Você está aqui: Página Inicial / Cultura / Nossa primeira Copa

Cultura

Crônica / Matheus Pichonelli

Nossa primeira Copa

por Matheus Pichonelli publicado , última modificação 16/06/2014 12h52
Ao lado do meu filho para o 1º jogo, vesti a camisa de 82 e deixei a barba, como meu pai fazia quando nasci, no ano daquela Copa. Há coisas que não mudam com o tempo
Matheus Pichonelli
Camisa de 82

A réplica da camisa de 82, até agora, deu sorte à seleção de 2014

Nas fotos de nossas primeiras festas, hoje amareladas pelo tempo, meu pai aparece sempre de bigode e camisa social aberta. O figurino funcionava como uma barreira imaginária que conferia a ele uma singularidade na cozinha onde se via um bolo, uns copos de guaraná Mimosa, fabricados na nossa cidade, e alguns enfeites na parede. Quando virou pai, era jovem, bem mais jovem do que o filho quando o filho virou pai - e talvez a juventude estivesse mais clara em seu rosto não fosse o figurino: via-se ali um adulto, de bigode e camisa social aberta, como faziam os adultos em 1982, e não uma criança com outra criança no colo. Vai ver foi por isso que, inconscientemente, aparei a barba mas deixei intacto o bigode na quinta-feira 12 antes de sair de casa. Talvez imaginasse uma cena futura, para quando meu filho olhasse para a foto e apontasse para a tela de computador que não amarela com o tempo: “aquele de bigode e barba mal aparada é o meu pai”.

Talvez não: talvez apenas quisesse parecer um adulto que saísse às ruas na estreia da Copa de 1982, o ano em que nasci. E talvez por isso tenha optado por vestir a réplica da camisa de 82, com o símbolo do café no brasão, ao sair para o trabalho. Diante do espelho, queria entender por que algumas coisas não mudam com o tempo.

No caminho, dava para perceber que não seria um dia qualquer. Na vizinhança, reparava nos preparativos de última hora, algumas bandeiras sem mastro esticadas à janela. O movimento da rua também era incomum, e o silêncio pouco habitual só contrastava com a euforia do nosso motorista do ônibus. O homem, de mullets e óculos escuros, pisava no freio e soltava a buzina a cada esquina. Gritava “É nóis” para quem estacionasse ao seu lado. Entre eufórico e preocupado, colocara no vidro da frente uma bandeirola do Brasil e se dizia aliviado ao ver seu time, o Palmeiras, há tantos dias sem perder um jogo. Em época de Copa, até a desolação pede intervalo.

Seguimos até o ponto, e a euforia dele diminuía à medida que o destino se aproximava de um dia comum: o trânsito se condensava, as conversas diminuíam, os usuários voltavam a amarar as caras, os motoristas da zebra ao lado fritavam os pneus para não perder tempo. Quanto tempo faltava para começar?

Desci no ponto e desejei “bom hexa panóis”. Na minha nova mesa, para onde me mudei há pouco mais de um mês, me permiti um intervalo para as perguntas de sempre. Vou me adaptar ao novo emprego? E à nova cidade? Estou fazendo a coisa certa? Estou esquecendo de algo? Estão gostando do que eu faço? Quem são meus novos amigos? Quem são meus velhos amigos? O que dura para sempre? Minha cota de acerto já supera a de erro (a margem de erro dos primeiros dias, quando voltamos a ser focas ao aprender uma ferramenta nova, é impressionante)? Naquelas horas anteriores à estreia, ficavam as interrogações, mas mudavam os enunciados. O Hulk vai acertar algum passe? O Neymar vai sentir a pressão? A bola vai chegar ao Fred? A avenida Daniel Alves está bem vigiada? O Paulinho vai voltar a ser o Paulinho? E o Oscar, vai seguir o Juninho Paulista e o Raí e deixar a equipe logo na primeira fase?

Entre uma pergunta e outra, fazia jogos mentais. Que fim levou a bandeirinha enterrada pelo caseiro do sítio na Copa de 90? Por que minha memória daquela Copa é tão fragmentada? Onde estava na estreia de 94? Quantas velas acendi velas ao Romário? Quantos anos tinha quando parei de comemorar o chute do Baggio? Será que algum dia parei de comemorar? Quantos anos tinha quando parei de chorar depois da final de 98? Será que algum dia parei de chorar?

Era tanta pergunta e tanto exercício de lembrança que só me dei conta que estava a poucos minutos da estreia quando uma amiga do trabalho me ofereceu uma carona, ao fim do expediente, e me deixou à entrada da cidade. Como o ônibus demorava, resolvi andar a pé até minha casa, menos por falta de opção do que por excesso: no caminho queria guardar na memória a imagem da nossa primeira Copa. Estava a 90 quilômetros do epicentro da festa, e sentia um certo pesar por estar fora de São Paulo justo quando o mundo voltava os olhos a São Paulo, inclusive os meus. Pela internet, via fotos de amigos na Arena Corinthians e via amigos abraçados a turistas croatas. E via, sobretudo, uma festa da qual eu era espectador (que diferença faria assistir a uma Copa no Brasil no interior de São Paulo ou no interior da Rússia?). Fui andando e, aos poucos, ouvia os ecos de uma arquibancada que não se resumiam aos assentos de Itaquera. Tomavam forma entre buzinas de automóveis, entre cores das calçadas e bandeiras nas janelas que desenhavam meu caminho de volta até a porta de casa, onde os amigos já se reuniam em torno da churrasqueira do prédio, onde improvisavam uma estante para a tevê. Ofegante, tirei os fones dos ouvidos, por onde ouvia as notícias da CNB, e prometi voltar em instantes. Em casa, vesti a bermuda e coloquei as cervejas na sacola.

-Vejo vocês jajá, disse à mulher e ao filho, que precisavam se arrumar.

Antes de fechar a porta, coloquei no bolso dois amuletos: um boneco do Pelé e uma figurinha do Barbosa, as duas pontas de uma mesma história, a que arde e a que consagra. Coloquei os dois, lado a lado, perto da tevê e me sentei.

Eles chegaram poucos minutos depois. Meu filho vinha no carrinho, com a camisa verde-amarela comprada na minha última visita a São Paulo. Vinha sonolento e sem entender os motivos daquilo tudo - ele lutou arduamente para arrancar o Pelé de perto da tevê para testar os primeiros dentes, que em casa não perdoam nem a cachorra. Do jogo o pobre mal se lembrará: de costas para a tevê, achou mais graça nos malabarismos dos nossos vizinhos, Halann, Arthur e Roberto, entre goles, berros e espetos da churrasqueira, do que nos malabarismos do Neymar.

- Olha para a frente, menino! O jogo tá ali.

Ele ria. Ria tanto, de costas para a tevê, que mal viu o camisa dez se enfezar mandar um petardo de perna esquerda no canto para empatar um jogo que se anunciava trágico (gol contra em plena estreia em casa, quem poderia prever?). A festa que eu fiz, meu amigo, não estava escrita na história: corri, berrei, esmurrei uma cadeira (vazia, claro) e só percebi que passava da conta quando notei o susto das crianças do nosso prédio, assustadas pelas nossas deselegâncias entre uma jogada e outra. Sentei, um pouco vexado e já sem voz, e com a impressão de que não importasse o que diria, anos à frente, o bigode da foto: quando é dia de jogo, eu teria sempre 12 anos, minha idade quando assisti, em plena consciência, minha primeira Copa.

Meu filho, que acabava de completar um ano, não viu o primeiro nem o segundo gol. No terceiro, já estava em casa, no colo da mãe, e com uma mamadeira na mão. Para ele, uma bola na rede não vale uma tarde de sono. Ainda.

registrado em: , ,