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Cultura

Crônica do Menalton

O grande irmão

por Menalton Braff publicado 17/06/2013 10h19
A espionagem dos cidadãos, como previra George Orwell, há muito tempo é utilizada por quem representa o poder. A democracia dançou

Quem não se lembra do 1984, aquele do George Orwell? Me parece que antes do próprio, de 1984, muitos de nós, ainda jovens, o líamos debaixo de uma espécie de ansiedade, que é o medo do futuro. Então veio o ano de 1984 e nenhuma daquelas ameaças aconteceu. Conheço bem muita gente que atravessou aquele ano quase sem respirar e sem olhar para aos lados, com medo de ser descoberto pelo Grande Irmão, ou então com medo de descobrir que a profecia acabava de se realizar.

E alguma coisa do que esperávamos acaba de se realizar. Em outras palavras, se a máscara era antiga, ela acaba de cair de corpo inteiro, fazendo ruído e para que todos nós, tanto os que achávamos que acontecia quanto os que sempre duvidavam que acontecesse, a víssemos estilhaçada sob nossos perplexos olhos.

Muitos de meus amigos diziam que o Big Brother era uma alegoria dos regimes totalitários do leste europeu, sobretudo do regime stalinista. E era muito difícil argumentar que totalitários, tanto quanto os estados socialistas, eram todos os estados capitalistas em que a vontade do povo era o discurso por trás do qual escondiam-se os interesses das grandes empresas (petróleo, indústria automobilística, para citar apenas dois exemplos), aqueles que realmente contavam.

A alternância no poder era o argumento mais à mão, com que muitas vezes me senti destroçado, mas isso até perceber que governo é uma coisa e poder é outra. Mais ainda, até perceber que governo está a serviço do poder. Ora, se o poder é sempre o mesmo, mude-se o governo quanto se queira, a política, com pequenas variações periféricas de estilo, continua a mesma.

O povo, então comecei a entender, tem o direito de votar e mudar o governo, mas jamais teve acesso ao poder, que se dissimula com discursos sedutores e ideológicos. Alguns de vocês, que atravessaram mais da metade do século passado, como eu, devem estar lembrados da Doutrina Monroe. Aquilo seduziu muito cidadão bem intencionado, mas ingênuo. O que tinha dito Monroe? “O que é bom para os Estados Unidos é bom para a América.” A isso é que se dá o nome de perversão ideológica. Numa comparação grosseira, se é bom para meu vizinho arredar sua cerca e tomar metade do meu terreno, em que sentido isso poderá ser bom para mim?

Sim, mas a que vem tudo isso? Semana passada ficamos todos que nos servimos da mídia para obter informações sabendo que o presidente atual dos Estados Unidos, o “baluarte da democracia”, está utilizando a mesma política de segurança de seu antecessor. Mudou-se o partido do governo, não se mudaram os sujeitos do poder.

E a espionagem dos cidadãos, como previra George Orwell em seu 1984, há muito tempo e na surdina vem sendo utilizada pelo governo que representa o poder. E a democracia dançou.