Cultura

Memória

O elogio do personagem, por Mary Ellen Mark

por Rosane Pavam publicado 30/05/2015 12h00, última modificação 30/05/2015 12h07
Norte-americana, morta aos 75 anos, praticou uma forma assumidamente subjetiva de fotografia social
Reprodução
Para Mary Ellen Mark, um retrato era uma imagem única a capturar a essência de alguém

Para Mary Ellen Mark, um retrato era uma imagem única a capturar a essência de alguém

Não a conhecia como teria merecido no Brasil, mas a norte-americana Mary Ellen Mark, morta em Nova York dia 25, aos 75 anos, de uma síndrome mielodisplásica que afetou seu sangue e medula, significou um raro esplendor para a foto de rua. Formada em pintura, com uma habilitação em fotografia que sua comunidade de amigos mal parecia entender, ela havia testado várias câmeras, como a Rolleiflex e a Retina, antes de se apegar à Leica para fazer retratos.

Inicialmente, estivera na Turquia com uma bolsa de estudos da fundação Fullbright e em 1969 parecia ter encontrado um foco para suas abordagens. A revista Look a mandara a Londres para captar os adolescentes viciados em heroína, e ela voltara com retratos pungentes, que jamais revelariam, em seus personagens, uma condição de decrepitude.

Seu humanismo nas imagens em preto e branco a destacava em um cenário no qual as palavras mais usadas pelo fotógrafo de rua eram o “roubo” de imagens e o ato de “atirar” no momento certo, invisível como um gato, esperto como um rato ao fugir. E ela encontrou o reconhecimento quando, dez anos depois, ao viver 36 dias em uma seção de segurança máxima do Hospital Oregon State, fotografou os doentes mentais para o livro Ward 81.

Dois anos depois, seriam três os meses passados com prostitutas em Mumbai para Falkland Road. Durante as filmagens de Apocalypse Now (1979), ela acompanhou os atores nos bastidores, e se tornou muito conhecido o autorretrato em que posa com um Marlon Brando a segurar suas mãos.

Mary Ellen Mark com Marlon Brando durante as filmagens de 'Apocalypse Now'. 1976

“Não existe isso de ser objetivo em um projeto pessoal”, disse Mary certa vez. “Se alguma coisa lhe importa, você lida com ela subjetivamente. É muito fácil fazer as fotos mentirem, então é preciso ser justo. Quando eu fotografava as sessões de Falkland Road, uma confusão se deu entre uma garota e uma madame. Tirei algumas fotos, mas, quando impressas, elas sugeriam que a mulher estivesse batendo na menina. Não estava. Era meio que uma brincadeira, que pareceu violenta por meio de minha fotografia.”

De comportamento tímido, mas impulsionada à caça de imagens com insistência, ela buscava o personagem de modo peculiar. Conversava com ele, embora o primeiro contato fosse difícil, “como pular em água gelada”. Assim ela se sentiria em 1983 ao conhecer seu personagem icônico, a menina Tiny, de 13 anos.

Mary havia ido a Seattle fotografar crianças de rua para a revista Life, acompanhada da repórter Cheryl McCall. Nas noites de sexta-feira e sábado, elas observavam que os menores da região lotavam o Monastério, um clube noturno para adultos. Enquanto alguns deles entravam normalmente no local proibido, outros ficavam do lado de fora e, sem dinheiro para a entrada, faziam a festa no estacionamento. De repente, de um táxi, saíram duas garotas pequenas. Muito jovens, pareciam brincar de prostitutas, com suas saias curtas e maquiagem. Uma delas era Tiny.

Ela conheceu seu personagem icônico, a menina Tiny, nos anos 1980, quando esta tinha 13 anos

“Saí na direção dela, porque desejava fotografá-la, mas ela gritou e fugiu, por achar estar sendo perseguida por uma policial”, dizia, ao evocar a memória daquele dia. “Perguntei a todos em volta quem ela era, como poderia encontrá-la. E me disseram que às vezes morava em casa, às vezes, na rua. No dia seguinte, fui até ela e a encontrei com a mãe. Isto iniciou minha saga em torno de Tiny por muitos anos.”

Em 2015, aos 44 anos, vítima de uma vida marginal, mãe de dez filhos, Tiny seria o objeto de seu próximo trabalho, a ser feito em conjunto com o marido Martin Bell, o diretor de Streetwise. Neste filme de 1983, era Mary quem a procurava, consolava, e a impulsiona à difícil autoestima. Neste ano, a ideia seria fotografar seus filhos, de grandes personalidade e história, e ela já reunia interessados em financiar o projeto.

“Eu sempre soube, desde aquele primeiro momento em que peguei uma câmera nas mãos, que meu destino seria fotografar pessoas e fazer, a partir delas, documentos sociais”, contava. “Ninguém jamais entendeu minha paixão pela fotografia. Veio do nada. Nunca fui uma pessoa muito técnica.”

Para Mary Ellen Mark, um retrato era uma imagem única a capturar a essência de alguém. Ela não se preocupava com detalhadas séries fotográficas. Achava ser relativamente fácil fazer uma boa foto, mas para atingir a grande imagem haveria de tentar muito mais, ao limite do impossível.

“Você nunca sai de casa pensando que vai fazer uma foto icônica. Uma imagem boa basta. Eis o problema das fotos digitais. Você olha na pequena tela e acha que chegou lá, deixando o ambiente para trás. Mas neste momento cresce seu risco de perder a grande imagem. Digo aos meus alunos sempre que não olhem o resultado das fotos na tela. E fotografem até cansar."