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O americano cordial

por Matheus Pichonelli publicado 14/02/2014 11h35, última modificação 14/02/2014 14h19
No filme "Trapaça", a conduta da polícia e do bandido tem uma ética parecida: eles avançam ou recuam conforme as afinidades pessoais. Por Matheus Pichonelli
Trapaça

Investigador e investigados no filme "Trapaça": quem é quem?

Stoddard Thorsen, personagem de Louis C.K em Trapaça, é quase uma figura decorativa no filme dirigido por David O. Russel. Ele quase some no elenco composto por Christian Bale, Bradley Cooper, Amy Adams e Jennifer Lawrence, os protagonistas da trama. Mas é Stoddard, um diretor de departamento do FBI, a figura surrada dos EUA que o filme pretende desenhar.

Como seu ator, um elemento quase desapercebido na trama, Stoddard é o agente que ninguém ouve. Nas poucas cenas em que aparece, tenta contar uma história sobre a qual ninguém presta atenção. Discreto, baixo, calvo, envelhecido e com trajes comuns, é o único personagem que parece saber onde está e para onde vai. Em vão, tenta apontar caminhos, prever equívocos e conter o espalhafato em uma ação policial para levar figurões da política e da máfia americana para a cadeia. Funciona, basicamente, como o superego de personagens inebriados pela possibilidade de romper com o destino dos simples mortais. É, em outras palavras, a expressão surrada de uma lenda: a instituição americana. O FBI. A impessoalidade da máquina.

Com a exceção do surrado Stoddard, quase quase todos os personagens da trama se entendem e se comunicam por um mesmo desejo: o de não ser só mais um. Irving (Bale) é um golpista de olho no próximo golpe e descontente com a vida restrita aos seus negócios particulares (uma lavanderia, herdada do pai) e seu casamento. Sydney (Amy Adams), sua amante, quer ser mais do que uma dançaria de bordel. O prefeito Carmine Polito (Jeremy Renner) quer ser mais do que um prefeito popular. E Richie DiMaso (Cooper) quer ser grande no FBI, o que daria a ele carta-branca para sair da casa da mãe centralizadora e fugir de um noivado que não o comove.

O desfecho fica claro antes da apresentação dos atores: a ambição de cada um levará ao quiproquó. Sim, mas a forma como o destino se desenrola é o que faz do filme uma grande história. Na trama, há, de um lado, uma investigação policial sobre uma dupla de estelionatários. Em certo momento, eles se entrelaçam e definem um objetivo em comum. A dupla quer a redução da pena pelo delito em flagrante. E o policial DiMasio quer usar a dupla como isca para prender os peixes grandes da máfia. A partir dali, tudo é infiltração e interpretação. Não sabemos o quanto há de tentativa de sobrevida ou de convicção nos diálogos dos personagens (salvar a própria pele passa a ser também um objetivo em comum). O agente se traveste de golpista. Os golpistas se travestem de agentes. Todos simulam novos golpes para atrair outros golpistas. No meio disso, há uma quase total dissolução de um jogo aprendido ainda na infância: o do mocinho e do bandido.

Porque a ação humana se move pelas afinidades, parece dizer o diretor ao colocar caça e caçadores no mesmo palco. Por trás dos papeis que representam, há o elemento da empatia que solapa pela base a impessoalidade exigida à instituição, seja a máfia, seja o FBI. O golpista se interessa pela golpista ao descobrir que ela, como ele, é fã de Duke Ellington. O agente desequilibrado sente atração pela golpista. A golpista sente empatia, quase pena, do agente. E o golpista se identifica e cria afeição pelo prefeito que está prestes a denunciar para se salvar.

A empatia entre personagens que deveriam caminhar por terrenos bem demarcados é criada a partir de detalhes. Em uma das cenas, Rosalyn, personagem de Jennifer Lawrence, conta a uma amiga o que a une ao marido traidor: ele adora o cheiro do seu esmalte. E o seu esmalte não é qualquer esmalte: há algo de podre em sua fragrância, e é isso o que o diferencia dos demais. Esse “algo de podre” é uma espécie de ponto de interseção que une o bom e o mal e faz do jogo, e da vida, uma tela cinza – portanto, indefinida. O policial sedento por justiça e os bandidos sedentos por escapar da justiça têm mais em comum do que gostariam: eles só saem de casa com disfarces próprios. Ambos detestam suas origens e suas imagens. E gastam horas ao espelho tentando mudar a natureza de seus cabelos. Os arranjos para mudar o penteado são mais do que detalhes a enfeitar a trama.

A ética do caçador de bandido, tão aclamada em tempos de justiçamento no Brasil, é tão maleável quanto a ética da delação do bandido. Para chegar aonde quer, o agente interpretado por Bradley Cooper está disposto a atropelar quem estiver na sua frente: surra o chefe direto e o desautoriza; cria linha-direta com o chefe do chefe, tão ou mais vaidoso que ele. Inebriado com a possibilidade de se consagrar após a operação e crescer no FBI, o agente se esquece do que representa. Daí o descuido, inclusive, com o dinheiro público envolvido na operação policial. Ou o desleixo ao ultrapassar o papel original e se envolver com a golpista.

Entre Stoddard, o agente da instituição clássica, e DiMasio, o agente de ética maleável, há a máfia e a vaidade que também a move: para que se contentar com os mesmos golpes se podemos dar um golpe maior?

Ao fundo, uma pergunta parece se sobressair: qual a natureza do delito? No caso de Irving (Bale), era uma resposta a uma injustiça natural: ainda criança, cansado de ver o pai vidraceiro ser explorado por clientes avarentos, começa a quebrar as vidraças da vizinhança para garantir o sustento da família (até o fechamento deste texto, ele não havia sido preso a um poste com um cadeado de bicicleta por isso).

Mas, como em um jogo de espelhos, dentro da máfia há também seu superego. Este papel, por ironia, cabe a Rosalyn, a esposa insegura e alcoólatra interpretada por Lawrence. Previsível até em sua imprevisibilidade, ela é a única personagem do filme que admite não suportar mudanças (Stoddard também admitiria, mas ninguém o deixa dizer nada). Ao mesmo tempo, ela é a única personagem capaz de instalar um elefante inteiro em uma sala de cristais e colocar o mundo de cabeça para baixo em uma única cena. Irving, seu marido (não perca as contas), como todos no filme, sonha em ganhar o mundo. Mas não é capaz de viver sem o discurso de que está preso ao filho e à mulher. É quase a encarnação da inviabilidade humana: o sonho de cair no mundo e perder o controle e o juízo é bom apenas enquanto estamos presos. Fora dali o mundo é cinza e confuso, instável e atraente.

O mundo dos investigados, mostra o diretor, não é diferente do mundo dos investigadores. Eles estão em contato. Ambos são cinzas. O prefeito prestes a ser denunciado, por exemplo, mostra-se, ao longo do filme, um bom prefeito, e isso só é possível saber quando seu mundo é visto por dentro. Esse contato amolece o golpista interpretado por Bale, que deveria interpretar o golpe duplo com a precisão de um matador. Mas ele se apieda da vítima. Ele se vê no lugar dela. Ele amolece. Ele, como todos no filme, não está imune à empatia selada a partir das afinidades. Ou seja: ninguém ali é profissional – ou profissional a ponto de colocar a missão acima dos impulsos pessoais.

Na ótica de um brasileiro, sai como um deboche a conclusão de que o americano orgulhoso de suas instituições é também um "homem cordial", definido por Sergio Buarque de Holanda como um ser individualista, avesso à hierarquia, arredio à disciplina, desobediente a regras sociais e afeito ao compadrio. Lá, como cá, a distância entre o interesse público e o interesse privado é maleável. Estreita-se ou alarga-se a partir das afinidades humanas. Essa distância pode até ser mais bem demarcada do que por aqui. Mas o "encontrão americano" tratado no filme (o título original é American Hustle) não deixa de escancarar, a exemplo do policial prudente da trama, um mito surrado diante do espelho.