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Ninfomaníaca

por Matheus Pichonelli publicado 09/01/2014 16h36, última modificação 25/01/2014 09h49
O ambiente lúgubre criado por Lars von Trier para falar sobre vício em sexo e perda do afeto leva a uma pergunta: por que tanta culpa para falar de um tema ainda tabu?
Christian Geisnaes
Ninfomaníaca

A jovem Joe é interpretada por Stacy Martin

Charlotte Gainsbourg participava de uma entrevista coletiva sobre Melancolia em Cannes quando Lars von Trier comunicou que seu próximo filme, para o qual ela estava convidada, seria uma história pornô. “Achei que fosse brincadeira. Lars é muito engraçado”, relembra a atriz, quase três anos depois, em depoimento para o lançamento de Ninfomaníaca – o tal filme pornô que estreia na sexta-feira 10 em 16 cidades do País*.

Charlotte ainda não sabia, mas o convite era mais do que se desfazer das roupas: era eliminar, na sequência de Melancolia, os traços principais de Claire, a prestativa irmã de Justine (Kirsten Dunst) no filme que acabava de ser lançado. Em um mundo prestes a desaparecer, Claire era a ponte que tentava manter unidos dois universos: um, encarnado por Justine, de desencanto; outro, de apego a uma ordem familiar, social e afetiva. O desinteresse de Justine em sua própria festa de casamento era o contraste do esforço da irmã para que tudo saísse perfeito na noite perfeita com os convidados perfeitos da mulher perfeita.

Mas o mundo um dia acaba, e a essência está longe das convenções, parecia dizer o diretor dinamarquês ao detonar aquele universo de afetações com um asteroide ao som de Tristão e Isolda, de Wagner. Curioso que, logo nos primeiros minutos de Ninfomaníaca, o espectador tenha a impressão de que o Planeta de fato acabou: não há luz nem calor nem sinal de vida no ambiente sombrio apresentado. Estirada no chão, Joe (Gainsbourg) sangra como quem acaba de sofrer uma surra (ou o Armageddon anunciado no filme anterior). Não sabemos quem é o agressor nem o que a levou àquele estado de abandono.

Ela é resgatada por Seligman (Stellan Skarsgard), um homem de idade avançada que lhe oferece uma xícara de chá com leite e um abrigo. Em um quarto tão sombrio como a rua onde foi encontrada, Seligman tenta entender o que aconteceu. Joe avisa: “Eu mereci isso. Essa história começou quando eu tinha dois anos”.

Têm início, então, os primeiros 118 minutos do filme – a segunda parte deve ser lançada em março. Nessa etapa, uma surrada Joe dá início ao relato sobre que a transformou, segundo suas próprias palavras, em um ser abjeto. É como uma sessão de terapia: de um lado, a paciente viciada em sexo que busca nos relatos da infância e adolescência a origem de sua miséria (nessa fase, a jovem Joe é interpretada por Stacy Martin); de outro lado está Seligman, que tenta racionalizar a ação da personagem. Joe conta como perdeu a virgindade, como se apaixonou pelo sujeito e como conquistou e se desfez de uma multidão de homens com os quais não se importava. Em uma das cenas, relata como se relacionava com um homem casado, a quem desprezava, que certa vez chegou na casa dela de mala e cuia. Atrás dele vinham os três filhos e a mulher, interpretada por Uma Thurman, que fez questão de conhecer o local onde a traição era consumada (detalhe: a casa da jovem Joe é o único lugar onde as luzes se sobressaem à escuridão predominante em outros cenários).

A frieza da jovem amante ao se ver como pivô de uma ruína familiar em uma das poucas cenas em que é possível arrancar risos da plateia é o contraste mais claro entre a Claire, de Melancolia, e a Joe, de Ninfomaníaca: uma delas busca a manutenção do valor familiar e se angustia; a outra, não menos livre de angústia, sente apenas tédio.

Ao ouvir o relato da personagem, Seligman cria relações entre a ação descrita e a ordem imperceptível da natureza humana. Relaciona os nomes dos homens da vida de Joe a jogos matemáticos, como se recriasse uma linguagem de signos, significados e significantes. Ora fala da ninfa, a etapa inicial de um inseto. Ora fala da ordem da pesca e da forma como se atrai a presa. Ora fala da polifonia de Bach. Ora, dos números de Fibonacci. Ao reordenar o caos narrativo, o anfitrião faz as vezes da plateia: tudo o que os espectadores querem é saber por quê. Por que Joe age daquela maneira? Qual trauma na infância criou base para a sua suposta insensibilidade? Como se tornou tão fria? Qual o problema com seus pais? Que tipo de violência sofreu?

Público e personagens são levados a uma percepção inicial: Joe tem um problema, está doente, sofre de uma mania e fatalmente será surrada (por ela, pelo mundo, pela culpa? Não se sabe). Ao menos nesta primeira parte não é possível saber se o diretor faz coro ou uma paródia dessa busca com lupa sobre como começa e onde acaba a suposta insensatez da personagem.

O nó é que Joe se apresenta como alguém normal. A diferença em relação ao mundo, como ela mesma argumenta, é que ela queria algo mais do pôr-do-sol e não se contentava com as cores ordinárias do céu ao fim do dia. Ela pedia intensidade – e paga um preço por identificar obviedades, como uma vaga de estacionamento ou uma falha mecânica em uma moto, onde as pessoas de sua vida veem apenas confusão.

O contraste entre a personagem apegada aos padrões sociais e outra desapegada deles na sequência Melancolia-Ninfomaníaca é um dos pontos para situar o filme na obra do cineasta. Mas não o único. Outra forma é coloca-lo na sequência de filmes-tabus lançados desde o ano passado. Juntos, Azul é a Cor Mais Quente, de Abdellatif Kechiche, Jovem e Bela, de François Ozon, Um Estranho no Lago, de Alain Guiraudie, e Tatuagem, de Hilton Lacerda, provocaram o maior êxodo de espectadores das salas de cinema da história recente. Muitos deixaram as poltronas com ar de indignação: não suportaram nem as cenas de sexo homoerótico nem a decisão de Isabelle, a jovem e bela Marine Vacth do filme de Ozon, de se prostituir sem precisar do dinheiro (poderia haver transgressão maior em um mundo de liberdades supostamente autorizadas e/ou incentivadas no ambiente familiar?).

Nada deveria causar mais choque do que o choque de um espectador diante de uma cena de sexo. Em 2011, Steve McQueen causou polêmica ao retratar a rotina de um viciado em sexo em Shame. O nome (traduzido) do filme era quase uma sentença condenatória: vergonha. Von Trier vai além: coloca em ação uma mulher para falar do mesmo vício. Com Melancolia, ele pica ao meio a convenção do casamento, pintado como uma cerimônia de pompa anacrônica na qual amar era recomendável, mas não fundamental.

Em "Ninfomaníaca", ele aborda o descarte do afeto nas relações sexuais e declara guerra ao que se poderia chamar de “ditadura do amor”. É um vespeiro com potencial explosivo: o casamento sem amor é tolerado, mas o sexo sem amor entre desconhecidos é ofensivo e abjeto. O diretor parece dizer: a necessidade de amar é também uma imposição, e nem todos estão dispostos a aceita-la.

No caso de Joe, a tendência parece clara, mas o preço é alto demais. Daí as menções constantes à culpa e à dor.

No filme de Hilton Lacerda, que narra a relação homoafetiva entre um jovem soldado e um artista em meio à ditadura brasileira, há uma espécie de profecia que soa como zombaria diante da frieza nórdica encarnada (parodiada?) nos recém-lançados filmes-tabus europeus: “No futuro, o amor e a liberdade serão como num filme”. Em uma ditadura, as expressões e as liberdades sexuais são quase uma rebelião política (a misoginia, não duvidem, cria cidadãos dóceis, conformados, produtivos e obedientes). Os tempos de Marco Feliciano, cura gay, sexismo nas redes e revenge porn parecem deixar claro quem venceu a queda-de-braço.

Lacerda, obviamente, se referia a outro futuro. Não por acaso, a cena inicial de seu Tatuagem é uma janela aberta pela manhã e um convite a um banho de mar. Ali, como no leilão do corpo da Suely de Karïm Ainouz, a orgia sonhada pela Verônica de Marcelo Gomes, ou o lirismo dos bêbados de Zizo, Pazinho, Eneida e Vanessa de Cláudio Assis, o sol queima e o sangue ferve. Pois há jeitos e jeitos de se falar sobre desejos, amores, liberdades e suas dores – desconfia-se que Lars von Trier jamais tenha pisado em Recife.

Ao menos nas telas, as vontades, dúvidas e desejos parecem mais bem resolvidas por aqui – ninguém parece aceitar tão facilmente o auto-sofrimento por querer abraçar o mundo, ainda que as cenas causem desconforto na suposta decência da plateia. (Em tempo: não é outro o drama - a impossibilidade de amar ou ver sentido no amor além do corpo - da personagem de Hermila Guedes em Era Uma Vez Eu, Verônica, de Marcelo Gomes; a diferença é que este não precisou surrá-la por isso).

No futuro, quando for olhado em perspectiva a partir do segundo filme ainda inédito, saberemos se este cinema encabeçado por Von Trier servirá também como arma de combate ou se reforçará o ambiente lúgubre da realidade que pretende retratar. Quando a polêmica é um fim em si, e se confunde com a moral que visa escancarar, o risco é a realidade (moralista, cínica e covarde) ganhar na tela uma estética à altura: a estética da culpa.

 

* O filme entra em cartaz em 10 de janeiro em São Paulo, Granja Viana, Alphaville, Sorocaba, Campinas, Rio de Janeiro, Brasília, Goiânia, Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba, João Pessoa, Maceió, Fortaleza, Recife e Salvador.