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Cultura

Crônica do Menalton

Não faz mal

por Menalton Braff publicado 31/07/2014 12h26
Há escritores bissextos, que nunca têm pressa de terminar o que escrevem. Em oposição, existem os escritores que acreditam na literatura como arte. Escritor hemorrágico é ainda outra categoria
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Um dos escritores conhecidos meus escreve para se ver livre de seus fantasmas

Um dos escritores conhecidos meus escreve para se ver livre de seus fantasmas

Não, nem me atrevo a uma definição do que seja um escritor. Acho até que uma definição seria impossível em virtude da imensa variedade dos postulantes a tal título. A definição, para abarcar todos, deveria ser tão ampla e vazia que já não definiria nada.

Conheço alguns e, na verdade, quase nada há de comum entre eles.

Um dos escritores conhecidos meus escreve para se ver livre de seus fantasmas. É assim que explica sua necessidade de escrever. Um dia sentiu-se ofendido quando sugeri que ele não agia muito bem ao livrar-se dos próprios fantasmas presenteando com eles seus leitores.

Conheço outro que faz terapia em folha de papel em branco. Sem a escrita, me dizia ele, teria de gastar muito com psicanalista. Além de mais barato, não precisa sair de casa.

Um amigo prefere a linguagem direta, mas além de direta, uma linguagem crua, em que os nomes (antigamente chamávamos de nomes feios) jamais podem ser disfarçados. Sobretudo quando se aproximam da sexualidade, coisa que pessoas mais conservadoras consideram imoral.

Há escritores bissextos, que nunca têm pressa de terminar o que escrevem e, durante a vida toda, produzem muito pouco. Esses, geralmente, são mais sensíveis a outros assuntos, deixando a escrita apenas para as horas de ócio.

Escritor descuidado, com linguagem apenas como veículo de uma história, desses existem às toneladas. Eles acham que literatura é feita de fatos, de ações e intriga. Então, produzir um filme, uma história em quadrinho ou qualquer outro tipo de narrativa é a mesma coisa. A língua, ora a língua.

Em oposição a esses aí, existem os escritores que acreditam na literatura como arte. São os que buscam na língua suas principais virtualidades, que lhe arrancam as belezas escondidas.

Escritor hemorrágico é também uma categoria de escritor. São tantas as ideias fazendo vulcão em sua mente que não pode parar de escrever. O escritor hemorrágico pode ser ainda do tipo descuidado ou daquele outro tipo, o escritor que quer fazer arte com a língua como matéria-prima.

A variedade é imensa e sua relação não caberia em uma crônica despretensiosa como esta, por isso vou encerrando por aqui, mas antes, passo a vocês uma história exemplar.

Meu amigo Evandro Ferreira foi quem me contou o caso de certo escritor, amigo dele, cujo nome me pediu para não revelar. Seu amigo já ultrapassou até a marca do Camilo Castelo Branco, um produtor simplesmente furioso. Diz o Evandro que o tal já passou dos 300 livros.

Um dia meu amigo telefonou para seu conhecido e quem atendeu foi a esposa dele. Agora ele não pode atender, respondeu ela, pois está escrevendo um livro. Não faz mal, foi a resposta do Evandro, eu espero.