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Crônica do Villas

Ô de casa!

por Alberto Villas publicado 22/05/2014 09h30, última modificação 22/05/2014 09h58
Sentir saudade. Se adaptar. São coisas que acontecem sempre nessa vida hoje em dia. Por Alberto Villas
Flickr / Juniani Marzani
Vinil

Passo horas admirando a capa de meus vinis

Acredito que acabei me adaptando a esse mundo moderno. Esse mundo de Facebook, Instagram, WhatsApp, Easytaxi e Taxibeat. Sinto saudade de quê? De um álbum de retratos com as folhas separadas por papel celofane, de um envelope verde e amarelo debaixo da porta? Talvez. Mas saudade de rebobinar uma fita K-7? Nenhuma.

Algumas coisas custei a me adaptar. Escrever direto no computador, bater fotos sem filme, ter uma agenda eletrônica, ler no tablet. Mas hoje acho tudo isso o máximo, ao ponto de não ter a mínima saudade da minha Remington, dos filmes Ektachrome ou da minha agenda Pombo com capa de couro. Ler no tablete estou em processo de transição. Sou do tempo do grande jornalista Myltainho, que adorava o cheiro de livro. Antes de comprar um, sempre cheirava.

Às vezes vivo uma vida dupla. Ouço Nara Leão mas ouço Tiê. Ouço Beatles mas ouço O Terno. Compro um CD mas muitas vezes esqueço de abrir o encarte. Ao mesmo tempo, passo horas admirando a capa de um vinil dos Alman Brothers, por exemplo. Sonho em ter um carro elétrico mas ainda gosto do cheiro de gasolina.

Amo folhear um número amarelado da revista Senhor mas adoro quando chega pelo correio a última Geo. Uso uma Pilot ponta fina 0.5, mas guardo num armário com porta de vidro na minha revistaria, uma belíssima Parker 51.

Fico aqui refletindo essas coisas e coloco uma música do Nando Reis pra ouvir.

Será que eu falei

O que ninguém ouvia?

Será que eu escutei

O que ninguém dizia?

Eu não vou me adaptar


Vou sim. Já me acostumei a comprar pela Internet, a por um programa pra gravar, a colocar uma foto de pé no Facebook, a organizar as fotografias no iPhoto, a fazer o check-in automático na GOL, a preparar um café na máquina Nespresso. Pensando bem, considero isso um progresso.

Eu não tenho mais a cara que eu tinha

No espelho essa cara já não é minha

É que quando eu me toquei

Achei tão estranho

A minha barba estava deste tamanho

Hoje cedo eu me lembrei da minha mãe à beira do fogão separando os marinheiros do arroz e tirando as pedras do feijão. Quando a campainha tocava, ela sempre exclamava:

- Quem será?

O mundo era assim. As pessoas iam na casa das outras sem avisar, sem hora nem dia marcado. Quando digo pessoas, muitas vezes eram famílias inteiras que iam visitar outras sem avisar. Chegavam de repente, sem mais nem menos. Por isso, toda vez que a campainha tocava, minha mãe exclamava:

- Quem será?

Quantas e quantas vezes, viajando pelo interior de Minas Gerais, o meu pai chegava a uma cidade tipo São Lourenço e dizia:

- Estou devendo uma visita ao Darci.

E lá íamos nós, pai, mãe e cinco filhos bater a campainha na casa de Seu Darci. Éramos recebidos com a maior fidalguia. Logo logo vinha o cafezinho quentinho, coado na hora, e o bolo de fubá saído do forno, fumegando. Pras crianças, Guaraná Champagne Antártica e biscoitinhos de polvilho.

Dificuldade tínhamos era de sair dali. Dona Tonica já tinha colocado o frango caipira na panela e não ficar pro jantar seria uma desfeita.

Por mais amigo que seja, quem hoje bate na porta do outro sem avisar? Tem três semanas que estou combinando um almoço com um grande amigo. Quando eu posso, ele não pode. Quando ele pode, sou eu que não posso. Já trocamos uns cinco e-mails e uns dez recados pelo iPhone. Não tem jeito, o almoço ainda não pintou.

Estou pensando seriamente em sair daqui uma hora dessas, chegar na casa dele e tocar a campainha. Se não tiver campainha, vou bater palmas e gritar:

- Ô de casa!

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