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Cultura

Crônica / Matheus Pichonelli

O esticador de horizontes

por Matheus Pichonelli publicado 14/11/2014 12h55, última modificação 14/11/2014 17h13
Em tempos de olhares diminutos e comprimidos para suportar o dia, Manoel de Barros ensinava: procure ser árvore
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O poeta Manoel de Barros, em cena do documentário "Só dez por cento é mentira", dirigido por Pedro Cezar

Do tempo em que me mudei para o interior, e lá se vão seis meses, só sei o nome de duas pessoas com quem tomo o ônibus todos os dias. Um é do Geraldo, o motorista. Outro é da Rose, a diarista que sobe e desce todos os dias no mesmo ponto que eu. Deles sei pouca coisa, a não ser que se adoram - a ponto de o Geraldo espernear quando a Rose não sobe no veículo e se justifica quase vexada: “Hoje não vou praqueles lados".

Do Geraldo sei que é palmeirense, mas não assiste jogo no fim de semana porque não gosta de "dar hora extra pra sofrimento”. A Rose é mãe do Elias, um menino de três anos que gosta da Galinha Pintadinha e mama todo dia no peito antes de dormir - é o que ela me disse dias atrás, pouco antes de me passar seu Zip Zap para acioná-la caso alguém um dia precisasse de serviço no meu prédio.

Todos os dias a gente se cumprimenta, se deseja bons dias e se despede. Depois volto às minhas insignificâncias, com as quais sempre me bato em busca de inspiração para escrever estas linhas. Pois hoje, quando acordei, queria falar do esticador de horizontes do poema de Manoel de Barros, que ontem morreu aos 97 anos em um hospital de Campo Grande. Queria contar por que hoje acordei com esse gosto azedo de derrota: a derrota de quem espera a hora certa e demora a cair de cabeça nas obras fundamentais. Manoel de Barros era, até então, um nome na estante à espera do mergulho, mas nele só havia molhado os pés.

O mundo fora daquela estante fez de mim um ser ansioso. Por isso deixo sempre em segundo plano os solavancos da poesia: opto, quase sempre, pela linha reta da prosa, as letras com data de validade dos jornais ou as sentenças definhadas em 140 caracteres. Como sou da prosa, só sei olhar o céu, jamais a lua. E só sei andar olhando para o chão, o chão cansado de ser olhado por pessoas razoáveis como eu. O chão que deseja ser olhado de azul.

Pensava em tudo isso logo que acordei e procurei, em vão, meu abridor de amanhecer. A caminho do ônibus, e como sempre sem achar qualquer azul no chão, pensava em como tenho definhado também nas linhas retas dos espaços diminutos: as telas de cristal líquido dos monitores, das janelas dos smartphones, das finuras dos tablets. Por essas telas observo problemas urgentes e vermelho-gritantes, como os alertas do serviço bancário, a chegada da sonda ao cometa e o close público na traição privada do jovem comediante. Minha janela dá para outras telas e outras telas e outras telas – sempre no sentindo oposto de minhas costas, que se contraem em bancos de ônibus, dos sofás ou do escritório.

E assim, vivendo em espaços diminutos, treinando o olhar para o limite e jamais à expansão, começo a entender por que todos tentam me convencer a tomar comprimidos: a cápsula para dormir, a cápsula para me acalmar, a cápsula para acelerar, a cápsula para domar a ansiedade, a cápsula do café e a cápsula do pó de guaraná que me ajudam a suportar o dia, a noite e a claustrofobia.

Pensava em tudo isso em meu ônibus de onde me acostumei a escrever em movimento para não perder tempo. Até que, de onde estou, vejo a Rose se levantar para entregar ao Geraldo uma caixa de ovos caipiras.

-Tem sal aí, Rose? Eu vou comer aqui mesmo.

-Dirige aí e não me enche, Geraldo.

E o Geraldo fazia inveja aos outros motoristas do caminho:

-Ganhei ovo caipira, irmão.

E, olhando para trás:

-Deus te abençoe, Rose!

-Dirige aí, menino.

-E quando você vai me trazer quiabo?

-Sem chuva não tem quiabo, Geraldo. Vou te trazer é couve.

-Couve eu não quero, não. Da última vez eu comi tanto que fiquei verde.

O ônibus inteiro, cansado da semana e dos espaços diminutos, caiu no riso. No meio delas, de onde estava, pude ouvir uma risada característica, folgada e rouca como um soluço. Era o velho Manoel, que pela janela se divertia com a Rose e o Geraldo e me mandava a piscadela. Estava, enfim, ao lado do parceiro Bernardo, aquele de quem o silêncio é tão alto que os passarinhos ouvem de longe e vêm pousar em seu ombro. É sempre tempo de ser árvore.

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