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Cultura

Crônica do Villas

O cativeiro

por Alberto Villas publicado 05/12/2013 09h25
Era um cativeiro frio e com azulejos brancos até a metade da parede. Por Alberto Villas
Exposição Berlin - Banksy / Aline G./Flickr
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Era um cativeiro frio e com azulejos brancos até a metade da parede

Minha amiga arregalou os olhos quando soltei essa:

- Passei muitas horas da minha infância no cativeiro!

Em principio, ela não entendeu direito, achou que eu havia sido sequestrado quando criança. Mas não foi nada disso. Expliquei a ela direitinho e ela entendeu, achando até um pouco engraçada a história.

Éramos cinco em casa, dois homens e três mulheres. Brigávamos como todo irmão briga. Pelo pedaço maior da maçã, pelo restinho de Coca-Cola na garrafa, pelo programa preferido na única televisão da casa, pelo lugar na janela do carro. Brigas bobas, daquelas que a gente sempre ouvia um dizendo...

- Foi ele quem começou.

Com o meu pai por perto, essas briguinhas acabavam num segundo. Bastava ele dar aquela olhada e pronto. Nem precisava mostrar a palma da mão. Com a minha mãe, a história era outra. Não era fácil dar conta de cinco filhos dentro de casa e quando chegavam as férias o bicho pegava.

A solução que ela encontrou para que a paz voltasse a reinar no lar dos Fontes Villas, foi bem particular.

- Direto pro banheiro!

Ali era o nosso cativeiro, meu e de meus quatro irmãos. Quando a coisa começava a esquentar, ela não pensava duas vezes, pegava pelo braço o primeiro que via pela frente e levava até o banheiro. Abria a porta, dava um empurrãozinho pra gente entrar e trancava a porta pelo lado de fora.

- Fica ai até acalmar!

Um silêncio sepulcral se instalava ali naquele cômodo frio e se espalhava pela casa. As brigas acabavam rapidinho e pobre coitado do escolhido que já estava lá sentado na beira da banheira olhando pro nada, esperando o tempo passar. Não me lembro quanto tempo ficava ali dentro, parecia uma eternidade. Quando tudo esfriava, ela abria a porta e dizia simplesmente:

- Pode sair!

Saia cabisbaixo, com o rabo entre as pernas nem mais lembrando o motivo da briga que me levou até aquele cativeiro.

Quem não se lembra daquele banheiro? Tinha o chão de ladrilhos desenhados, azulejos brancos até a metade da parede, a outra metade era pintada de látex azul piscina. Num canto ficava um cesto de vime onde minha mãe colocava a roupa suja. Tinha a privada, o box com uma cortina plástica com desenho de peixes nadando, a pia e em cima da pia, um armarinho.

De tanto abrir aquele armarinho pra fazer o tempo passar, sabia de cor o que tinha ali dentro. Sete escovas de dentes, um tubo de pasta Kolynos, um pote de brilhantina Myrurgia do meu pai, um vidro de Leite de Magnésia de Phillips, uma escova de cabelo, um pente Flamengo, um rolo de esparadrapo Johnson, um de gaze, um  vidrinho de mercurocromo e uns três sabonetes Vale Quanto Pesa. Era tudo que tinha.

O espelho do armarinho tinha as beiradas comidas pela ferrugem e a lâmpada em cima dele era uma lâmpada bem fraca, uns 40 volts. Haviam dois hidrantes dentro do box que minha mãe só fechava quando a família saia de férias. Ela tinha medo que um vazamento de água pudesse inundar nossa casa.

Ia me esquecendo de uma coisa. Dentro do box tinha também uma toca de banho de borracha, uma bucha dessas que dão em trepadeira e uma pedra pome que minha mãe usava para tirar a sujeira dos nossos pés.

O que eu nunca me esqueci é que naquele cativeiro tinha um vaso sanitário da marca Celite. Eu ficava ali esperando o tempo passar, tentando decifrar o que estava escrito em baixo relevo naquela porcelana, até que um dia consegui ler. Acho que foi uma das primeiras coisas que aprendi a ler:

Ce-li-te.

 

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