Você está aqui: Página Inicial / Cultura / Ninfomaníaca 2 e o direito de não ser "curada"

Cultura

Análise / Matheus Pichonelli

Ninfomaníaca 2 e o direito de não ser "curada"

por Matheus Pichonelli publicado 12/03/2014 13h47, última modificação 13/03/2014 10h35
Na sequência do filme de Lars von Trier, o conflito de gênero fica mais nítido: entre a obscuridade e a confissão, é a integridade da protagonista que está em risco
Christian Geisnaes
Ninfomaníaca

Joe (Charlotte Gainsbourg) em cena de Ninfomaníaca

No episódio de ontem, Joe (Charlotte Gainsbourg) lambia as feridas e contava seus desatinos como mulher depravada a Seligman (Stellan Skarsgard), um desconhecido que a encontrou surrada na rua e ofereceu chá, abrigo, ombro e, mais que tudo, compreensão. Na primeira parte de Ninfomaníaca, extenso filme de Lars Von Trier lançado em duas etapas, uma série de perguntas e incômodos ficou em aberto. Por exemplo, por que a protagonista se julga abjeta? Qual mal ela fez ao mundo? Por que ela diz merecer um fim cuja tragédia está exposta em uma face surrada? (leia o texto do primeiro filme AQUI)

Nem tudo é respondido na continuação do filme, que estreia na quinta-feira 13 em 90 salas do País. Mas, conforme o dia amanhece e a luz surge no cenário composto por um quarto, uma cama e uma janela, algumas leituras à sombra do primeiro filme caem por terra. Após os primeiros 118 minutos, me perguntei se o cenário lúgubre usado para narrar a história de Joe não faria coro a uma condenação moral retratada: em pleno século XXI, as pessoas ainda sofrem a consequência por dar vazão a desejos socialmente condenáveis. O que há de novo nisso? Não estaria o diretor dinamarquês usando o corpo estourado da protagonista para dar vida a uma versão da propaganda anti-rebeldia com a inscrição “Seja Marginal”?

Como contrapartida, citei alguns filmes recentes rodados no Brasil, sobretudo em Recife, a capital do cinema nacional, nos quais a sexualidade é abordada sem as mesmas amarras condenatórias. Filmes que, por uma série de motivos, me pareciam mais bem resolvidos do que a obra de Lars von Trier. Lembrei, por exemplo, da insatisfação da personagem de Hermila Guedes em Era uma Vez Eu, Verônica, de Marcelo Gomes, diante de um destino pré-moldado, asséptico, racional, pouco intenso e monogâmico. E que ela não precisou ser surrada devido a essa inquietação.

Mas eis que surge o segundo filme. Nele, sai de cena a jovem Joe, interpretada nessa fase por Stacy Martin, e entra uma Joe envelhecida, cansada, cínica e desencantada – aparentemente punida por ter dado vazão a um desejo indefinido e por ter usado, brincado e descartado as pessoas com quem não se importava. Descobrimos, então, que Seligman, o homem desconhecido que faz as vezes de analista e tenta racionalizar o caos narrativo da personagem, é um ser assexuado. Portanto, Joe tem aparentemente (sempre aparentemente) um terreno seguro para expor seus relatos. Seligman é, como ela mesmo diz a certa altura, seu único amigo em todo o mundo. Isso a leva a relaxar. E a baixar a guarda.

A alegoria de uma relação médico e paciente parece estabelecida. Afinal, em quem mais podemos confiar se não no médico que nos ouve e quer nos entender? A pergunta é traiçoeira. Em sua conferência sobre O Nascimento da Medicina Social, de 1974, Michel Foucault afirmava que, na prática médica, os doentes tendem a perder “o direito sobre o seu próprio corpo, o direito de viver, de estar doente, de se curar e morrer como quiserem”. Perdem, por consequência, a sua autonomia, inclusive de determinar seu modo de vida e de conduta. (leia mais clicando AQUI)

No diálogo entre Joe e Seligman, quase não há proibições religiosas manifestas, a não ser uma reação e racionalização delas. “O mundo diz que isso é errado, mas não é”, relativiza Seligman o tempo todo. Ele não culpa Joe por ter se transformado em um sujeito de lascívia e violência patentes. Não culpa Joe por nada. Apenas tenta entendê-la. E qual o mal nisso? Aparentemente nenhum, a não ser por um detalhe, que retiro novamente de Foucault, para quem a origem arqueológica da experiência sexual moderna remete à prática da confissão introduzida no ritual da penitência cristã no século VI. Na Modernidade, de acordo com esta perspectiva, o sexual está estreitamente relacionado ao fato de tornar-se objeto da revelação íntima através da fala. O falatório sobre sexo, portanto, é parte dos costumes do ocidente, nos diários íntimos, nos romances, nos manuais de psiquiatria e pedagogia ou no divã do analista. “A sexualidade, no Ocidente, não é o que se cala, não é o que se é obrigado a calar, mas é o que se é obrigado a confessar”, escreve.

A vinculação entre a experiência sexual e a vontade de saber sobre o sexo é estreita, diz o filósofo. E essa relação é criada a partir da ideia de que o sexual é objeto de uma interdição social, uma força irrefreável que fere os princípios civilizadores das relações entre os homens.

Na sequencia de Ninfomaníaca, essa relação entre interdição e injunção a falar, entre obscuridade e discurso, entre segredo e confissão é quase parte do cenário. Antes de prosseguir seus relatos, Joe avisa que seu discurso parte da escuridão em direção à luz, como se partisse do catolicismo obscuro de Roma em direção ao cristianismo ortodoxo oriental (um tem como imagem central a cruz e o calvário, o outro, o nascimento de Cristo). Quando Joe começa a falar, é noite. Quando termina, é dia: o amanhecer é anunciado por uma pequena fresta de luz, uma tímida manifestação do sol que tanto a desaponta (na primeira parte, Joe afirma que desde criança esperava mais intensidade do pôr-do-sol). Há um detalhe, no entanto, nesta caminhada rumo à luz: a paciente é a mulher e o doutor, o homem. Ela entrega para ele mais do que um relato. Ou um segredo. Entrega uma condição. Pelas posições que ocupam, ela tem uma doença e ele, o conhecimento (a cura?).

É desta posição que Seligman tenta reordenar o mundo a partir de um discurso oblíquo. Joe não é vítima. Ela, em muitas cenas, é manipuladora e insensata. Mas está em um campo do jogo em que a margem para o erro equivale a uma margem de intolerância. Conforme este mundo se descortina, a margem encolhida fica mais clara. E Ninfomaníaca, em conjunto, se transforma em um filme de gênero: Joe não sofre por ser viciada em sexo, mas por ser mulher. Neste mundo que confronta obscuridade e discurso, desejo e ciência, a sua integridade física corre tanto risco quanto alguém que veste burca e está na rua ou em casa. É este risco, e não os seus desejos, que a estraçalham – e este fenômeno não é uma questão mal resolvida na fria Dinamarca, mas no mundo, inclusive nas praias de Recife onde a Verônica de Marcelo Gomes visualiza uma orgia permissiva e libertadora. Esta orgia pode ou não ser uma miragem, mas não imuniza uma violência estrutural.

Nas chamadas Marchas das Vadias, que tanto alarde causa nos juízos masculinos, esta violência é combatida com um tiro de escopeta: “o corpo é meu”. Como “meu”, entende-se que a mulher pode ou não aceitar um ou mais parceiros, inclusive nenhum, ou mais experiências do que o tolerado em uma padrão dito familiar. Mas não é acessível a QUALQUER UM: por ter sido (ou não) de muitos não dá o direito de ser “seu”. Daí o combate às cantadas. O combate às brincadeirinhas. O combate ao assedio em ambientes públicos. O combate às brincadeiras sexistas no trabalho. O combate ao controle do corpo feminino como assunto ou piada. O combate, enfim, à ideia de ofensa como apontamento de um desvio de caráter: “por que tentam me destruir quando me chamam de vadia?” (Não faz muito tempo, não na fria Dinamarca nem na distante idade média, mas no Brasil do sorriso e do Carnaval, um humorista das fileiras da misoginia conclamou seus fãs no Twitter a chamar de “puta” uma garota que o criticou na rede social. Os fãs obedeceram. Porque não basta discordar: é preciso eliminar o interlocutor denunciando um possível “desvio” sexual, como se fossem partes de uma mesma linguagem).

Em uma das cenas do primeiro filme, Joe pede ao namorado que “preencha” todos os seus buracos. E chora ao sentir que nada sentia pelo homem que, anos antes, tirou a sua virgindade – e consumou a sua primeira decepção. No segundo filme, descobrimos que esta insuficiência não foi motivo para uma eventual separação. Pelo contrário. A partir daí, toda culpa recai sobre a “paciente”: o tempo todo ela é acusada de ser uma esposa ruim, uma mãe desatenta, uma amante nefasta, uma profissional deplorável. Cuspes e pontapés são disparados por todos os lados, inclusive por bocas e botas femininas. Todos os homens cometem as mesmas falhas, diz Seligman, mas são apenas isso: “falhas”. Para a mulher, a falha é sempre um crime inafiançável. (À saída, lembrei de todos os pais que lamentam, a céu aberto, terem trabalhado demais sem ver os filhos crescerem. Poucas mães dizem o mesmo: para o pai, a distância é sacrifício; para a mãe, é negligência).

Essa condenação parte de uma ordem aceita. É como se a incapacidade, inclusive anatômica, de preencher os buracos de uma mulher gerasse inconscientemente uma legião de homens dispostos a se vingar da frustração. Estes até aceitam, mesmo a contragosto, que as mulheres ocupem postos antes inalcançáveis na escala social e profissional. Mas ela sempre correrá o risco de ser julgada ou destruída, física e socialmente, por manifestar desejos e decepções com um mundo pré-moldado. E que nem sempre se contenta com um só parceiro. Esta ordem aceita permite, por exemplo, que todo 8 de Março seja uma oportunidade para se espalhar sem pudor propagandas e reportagens sobre mulheres vencedoras, como mães, profissionais, consumidoras e donas-de-casa, mas quase sempre destituídas de qualquer inclinação sexual, a não ser que sirva para apimentar (e não mudar o caldo) da vida em família. Nestas propagandas, o que não é mercado é poder. Em ambos há um apelo para manter tudo sob controle, como o velho discurso de que mulher deve se respeitar para ganhar respeito ou o de que, se sofreu abusos, é porque ousou demais e se preveniu de menos.

Esse aniquilamento nem sempre é só físico: um homem pode falar em voz alta que tem outras parceiras, e que até paga por isso. Uma mulher, como Joe, pode até dizer o que deseja e o que faz com seus desejos, mas será sempre a “doença” à beira da purificação pelo apedrejamento. Terá no máximo uma condolência: “vá e não volte a pecar”.

Mas Joe quer pecar. Quer voltar a pecar. E quer não ser apedrejada quando peca. Nem quando não peca. Nem quando volta a pecar. Nem quando decide que pecará muitas e muitas vezes. Mas quer pecar com quem ela quiser. Sem ser criminalizada por isso. Nem ser tratada como doente. Nem como alguém que precisa de ajuda ou compreensão.

No mundo de Lars von Trier, a crueldade é o único ponto que une todos os homens. Homens ou mulheres, somos todos sobreviventes, mas só alguns têm as armas a seu favor. É o caso Grace, de Dogville. Ou de Justine, de Melancolia. Não seria dessa vez que doutores e pacientes entrariam em um acordo.