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Infância, o pior dos mundos

por Marsílea Gombata publicado 20/12/2013 15h50
Em 'Na Escuridão, Amanhã', seu livro de estreia, Rogério Pereira faz um relato tão perturbador quanto sensível da juventude
Guilherme Pupo
Roge¦ürio Pereira (Foto- Guilherme Pupo)_024.jpg

Rogério Pereira é editor do jornal literário 'Rascunho'

“Nossa casa é um útero seco. E o demônio tenta habitá-lo”. A frase que marca o início de Na Escuridão, Amanhã mostra o que aguarda o leitor no desenrolar do livro: um relato tão perturbador quanto sensível. Romance de estreia de Rogério Pereira, editor do jornal literário Rascunho, o livro lançado pela Cosac Naify é uma das obras mais profundas da recente literatura brasileira.

“Tentei escrever um livro que desestabilize o leitor, o faça pensar, que o inquiete. Não sei se consegui. Mas a intenção é fazer o leitor se mexer, ficar incomodado, durante a leitura”, conta Pereira em entrevista a CartaCapital. “Sempre digo que a leitura é um mergulho pra dentro. E um mergulho pra dentro é, invariavelmente, muito desagradável. Descobrimos coisas horrorosas a nosso respeito a cada bom livro lido.”

O livro conta de forma original a trajetória de uma família retirante que deixa o campo em busca de melhores oportunidades na cidade. O enredo, pesado por si, ganha um ar perverso com as imagens de abuso sexual e violência doméstica retratadas na obra. “Mas quando durmo, pai, é você que me faz companhia, é a tua mão lasciva que me percorre, perscruta o meu sexo, afaga meus cabelos, envolve-me num abraço de amante. Teu falo ereto é um cão que vigia o meu sono.”

Ou mesmo quando discorre sobre a incapacidade de dar fim a um ciclo macabro: “Ela nunca dizia nada. Transformava a raiva em tapas pesados; a tristeza em choro.”

Ao pano de fundo do romance o autor incorpora elementos que fazem referência à sua própria infância, nos grotões de Santa Catarina. "Saí da roça em busca de uma vida melhor em Curitiba. O que é uma vida melhor? Até há algum tempo, o irmão mais novo da minha mãe ganhava a vida arrastando um carrinho de papel pelas ruas da cidade. Quem são estes homens e mulheres que passam com carrinhos estufados de papel e filhos a despencar nas calçadas? Quem esgarça as cidades para as bordas e seus precipícios? Somos nós, o bando de retirantes que nunca acaba, que nunca deixa de se movimentar, em busca da tão sonhada vida melhor."

O livro, sensível e agressivo, é marcado também pelo misto de raiva e impotência que acompanha o narrador. Um aspecto, talvez, inexorável na vida não apenas do protagonista, mas de todos os leitores. "O que nos espera amanhã é a escuridão. Estaremos sempre impotentes diante da vida. Não há muitas saídas. O que tentei retratar (e não só isso) foram a fragilidade e a força do ser humano diante da vida."

Confira a entrevista com o autor:

CartaCapital - Como surgiu a ideia de escrever o livro?

Rogério Pereira - Levei dez anos escrevendo Na escuridão, amanhã. Até a publicação, são quase 14 anos. O longo tempo de gestação significa excessivo rigor, desmedida autocrítica e certa incapacidade de encontrar o ritmo adequado a uma história fragmentada sobre retirantes. A gênese do livro é um tanto inusitada. Numa conversa com o escritor Luiz Ruffato, ele me disse: “estes teus textos formam um conjunto muito interessante”. Ele se referia a narrativas esparsas que eu publicava no Rascunho. De tanto ele me “pressionar”, resolvi encarar a aventura de escrever um romance. Aí, levei mais cerca de três anos retrabalhando os textos publicados e escrevendo novas partes, para amarrar tudo numa breve narrativa. Foi um inferno: a história que eu imaginava tomou outros rumos, ganhou vida própria, me colocou contra a parede, voltou ao caminho original, desembestou outra vez. Ao final consegui parir (não sem muita dor) este magricelo Na escuridão, amanhã.

CC - Em que você se baseou para escrever a história? Há traços biográficos no livro?

RP - Sou um retirante. Nasci na roça, nos grotões de Santa Catarina, de parteira. Levei três dias para me libertar das entranhas da mãe. Sou um homem de 40 anos anacrônico e deslocado na cidade grande. Carrego um sobrenome que não é meu. Não deveria ser Pereira, mas Dias. Vim pra Curitiba aos sete anos. E sempre voltei pra roça. Muitos tios ainda moram por lá. Meus pais não foram à escola. Minha mãe lia a Bíblia todos os dias com a ponta dos dedos. Minha irmã morreu de repente (nunca soubemos do quê) numa madrugada fria e inesquecível. Meu pai nos abandonou. Depois, voltou. Meu irmão desistiu da escola aos 14 anos. Comecei a trabalhar aos 10 anos vendendo flores na rua. Trabalhei em fábricas de móveis, dentais e jornais. Minha avó paterna era o demônio em pessoa. Morreu agonizando na nossa casa. Se há traços biográficos em Na escuridão, amanhã? Minha vida está no livro. Mas não é um romance autobiográfico. Parto de alguns fantasmas que me acompanham desde que minha família abandonou a roça em direção a Curitiba. Todos estes fantasmas rondam o livro. É a história de uma família e seus dramas, seus pecados, seus medos, suas desgraças. Ou seja, uma família como outra qualquer. Há um pai tirano, uma mãe submissa e filhos desnorteados. Há pontos de aproximação com a minha história familiar. Mas, ao final, tudo se afasta. Nada se parece com a minha família. Nada se parece com o que vivi. O que sobra é um livro, uma ficção, um romance. Ou seja, tudo é verdade, tudo é mentira.

CC - O quanto do seu trabalho com literatura ao longo dos anos ajudou (ou atrapalhou) na elaboração deste livro?

RP - Um escritor se constrói a partir dos livros que leu e da vida que viveu. Li muitos livros e vivi muitas vidas nestes últimos 40 anos. Suspeito que ainda me restem mais uns 40 anos pela frente. Uns têm mais talento para juntar estas duas loucuras — livros e vida — numa obra. Outros, menos. Todo escritor é resultado disto: leitura e vida. Todos os livros lidos (e foram muitos) e todas as aventuras vividas desde o dia em que rompi aos berros entre as pernas grossas e lisas da minha mãe estão, de alguma maneira, condensados nas 130 páginas de Na escuridão, amanhã.

CC - Quando falamos de retirantes que deixam o campo para tentar a vida na cidade parece algo de um passado distante e não parte da realidade hoje. Estamos, portanto, enganados?

RP - Seremos sempre retirantes. O ser humano é alguém deslocado, incomodado no mundo. Só as avencas ficam impassíveis diante da atrocidade que é viver. O que são as grandes cidades brasileiras? Um acúmulo de retirantes, filhos de retirantes, netos de retirantes, bisnetos de retirantes. As grandes cidades estão atulhadas de gente que perambula por elas como zumbis em busca de um caminho de volta. Não há volta possível, em muitos casos. No meu caso, é mais significativo. Saí da roça em busca de uma vida melhor em Curitiba. O que é uma vida melhor? Até há algum tempo, o irmão mais novo da minha mãe ganhava a vida arrastando um carrinho de papel pelas ruas de Curitiba. Quem são estes homens e mulheres que passam com carinhos estufados de papel e filhos a despencar nas calçadas? Quem esgarça as cidades para as bordas e seus precipícios? Somos nós, o bando de retirantes que nunca acaba, que nunca deixa de se movimentar, em busca da tão sonhada vida melhor. Outros retirantes vão a Miami fazer compras, visitam a torre Eiffel, conhecem as savanas africanas. O restante (um restante de quase 100%) fica por aí aparando os filhos para que não rachem a cabeça na calçada irregular. Na história, C. é a minha cidade, o espaço literário que tento criar, e que fará parte de todos os meus livros. C. é a minha prisão, a minha masmorra e o meu túmulo.

CC - A história do livro, em sua opinião, poderia acontecer em qualquer classe ou contexto social?

RP - Se pensarmos que qualquer classe social comete suicídio, fratricídio e incesto, a resposta é sim. Tentei escrever um livro que, de alguma maneira, desestabilize o leitor, o faça pensar, que o inquiete. Não sei se consegui. Mas a intenção é fazer o leitor se mexer, ficar incomodado, durante a leitura. Sempre digo que a leitura é um mergulho pra dentro. E um mergulho pra dentro é, invariavelmente, muito desagradável. Descobrimos coisas horrorosas a nosso respeito a cada bom livro lido. Espero que de alguma maneira o leitor dê um salto para dentro de si ao ler Na escuridão, amanhã. E retorne muito transtornado.

CC - O quanto esse tipo de enredo - e todas as mazelas que o circundam - é representativo do Brasil?

RP - Acho que as mazelas tratadas no livro pertencem ao ser humano, em especial a crença desesperada na vida eterna, num Deus salvador. O movimento migratório da roça para as grandes cidades é uma característica muito importante na história recente do Brasil. No entanto, acho que o mais importante no livro são as inquietações humanas que movem os personagens, principalmente a tentativa de vingança contra um pai opressor e tirano.

CC - Ao ler o livro senti que a raiva do narrador é embebida em uma sensação de impotência. Você concorda com isso? O que pretendia ao retratar isso?

RP - O que nos espera amanhã é a escuridão. Estaremos sempre impotentes diante da vida. Não há muitas saídas. O que tentei retratar (e não só isso) foram a fragilidade e a força do ser humano diante da vida. Quanto mais frágeis somos, mais fortes tentamos ser. É uma luta muito desigual e insana esta que travamos na busca de um sentido para nossos escassos dias. E o mais engraçado é que, possivelmente, chegaremos ao final sem nunca descobrirmos o tal sentido para este breve espaço entre o primeiro berro e o último suspiro. A certeza da escuridão nos move neste lodaçal.

CC - Traumas como os vividos pelos personagens podem, em sua opinião, persegui-los para sempre, a ponto de impedir que eles se reergam e consigam reconstruir suas vidas?

RP - Não sei dizer. Não sou psiquiatra, nem psicólogo. Meus amigos sempre me dizem que preciso fazer análise. Dizem que eu escreveria muito melhor se fizesse análise. Respondo que sou um caso perdido. Acredito que os traumas nos constituem. Sou um acúmulo de todos os meus traumas. Mas o que é um trauma? Acho que a infância é o pior dos mundos. É o grande trauma que arrastamos vida afora. Tudo o que escrevo e vivo tem um pé na minha infância. Acho que ainda devo ter 7 anos. Ou 14 anos. Ninguém se liberta do trauma da primeira relação sexual, por exemplo. Aquela menina estendida na laje fria numa noite sem estrelas me acompanhará por toda a vida. É um fantasma a me carregar pela mão. Sim, benditos traumas que me fazem rastejar rumo à escuridão.

CC - O quanto essa percepção pode ser projetada para o Brasil, um palco de horrores e descaso sobre a sua própria população?

RP - O Brasil como palco de horrores é uma ótima imagem. Somos um palco permanente de horrores. Às vezes, um pândego palco de horrores. Agora, sinceramente, não sei dizer como esta percepção (dos traumas vividos capazes de impedir alguém de se reerguer) possa ser projetada no Brasil. Acho que não. O Brasil consegue se reerguer sempre. Não há outra saída. Acredito nisto: cai, levanta, cai de novo, levanta de novo, cai, volta a se levantar. E, finalmente, cai, fica-se estatelado, fecha-se o caixão, joga-se terra em cima. Fim. Escuridão.

CC - Existe algum novo trabalho em curso? Do que tratará?

RP - Estou trabalhando em um novo romance. Pretendo finalizá-lo em três anos. Serão duas histórias paralelas: a trajetória final de uma mulher com câncer e a de um velho que acredita ter sobrevivido a Auschwitz. Em determinado momento as duas narrativas se encontram. Também estou trabalhando na reunião das melhores entrevistas do projeto Paiol Literário. E pretendo publicar um livro de crônicas e um infanto-juvenil. Tudo sem pressa, como acredito deva ser o ritmo da literatura.