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Cultura

Crônica do Villas

O Anjo da Guarda

por Alberto Villas publicado 19/02/2015 10h26, última modificação 09/06/2015 16h53
A história de uma gravura dependurada na parede
Arquivo pessoal
Anjo da Guarda

"Quero dependura esse quadro bem no alto, numa das paredes do no meu escritório porque a vida, quem sabe, recomeça aos 64 anos"

O meu quarto era simples, quatro paredes caiadas de branco, porta e janela pintadas de cinza. Duas camas coloniais, um criado mudo, um rádio transistor GE, um abajur, uma estante da Mobília Contemporânea onde guardava meus livros, minhas revistas, minhas miniaturas de carrinhos Matchbox e os aviõezinhos da Revell.

O armário era embutido, grande, cheio de prateleiras, armário que o meu pai mandou fabricar com o dinheiro que ele ganhou em Brasília, montando o Serviço de Meteorologia. Além das prateleiras, tinha seis gavetas onde eu guardava as meias, as cuecas, os lenços Presidente, meu uniforme de judô, a minha faixa preta e minha camisa do América.

Em 1966, 1967, o mundo era assim. Enquanto uma enchente monstruosa quase levava embora  Florença, um câncer matava Jack Rubin, o homem que atirou em Lee Oswald, o assassino do presidente americano John Kennedy.

Enquanto mais um ditador, o general Arthur da Costa e Silva, tomava posse como segundo presidente da República de uma era sombria em nosso país, guerrilheiros caiam nas mãos do Exército na Serra do Caparaó.

Enquanto os Beatles posavam com fardas coloridas para a capa do Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, os hippies se espalhavam pelo mundo, ocupando o Central Park de Nova York e a Praça Dam, em Amsterdam, embalados por paz, amor, sexo, drogas e rock and roll.

O mundo perdia Walt Disney, aquele que publicava, todos os dias, um quadradinho no jornal O Globo chamado Maravilhas da Natureza e que eu, com uma tesoura Mundial bem afiada, recortava caprichosamente e colecionava numa pasta azul piscina de cartolina.

Na parede branca do meu quarto, além de duas fotografias emolduradas, a minha e a do meu irmão no dia da primeira comunhão, havia uma gravura que minha mãe pregara bem lá no alto. Era a imagem de um anjo da guarda guiando duas crianças, um menino e uma menina,  à beira de um riacho. Ele, com uma espécie de bambolê na mão e ela, querendo pegar uma bolinha vermelha e branca, à beira do abismo.

O anjo estava ali, com uma roupa azul , envolto a uma manta cor de rosa, asa e tudo. Com as mãos estendidas, ele parecia proteger os menininhos, evitando que eles rolassem rio abaixo.

Toda noite nós deitávamos e ficávamos olhando para aquele quadrinho dependurado lá no alto, iluminado por uma fresta que vinha da janela e batia bem em cima dele, como se fosse um feixe de luz mágico naquela  cena.

Toda noite, minha mãe passava pelo quarto, cobria cada um dos filhos e dizia dorme com o anjo da guarda. Para mim, esse anjo era aquele ali na parede que nos protegia. Que me ajudava a passar de ano mesmo sem saber nada de matemática, que me orientava para não me perder por aquelas ruas do bairro do Carmo e a me equilibrar naquela bicicleta Monark pneu balão que eu mal conseguia subir.

Era aquele anjo da guarda, branquinho como cera, que não deixava a correnteza me levar quando íamos pescar piabas com peneira e que me conduzia quando atravessava a BR-3 no meio daquele mar de caminhões FNM, que chamávamos de Fenemê.

Eu acreditava nele, confiava mesmo que nada de ruim ele deixaria acontecer na minha vida. Nas viagens que eu sonhava fazer, nas aventuras que imaginava viver, ele estaria sempre ali ao meu lado, com aquelas asas grandes a me proteger.

Um dia, eu sai de casa. Fui embora e nunca mais voltei a dormir naquele quarto. Lembro-me que o quadrinho com aquela gravura ficou ali por um bom tempo, sempre no mesmo lugar.

Longe do Brasil, escrevia cartas e perguntava por ele ao meu pai que respondia prontamente, fique tranquilo que o seu anjo da guarda está aqui, continua dependurado na parede.

O tempo passou e aquela imagem, já meio amarelada pelo sol, desapareceu, simplesmente sumiu do mapa. Cheguei a perguntar a minha mãe, pouco antes da sua morte, se ela sabia onde fora parar aquela gravura que me acompanhou durante anos e anos. Dona Lali não fazia a menor ideia. Deve ter sumido numa dessas nossas mudanças, dizia ela.

Outro dia, tantas décadas depois, fuçando revistas velhas num sebo em Pinheiros, dei de cara com uma gravura idêntica aquela que tinha no meu quarto. Ela estava entre uma revista O Cruzeiro e uma Cigarra. Perguntei ao senhor  no caixa quanto custava, ele deu uma olhada no verso e disse que aquilo não tinha preço, que estava ali perdida, que podia levar.

Trouxe pra casa e agora ela está aqui em frente ao computador, exalando um leve cheiro de mofo. Essa semana, pretendo leva-la no Moldura Minuto do Shopping Bourbon para emoldurar. Quero dependura-la bem no alto numa das paredes do no meu escritório porque a vida, quem sabe, recomeça aos 64 anos.