vez Gustavo Calazans, um dos responsáveis pelo evento, decidiu simular o clima interiorano e simples de Divinópolis (MG), terra natal de Adélia. O arquiteto, que participa do quadro Hoje em Casa, do Jornal Hoje, da Rede Globo, optou por mesas, poltronas e armários rústicos. Vasos, gramofone, carpete verde e até bolos, xícaras e um bule completavam a cena. A simplicidade, aliás, deu o tom das intervenções da escritora, para quem “o orgulho não combina com a atividade artística”.

“Olhava o (Carlos) Drummond (de Andrade), aquele jeito de vestir, aquele sapatinho, a camisa abotoada até o colarinho, e falava: ‘é um dono de mercearia’. Lia um poema como Tarde de Maio e não acreditava que era realmente ele”.

Questionada se sua fé e sua ligação com o catolicismo não se chocariam com seus versos, por vezes insinuantes, a escritora apontou que a até “Bíblia é um livro carnal”. “O Cântico dos Cânticos, que faz parte da Bíblia, era proibido. As freiras não podiam ler. O erótico é aquilo que tem vitalidade”, citou, lembrando o peso da sexualidade dentro de diversos âmbitos da sociedade.

Ela falou ainda da necessidade de enfrentar os momentos de esterilidade criativa sem se expor desnecessariamente. “Quando eu tenho uma carreira, posso estar triste ou alegre que tenho de trabalhar. Com a arte não é assim. O estatuto é dela”. Em 2010, Adélia lançou A Duração do Dia e quebrou 11 anos de silêncio artístico. Aos 77 anos, entre antologias e registros em prosa e verso, já são 23 livros publicados desde 1976.

Outras páginas no caminho. Segundo Clovys Tôrres, um dos idealizadores do Primeira Página, o projeto deve retornar agora apenas no próximo ano. A intenção, de acordo com ele, é realizar seis edições em 2014. A primeira delas deve acontecer em março. O escritor paraíbano Ariano Suasuna, que atualmente se recupera de um aneurisma, e o poeta Manoel de Barros são dois dos possíveis convidados.

Tôrres conta ainda que a ideia é ampliar o formato. Em linha com a iniciativa de ampliar e aproximar público e leitores, o organizador pretende realizar duas sessões do encontro, sendo que a primeira, no período vespertino, será endereçada aos estudantes. As atrizes Clarisse Abujamra, vencedora do Kikito de melhor atriz coadjuvante no Festival de Gramado por A Coleção Invisível, e Walderez de Barros foram encarregadas das leituras dramáticas da noite.