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O embaraço do marketing

por Carolina Nogueira — publicado 29/03/2011 17h37, última modificação 29/03/2011 17h38
O Louvre repreende Romero Britto por anunciar erroneamente mostra no museu. Por Carolina Nogueira

Desde que um contrato publicitário com a marca sueca de vodca Absolut deslanchou sua carreira artística, em 1989, o artista plástico Romero Britto coleciona sucessos. Dono de uma invejável rede de contatos, já esteve com poderosos do mundo inteiro e entregou em mãos retratos de personalidades que vão da cantora Madonna à presidenta Dilma Rousseff, agraciada com um quadro em fevereiro. Suas ilustrações estão em selos comemorativos das Nações Unidas, suas esculturas decoraram o aeroporto JFK, em Nova York, e o Hyde Park, em Londres.

No Museu do Louvre, em Paris, contudo, Romero Britto ainda não chegou, ao contrário do que faz pensar um anúncio de 20 mil dólares publicado pelo artista em dezembro de 2010 na The New York Times Magazine. Foi a Associação Americana dos Amigos do Louvre, baseada em Nova York, que deu o alerta à direção do museu em Paris, chamando de “enganoso” e “um flagrante mau uso do nome do Louvre” o anúncio publicado por Britto. “Francamente, é muito embaraçoso para a imagem do museu”, analisou Sue Devine, a diretora-executiva da associação.

Na propaganda, uma fada Sininho estilizada com as cores e estampas do artista sobrevoa a famosa pirâmide do museu, seguida do título “Britto no Louvre”. O texto da publicidade anuncia ainda que a exposição aconteceria com o apoio oficial do presidente francês, Nicolas Sarkozy. De fato, cerca de dez obras de Romero Britto estiveram em exposição em Paris, de 16 a 19 de dezembro do ano passado. Ao lado de outros 700 artistas, ele participou do salão da Sociedade Nacional de Belas Artes francesa, mostra que acontece todos os anos no Carrousel du Louvre, um espaço privado vizinho ao museu, onde funcionam restaurantes, um pequeno shopping- e salas para eventos.

Como todos os outros participantes do salão (dos quais ao menos 35 eram também brasileiros), Britto não foi convidado. Ele pagou 5,5 mil euros pelo direito de expor seus quadros ali. O apoio oficial do Palácio do Élysée, que a propaganda atribui à exposição do artista, é, na verdade, uma honra concedida à Sociedade Nacional de Belas Artes a um salão que conta três séculos de existência e por onde passaram mestres como Delacroix e Manet.

A diretora de comunicação do Museu do Louvre, Anne-Laure Béatrix, informou que Britto foi alertado oficialmente sobre a confusão que o anúncio poderia causar. Ele foi repreendido ainda por utilizar no anúncio e em seu site pessoal, sem autorização, a imagem da pirâmide do Louvre, protegida por direitos autorais.

Sublinhando que a questão foi resolvida amigavelmente, Britto justifica que o anúncio não teve a intenção de “chatear o pessoal do museu”. “Eu sabia que (a exposição) era no Carrousel do Louvre, mas, para mim, era no Louvre. Não estava a par de que eram dois lugares diferentes.”

A  Sociedade Nacional de Belas Artes garante, porém, que todos os 700 participantes do salão foram expressamente informados sobre essa distinção – e lamenta que o episódio tenha lhe causado problemas com o museu. “Se não tivéssemos como provar nossa insistência com os artistas de que não expomos no Louvre, mas no Carrousel do Louvre, o museu estaria no direito de tentar algo na Justiça contra nós”, afirma Isabelle Lawson, diretora-executiva da SNBA.- Ela afirma que, até o episódio com o artista brasileiro, a proximidade entre o local de exposição e o Museu do Louvre nunca havia sido objeto desse tipo de falácia. “É a primeira vez que um artista tem a possibilidade de fazer tamanha publicidade sobre esse assunto.”

Presente em camarotes vips no carnaval do Rio de Janeiro e de Salvador, habitué das páginas de revistas de celebridades, o pernambucano que migrou para os Estados Unidos há mais de 20 anos admite que a publicidade faz parte de uma estratégia para “comunicar sua arte”. “É legal estar em um museu, acho que tem um papel histórico”, explica, num português cheio de sotaque norte-americano. “Mas o artista não pode depender somente disso, tem de estar próximo das pessoas, porque nem todo mundo pode viajar a Paris ou a Nova York para ir a um museu.” Com a publicidade, “mais gente fica sabendo do que está sendo feito”.

Em nome dessa “democratização da arte”, Britto defende que suas peças sejam acessíveis a um maior número de pessoas. Para isso, desenvolveu uma linha de objetos artísticos reproduzidos em média escala a preços reduzidos. Enquanto suas telas são vendidas em Paris por até 100 mil dólares, por menos de 200 dólares é possível comprar uma escultura em alumínio com tiragem numerada. Serigrafias assinadas valem 45 dólares. Há ainda uma profusão de objetos derivados que Britto coloca à venda em sua loja virtual, de camisetas a malas de viagem, a uma linha de quipás judaicos.

Esse estilo declaradamente comercial e publicitário faz polêmica no meio artístico. “É difícil chamá-lo de artista. Ele é um designer, talvez”, analisa o professor de Arte Contemporânea da Unicamp Nelson Aguilar, curador de duas edições da Bienal de São Paulo. “Ele se inspira na arte pop sem herdar seus questionamentos sobre o papel do objeto de arte e da reprodução em massa na sociedade de consumo”, explica o crítico, para quem o trabalho de Britto “é como uma moda, que não permanece no tempo”.

O crítico de arte Olívio Tavares de Araújo entende seu trabalho como um produto sob medida para agradar a um público específico. “Poder não passa atestado de competência intelectual. Romero Britto criou um produto totalmente acessível, capaz de agradar a quem não tem maiores exigências, e conseguiu encaixá-lo à fatia rica desse público.”

Segundo a galerista que representa as obras de Romero Britto em Paris, a má vontade do  establishment crítico com o artista carrega o ranço “elitista tipicamente francês”. “Romero Britto tem um modus operandi anglo-saxão. Não tem complexos em ser comercial, sabe fazer valer sua rede de contatos. Nesse meio artístico com raízes francesas, ninguém gosta de quem faz tanto sucesso assim, e ainda por cima tem uma arte feliz e colorida”, analisa Fatiha Amer.

O argumento parece ser compartilhado pela ministra da Cultura Ana de Hollanda, que, na saída do encontro do artista com a presidenta, em fevereiro, definiu o trabalho de Britto como “muito alegre e colorido, a cara do Brasil”. O que promete ser o prenúncio de novas colaborações. O Ministério da Saúde prepara-se para anunciar até o fim do mês que será assinada por Britto a ilustração da marca do Programa Rede Cegonha, de atendimento infantil e de recém-nascidos. Oficialmente, o trabalho não custou nada ao governo federal. “É um presente para o povo brasileiro”, explica a assessoria do artista. Britto completa: “Quero fazer cada vez mais parte do cenário cultural do meu país”. Como se trata de um país cujo mercado consumidor está em plena expansão, faz todo sentido.  •