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Escambo

O futuro lá atrás

por Marcio Alemão publicado 03/01/2011 11h00, última modificação 03/01/2011 11h15
A 55 quilômetros de Belo Horizonte, a familiar Mercearia Paraopeba faz escambo e garante a produção da roça

A 55 quilômetros de Belo Horizonte, a familiar Mercearia Paraopeba faz escambo e garante a produção da roça

O vídeo sobre a Mercearia Paraopeba que está no YouTube precisa ser visto. O futuro é aquilo lá e tem um jeitão danado de passado, para os míopes quase cegos. José Augusto de Almeida, o dono da mercearia, resume tudo em uma frase: “Se planta feijão, leva arroz e se planta arroz, leva feijão”.

A mercearia trabalha com muitas moe-das. O escambo é uma delas. Confiança é outra. Palavra, amanhã sem falta. Quase tudo O vídeo sobre a Mercearia Paraopeba que está no youtube precisa ser visto. O futuro é aquilo lá e tem um jeitão danado de passado, para os míopes quase cegos. José Augusto de Almeida, o dono se aceita. Reais, inclusive. José Augusto é o pai. Roninho é o apelido do filho. O neto, filho de Roninho, já mostrou interesse pelo assunto. Aos domingos gosta de ficar por lá, proseando com a freguesia. A Paraopeba vai emplacar a terceira geração. E tem tudo para ir para a quarta, quinta...

Fica na cidade de Itabirito, nas Minas Gerais. Segundo os mapas, a 55 quilômetros de BH. Se for o caso, eles dão as sementes para o agricultor e garantem a compra da produção. Como disse, pode até entrar dinheiro, depois, na hora que o produtor precisar de uma panela, uma lata de óleo. Mas o produtor pode não ter o dinheiro. Tem umas galinhas novas e faz um queijo curado muito especial. Pronto, a galinha e o queijo viram moeda. E assim deveria ser. E assim eu digo que será, com aquela isenção dos consultores e economistas com mais diplomas que eu.

A tal da nova cozinha brasileira – que anda louca para agregar ao sabor perdido um discurso, um conteúdo repleto de significados que, de preferência, vire notícia, capa de revista – pode e deve olhar com atenção o trabalho desses dois mineiros. Ir para bem longe, para as selvas e densas florestas de nossa enorme pátria é uma alternativa, claro. Mas a tal história da sustentabilidade, que anda amparando o bom discurso de bons chefs, pode ser praticada na esquina, como em Itabirito.

Perto de BH está cheio de bons produtores. Tendo uma Paraopeba por perto, eles sobrevivem. Melhor: podem viver com dignidade e seguindo a vocação que talvez lhes tenha sido presenteada por avós. Clássica “tragédia” do pequeno produtor: ser obrigado a abrir mão de sua vocação para plantar alguma coisa que todo mundo ao redor irá plantar e vender para uma megacooperativa qualquer. E quem é mega não faz escambo.

O Brasil tem ainda muito disso: a 50 quilômetros de qualquer capital existe uma roça. Resumindo bastante o longo raciocínio: se tem aqui ao lado, economizamos combustível, fumaça, borracha e o preço fica também melhor. A certa altura vemos Roninho fatiar uma goiabada cascão. Vem de São Bartolomeu. Uma família faz e eles fornecem o açúcar. Eles escolheram essa família. Você vai concordar comigo ao assistir ao vídeo: que espetáculo de peça essa goiabada. Única. Raro de ser ver daquele jeito. E como diria Silvio Santos, é coisa nossa. Curioso, não? Se é bordeaux ou borgonha, a gente diz de olhos fechados. Se a trufa branca está bonita, com o canto do olho identificamos. Eu me confesso totalmente ignorante em goiabada cascão. Em farinha de milho também. E sempre na Paraopeba, um tiquinho de cena mostra um saco de uma bem flocada... Que espetáculo!

A tal nação gourmet verde-amarela que andam vendendo em cantões bastante sofisticados não vai prosperar enquanto o conceito da Paraobepa não tiver sido mastigado e digerido pelos chefs. Repito: que cada um cuide do seu quintal. O vídeo foi muito bem dirigido por Rusty Marcellini, que é diretor de cinema e atua fortemente na área de gastronomia lá em BH. E a produtora é a Cara de Cão. Acesse já: http://www.youtube.com/watch?v=aUiWgtIGJwU