Você está aqui: Página Inicial / Cultura / O Brasil por descobrir

Cultura

Exposição

O Brasil por descobrir

por Orlando Margarido — publicado 12/05/2011 11h12, última modificação 12/05/2011 11h16
Um país curioso visto da perspectiva do inglês Charles Landseer e do francês Jean-Baptiste Debret, os artistas viajantes pelo Brasil do século XIX. Debret chegou a viver por 15 anos no País e fundou o que viria a ser a Academia Imperial de Belas Artes

Na memória histórica da passagem dos artistas viajantes pelo Brasil do século XIX, interesses e temas são coincidentes, mas poucos os relatos de uma convivência entre os personagens. A partir desta semana, é possível refletir mais sobre a proximidade e diferença entre as obras de dois dos maiores representantes do gênero. O francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848) está representado desde o último dia 4 por aquarelas e desenhos na exposição Debret – Viagem ao Sul do Brasil, em cartaz no endereço da Avenida Paulista da Caixa Cultural. A partir de 11 de maio é a vez de a obra similar do inglês Charles Landseer (1799-1879) ocupar o Instituto Moreira Salles, também em São Paulo. A marcar esse acaso há mais que um mero olhar sobre uma nação exótica em busca de se civilizar. No valioso Álbum Highcliffe, hoje em posse do IMS e de onde provêm os 90 trabalhos de Landseer para a mostra, havia também peças de Debret, uma inclusão que se mantém misteriosa para historiadores.

Quem atenta para a questão é o estudioso Leslie Bethell, professor emérito de História Latino-Americana da Universidade de Londres, em texto para o livro Charles Landseer – Desenhos e aquarelas de Portugal e do Brasil, 1825-1826. Lançado pelo IMS (236 págs., R$ 140), acrescenta cerca de cem imagens ao exposto. Nele, pode-se acompanhar a trajetória do desenhista tanto pela evolução de sua formação a partir da Academia Real de Belas-Artes londrina como seu progresso nos traços, que começam modestos no lápis para ganhar vivacidade nas aquarelas.
Não é a qualidade artística, no entanto, a mais evidenciada no seu caso, e sim o foco de seu tema. Menos talentoso que seus irmãos também artistas, especialmente o pintor e escultor Edwin Landseer, Charles dedicou-se ao cotidiano dos escravos e à paisagem do Rio de Janeiro, uma das cidades por ele visitadas. Essa equação lembrada por Bethell o aproxima em parte de Debret, também interessado nos tipos locais da então capital do império. A diferença parece estar no fato de que, enquanto o inglês trata o universo com mais realismo, o seu colega francês tende a colorir a realidade de modo mais idealizado.

A justificativa estaria na educação pessoal e no princípio de suas viagens. Embora ambos, assim como os demais artistas-viajantes, aqui tivessem chegado integrando missões europeias, Landseer cumpriu um caminho peculiar. Seu pai, o gravador John Landseer, queria que o jovem aprimorasse sua arte “à luz e na paisagem dos trópicos” e conseguiu colocá-lo em uma missão diplomática liderada por Charles Stuart, que o teria como influência e parceria constante na empreitada.

Stuart era o negociador para o reconhecimento da recente independência do Brasil perante Portugal e Inglaterra. Em 1825, a intenção propiciou a Landseer passar períodos relativamente longos em Lisboa e no Brasil, onde se instalou por dez meses, a maior parte deles no Rio, mas também com visitas a Pernambuco, Bahia, Santa Catarina, Santos, São Paulo e Espírito Santo. Desse projeto resultaram 306 desenhos a lápis, bico de pena e carvão, além de aquarelas originais. Trabalhos então reunidos num caderno, mais tarde batizado de Álbum Highcliffe.
O nome provém de um percurso tão surpreendente como eram as navegações de outrora e inclui o nome de Stuart e do historiador brasileiro Alberto do Rêgo Rangel até o retorno do conjunto ao Brasil um século depois. Em 1835, Stuart já detinha o legado de Landseer e o guardava em sua biblioteca do castelo de Highcliffe, na costa inglesa de Dorset. Quando Rangel, um especialista no primeiro reinado, bateu à porta da propriedade, em 1924, ela havia sido herdada por um primo distante de Stuart. O volume encontrado pelo historiador ainda mantinha seu nome original, Viagem aos Brasis 1825-6, e incluía 13 aquarelas atribuídas a Debret, além de trabalhos do pintor e botânico inglês William John Burchell e do artista Henry Chamberlain. Só a partir daí o caderno passa a ter seu nome atual. Dois anos depois é comprado pelo colecionador carioca Guilherme Guinle, que o guarda por três décadas até dar de presente ao sobrinho Cândido Guinle de Paula Machado. Em 1999, foi arrematado pelo IMS num leilão da Christie’s, o que atesta o valor que o conjunto adquiriu com o tempo.

A origem do legado de Debret agora exposto não é tão tortuosa, mas inclui uma curiosa relação com outro colecionador, Raimundo Ottoni de Castro Maya. Nos anos 1960, ele, em parceria com Fernando Portella e Paula Machado, viabilizou em Paris uma edição comemorativa com reproduções de Landseer. Castro Maya adquiriu nos anos 30 os originais que serviram de base para o famoso livro de Debret, Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil. Hoje a coleção pertence ao museu que leva o nome do mecenas, no Rio. A instituição figura como a detentora do maior acervo de Debret no País, de onde sai o lote de 60 peças exibido na Caixa Cultural. Nele, se distinguem de imediato duas outras características que enriquecem o contraponto em relação ao artista-viajante inglês.

Debret permaneceu 15 anos no Brasil, bem mais que seu colega, e teria incluí-do em sua jornada o Sul do País, partindo do estado de São Paulo para o Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Essa fase, registrada em aquarelas e desenhos, somada à passagem pelo Rio de Janeiro, formam os dois módulos da exposição. Na fase do Rio, é mais rica sua composição da vida urbana, por meio de tipos dos habitantes, vestimentas, costumes e festas populares. Aproxima-se de Landseer, porém, na visão das paisagens da Mata Atlântica e nas marinas do contorno carioca. Em contraposição, como salienta a curadora Anna Paola Baptista, os trabalhos do Sul se distanciam da intimidade e o predomínio é o de vistas ao longe. Ela também lança um mistério que, como as pranchas de Debret no álbum de Landseer, ainda não pode ser esclarecido. O francês talvez não tenha se deslocado ao Sul, apenas trabalhado em cima de relatos e desenhos de outros viajantes.

O fato, contudo, é que Debret contava com mais prática do que Landseer em seu ofício quando integrou a Missão Francesa e se tornou o nome mais prestigiado do grupo. Seu reconhecimento lhe permitiu fundar no Rio uma escola de artes e ofícios, mais tarde tornada a Academia Imperial de Belas Artes. Antes de comparar os viajantes, num período em que a curiosidade pelo País trouxe ainda Rugendas e Thomas Ender, entre outros, as mostras em questão propõem ocasião rara para apreciá-los como talentos complementares.