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Resenha

O desperdício que revela Karina Buhr

por Aline Valek publicado 12/05/2015 14h15
Desperdiçando Rima, livro de estreia de Karina Buhr, reúne poesias, fragmentos, anotações e desenhos que falam muito sobre uma artista feita de misturas
Karina Buhr
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Uma das ilustrações feitas pela própria Karina Buhr para seu livro

Uma mulher de véu dançando freneticamente no meio da rua repetindo palavras aparentemente aleatórias. Assim fui apresentada a Karina Buhr há alguns anos, no clipe “Cara Palavra”. 

A impressão foi marcante demais para eu não resgatá-la agora, depois de ler seu primeiro livro, o “Desperdiçando Rima”. Marcante porque lembro bem de ter ficado com aquela cara de “whaaat” que às vezes é a única reação possível diante de algo novo e que deixa a gente meio paralisada, tentando entender. Ou às vezes desistir de entender e simplesmente curtir.

Os versos da música, poucos e curtos, na minha cabeça se desdobraram em muitos, com significados bem diferentes, o que mostrava a intimidade de Karina Buhr com as palavras, a ponto de brincar com elas daquela forma.

“Taí uma mulher massa”, pensei.

Inevitável essa lembrança porque o livro veio para completar e dar profundidade àquela figura tão doida e misteriosa que comecei a esboçar na minha mente em um clipe no meio da programação rotineira de uma extinta MTV e que, ao decorrer do tempo, continuei a montar, feito quebra-cabeça, com outras músicas, textos, desenhos e até tuítes de Karina Buhr.

“Taí uma mulher massa também escrevendo”. 

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A capa de Desperdiçando Rima
O quebra-cabeças ainda estou tentando montar. As peças vieram espalhadas, sem manual de instruções, e elas não necessariamente se encaixam de um jeito só. “Desperdiçando Rima” ajuda a entender? Nada. Só embaralha mais.

Fico imaginando alguém que vá encontrar nesse livro de poemas o primeiro contato com o trabalho de Karina Buhr, assim como “Cara Palavra” foi para mim. Talvez tenha a mesma reação de “whaaat” e se perca entre as poesias, fragmentos e anotações de “Desperdiçando Rima”, como se estivesse encarando o enigma da esfinge, vendo ela te devorar aos poucos, uma página por vez.

Mas não há enigma a ser decifrado, embora haja, de certa forma, uma esfinge: em vez de metade mulher, metade leão, há essa mistura doida que é metade cantora, metade atriz, metade escritora, resultando numa porcentagem corretíssima de uma pessoa 150% artista.

Aliás, também é apropriado falar em esfinge porque o Egito se faz presente em algumas páginas do livro, como em “Peixo Nilo”; detalhe que mostra como é abrangente o universo de suas poesias.

O livro pode ser frustrante para quem está à procura de um tema, de algo uno, autocontido, que faça sentido sozinho, pelo que está ali, impresso. Por isso gosto quando Karina, já no comecinho, avisa: olha só, não tem isso de tema, tá? E explica: “tema é qualquer coisa que respira ou que, quando vê, suspira.” 

Não tem mesmo como “Desperdiçando Rima” ser uma coisa só, se sua autora é várias ao mesmo tempo. Cantora, compositora, percussionista. Já atuou no Teatro Oficina, de Zé Celso. Desenha e escreve para suas colunas e blogs, como o Pane no Pântano, na CartaCapital. Tem carreira solo, mas já integrou várias bandas, como a Comadre Fulozinha. É da Bahia, mas também de Recife e de São Paulo. Dá pra entender? Nem precisa.

“Desperdiçando Rima” também não é sobre uma coisa só porque é um livro de intersecções; entre a música e a literatura, entre a poesia e a crítica, entre o que é pessoal e o que é político.

Conhecer um pouco da trajetória – e especialmente os posicionamentos – de Karina Buhr faz a experiência ficar mais interessante. Porque dá para ver como ela pegou suas histórias, sentimentos e opiniões, jogou no liquidificador da arte e bateu até virar algo novo.

Como ler o poema “Falta de Sorte” sabendo que ele é música que Karina Buhr cantou com a banda Comadre Fulozinha: o poema ganha tridimensionalidade, saindo do papel plano para ganhar uma dimensão musical.

Ou saber que ela já se posicionou fortemente contra a demolição do histórico Cais José Estelita, no Recife, com o propósito de construir torres residenciais e comerciais, para entender por que ela reveste o espaço urbano de humanidade no poema “Estelita”, onde diz: “E a cidade sente, ela é de gente / Por onde andam seus pulmões?” 

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Karina Buhr fez show no Cais Estelita, no Recife

Ou ainda saber que Karina Buhr é feminista para entender por que os desenhos do livro retratam quase sempre a imagem da mulher (muitas vezes em uma livre e afirmativa expressão de sua sexualidade) ou por que alguns de seus poemas retratam a condição feminina em uma sociedade opressora.

Seus poemas com temática mais feminista me fizeram lembrar do zine “Sexo Ágil”, que Karina lançou em 2012. Revendo a primeira edição (o zine chegou à sua quarta edição este ano) reconheci ali alguns escritos que compõem a mistura de seu livro, como no poema “Você me feriu”, que faz paralelo com o zine na história sobre como ela, numa delegacia, tentou denunciar uma tentativa de estupro que o delegado se recusou a registrar. Em versos, contou: “na delegacia / nada a registrar / nenhum arranhão, nenhuma roncha no corpo. / O arranhão e o soco foram dentro.” 

Entre as minhas páginas preferidas, duas historinhas. Em uma, o poema “Nenhuma Vista”, Karina se coloca no lugar de uma pessoa que rouba porque tem fome, alguém sem vícios e sem medo de nada – exceto da polícia. Na outra história, o poema “Pixo”, um policial que, diante de um muro todo pichado, em vez de perseguir os pichadores, prefere tirar uma foto do muro, em uma inesperada atitude de sensibilidade.

Talvez só seja um pouco difícil encontrar todos esses poemas de que falo aqui, se não há índice no livro. O que não acho que tenha sido por descuido.

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"Bandida", ilustração de de Karina Buhr que faz parte de seu livro
A falta de índice sugere a liberdade que a autora usou para escrever e também a liberdade com a qual ela quer presentear quem lê. Não há ordem. Não há roteiro. A falta de índice, ainda que sem querer, é ela dizendo: faz o seu caminho aqui dentro, que eu mesma ainda estou procurando a saída. Perder-se, quando é pelos versos de Karina que se transita, pode ser uma experiência reveladora.

Discordo de Gregório Duvivier na sinopse da contracapa; não quando ele diz que Karina Buhr escreve e desenha como canta, à mão livre; mas quando diz que, ao contrário do que sugere o nome do livro e o título de um dos poemas, não há ali uma sílaba sequer desperdiçada.

Penso o contrário. Em seu livro, Karina Buhr conseguiu desperdiçar palavras sem dó. Penso isso porque entendi “desperdício” como algo que foi além da medida, algo que foi gasto sem limites, algo que não foi controlado – e, por isso, achei o título tão adequado.

Acredito que é justamente nesse desperdício do artista, seja ele ou ela quem for, é que a arte se revela. E Karina Buhr, em seu próprio desperdício, também se revela; embora, como bom enigma que seja, também deixe alguns espaços faltando, para que a gente participe preenchendo com nossa própria imaginação. 

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Cantora, atriz e ilustradora, Karina Buhr lança seu primeiro livro