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Cultura

Carta de Portugal

O Chico por cá

por Eduarda Freitas — publicado 09/11/2010 16h51, última modificação 11/11/2010 19h07
Chico Buarque vence Prémio Portugal Telecom numa noite de homenagem a José Saramago. Quinta passada, a tarde foi de Chico
Chico por cá

Chico Buarque vence Prémio Portugal Telecom numa noite de homenagem a José Saramago. Quinta passada, a tarde foi de Chico. Por Eduarda Freitas, de Portugal. Foto: Patrícia Cecatti

Chico Buarque vence Prémio Portugal Telecom numa noite de homenagem a José Saramago. Quinta passada, a tarde foi de Chico

Todas as quintas-feiras o carro desce os socalcos até ao Museu de Lamego.
As conversas giram em volta das voltas que a vida dá, em volta da lua que agora aparece mais cedo, em volta das cores que se cruzam no céu, em volta das histórias que inventamos porque nos apetece rir. Os quinze minutos de atraso com que chegamos à aula, fazem-nos ser bons portugueses, porque como dizia um amigo italiano “os portugueses chegam atrasados a tudo, porque ficam sempre na conversa…e eu acho isso lindo!”. Quinta-feira é fim-de-dia de História da Música. E a quinta-feira da semana passada foi fim-de-dia da música daqui e daí. O professor é um homem grande que gesticula com o coração ao ouvir os primeiros acordes e que gosta da velha sala à luz de velas, para ouvir (ouvirmos) melhor os espaços entre as notas. Não foi ele que o disse, sou eu que lhe invento estas justificações, porque gosto de as escrever e porque acho que ele iria gostar de as ler. Na quinta-feira passada, falámos de Tango, Flamenco, Fado e Samba. Ouvimos Amália e a mulher por detrás da artista contada e cantada pelo professor que também foi amigo. Não sei se o fado é triste. Só sei que há um prazer que se encaixa quase como um orgulho nacional, no triste fado que tecemos. Ouvimos a guitarra portuguesa chorar ao lado do samba que nos puxava o pé para o inquieto. É frio o Museu de Lamego. E os pés não se compadecem com o frio. Ao fado, os dedos escondidos nas botas, encolhidos, tocam a sola que dorme no chão secular que nos acolhe. Ao samba, já as falanges se esticam, a sola da bota namora o chão, a marcar o ritmo, a convidar os dedos das mãos a juntarem-se à festa. Do Brasil o professor trouxe amigos em fotografias sonoras. Um deles, Chico Buarque, ainda e quase menino. O Chico ouvi-o eu no Coliseu do Porto. Era fim de Outubro e fim de ciclo. No mesmo dia em que plantei tulipas da Holanda na varanda com vasos à espera de mimos. Para mim, o Chico sempre foi a preto e branco. Porque a cor dos olhos que o pinta, rouba-me a possibilidade de lhe inventar outras cores. Outro amigo, falou-me dele em jogos de futebol. Da sensibilidade, do afecto, das palavras em livros. O Chico só o sei das músicas, não da literatura, e o Chico para mim é balançar. E no Museu de Lamego, a cadeira - que faz barulhos estranhos sempre que alguém se mexe - balançou às histórias do Chico e do Brasil cantado por dentro. O resto, já se sabe, é fado.