Você está aqui: Página Inicial / Cultura / "Não é Hollywood básico"

Cultura

Entrevista

"Não é Hollywood básico"

por Eduardo Graça — publicado 20/09/2013 16h24, última modificação 20/09/2013 17h01
Wagner Moura fala sobre seu personagem em 'Elysium', com Matt Damon e Alice Braga, e diz que pretende interpretar no cinema um pastor à la Marco Feliciano. "É um imbecil"
Wagner Moura e Matt Damon

Wagner Moura e Matt Damon em cena do filme "Elysium", estreia de sexta-feira 20

De Cancún, México*

Matt Damon acha graça da pergunta. O diretor sul-africano Neill Blomkamp arregala os olhos. É claro que todo mundo no set de Elysium, mix de ficção-científica com drama de fundo social que estreia nesta sexta-feira 20 nos cinemas brasileiros já conhecia o Capitão Nascimento. Embalado pelo sucesso de Tropa de Elite, mais saudado na zona norte do planeta pelos milhares de espectadores e o Urso de Ouro no Festival de Cinema de Berlim do que pela distante discussão em torno de um possível maniqueísmo na narrativa oferecida pelo diretor José Padilha, Wagner Moura, 37 anos, entrou em Hollywood pela porta de frente. “Ele entrou arrombando a porta, bem ao estilo Wagner, né?”, brinca a amiga Alice Braga, também no elenco multinacional do filme, ao lado de Damon, Jodie Foster, o mexicano Diego Luna e o ator-fetiche de Blomkamp, seu conterrâneo Sharlto Copley.

Sorrisão, gestos largos, Moura circula pelo hotel-resort localizado no Caribe mexicano, em evento de promoção dos principais filmes de um dos maiores estúdios de Hollywood, como se estivesse em casa. Mas não parece interessado em uma virada radical na carreira. Este é o primeiro filme do baiano filmado nos EUA, mas não é exatamente sua estreia em Hollywood. Seu batismo foi em uma produção de orçamento infinitamente menor, da Fox, há treze anos. “Depois de Tropa comecei a receber muitas propostas para trabalhar fora do Brasil. Mas, quer saber, se não for muito legal, vou fazer pra quê, por que?”.

Elysium passou pelo crivo de Moura. O ano é 2154 e a Terra é uma enorme favela. De um lado, os pobres em uma Los Angeles irreconhecível, com personagens como o protagonista Max, vivido por Matt Damon, a enfermeira Frey, de Alice Braga e o Spider de Moura, especializado em transportar clandestinamente excluídos para o paraíso. Este se chama Elysium, foi construído literalmente nos céus para as elites e, sob a direção da Delacourt de Jodie Foster, guarda a sete chaves os avanços científicos e médicos oferecidos a poucos eleitos.

Ao contrário de Distrito 9, o filme anterior e primeiro longa-metragem de Blomkamp, finalizado quando ele tinha 30 anos, uma metáfora do apartheid recriado a partir da chegada de alienígenas ao planeta, forçados a viver em campos de concentração disfarçados de favelas, indicado a 4 prêmios Oscar, Elysium recebeu críticas medianas nos EUA e não foi exatamente um sucesso de público. Moura, no entanto, recebeu da temida Manohla Dargis, em crítica publicada no “New York Times”, o adjetivo “fantástico” para sua atuação.

Confira abaixo os melhores trechos da conversa do ator que sonha em encarnar no cinema um pastor evangélico – “até que ponto estes caras acreditam no que falam ou é só proselitismo?”.

 

CartaCapital - O pano de fundo de “Elysium” é a desigualdade social no futuro, tema especialmente importante para os brasileiros. Você acha que o cinema brasileiro tem tratado do tema recentemente com a precisão por você encontrada no roteiro de Neill Blomkamp?

Wagner Moura- Esta é um tema, como não poderia deixar de ser, que está no DNA do cinema brasileiro. Está lá no Cinema Novo, e o chamado cinema da retomada também tentou ir por este caminho, com um foco bem aberto, tratamos do sistema carcerário, das favelas. De fato, recentemente, não tenho visto muita coisa nesta área. Por outro lado, acho positivo começarmos a nos libertar de um certo compromisso temático. É bom poder fazer filmes de tudo quanto é tipo. Filmes pequenos, mais intimistas, sobre um cara qualquer. Hoje, da Tata Amaral, é um bom exemplo. É um filme político, pois trata da ditadura, mas através de um prisma muito específico. Denise Fraga e o (ator uruguaio) César Troncoso passam o filme em um apartamento conversando. A discussão, ali, é tão política quanto ética e filosófica. E Tropa de Elite, os dois, são filmes políticos para caramba.

CC- A Carta Capital fez uma reportagem de capa no primeiro semestre em torno do vazio intelectual brasileiro. Uma das exceções apontadas pela tese de que o Brasil vive um momento especialmente pobre na seara cultural foi “O Som Ao Redor”, do Kleber Mendonça Filho. Você comunga da ideia de que se vive uma aridez de ideias no país?

WM: Não. Acompanhei a discussão e me alinho ao lado das pessoas que discordam da tese. A economia leva, inevitavelmente, à reboque, uma série de coisas, incluindo a cultura. O fato de o Brasil ser um mercado consumidor importante, hoje, para o cinema, por exemplo, é inegável. Não acho que os americanos saíram atrás de um ator em um país remoto para colocar no elenco de Elysium e encontraram meu nome. Não, eles me queriam porque o Brasil é hoje um mercado importante para Hollywood. Isso, de certa forma, é um reflexo da força do país como um todo. Não acho que haja um vazio cultural no país neste momento. Também não acho que o filme do Kleber, que eu adoro, seja uma ilha de genialidade perdida no meio de mediocridade.

CC - Neill Blomkamp disse que escalou você para Elysium porque adora seu trabalho na franquia Tropa de Elite, mas também por outro motivo, bem mais peculiar, o de ele adorar o som do português falado no Brasil. Ele disse que foi um pedido, naquela lista de “luxos que poderia ter por conta de uma produção hollywoodiana”, o de ter um ator brasileiro falando português entre um e outro take. É verdade?

WM - Ele adora especialmente a palavra “já”. Adora. Mas o Neill está fazendo uma graça, né? Eu não tinha absolutamente com quem falar português no set de filmagem. Só quando estava com Alice (Braga), mas quase nunca filmávamos juntos...

CC - A presença de Alice Braga foi importante para esta sua primeira experiência em uma megaprodução americana?

WM - Não tem como dimensionar a importância da presença dela. Alice é minha irmãzinha. Eu a conheci menina, menina, em Cidade Baixa (2005, de Sérgio Machado). Ela tinha 22 anos, e ficamos muito próximos. Mas aqui é diferente, né? Ela é que é a experiente em Hollywood. Eu era, aqui, o cara que estava chegando. O mais difícil para mim não foi o inglês. Eu falo um inglês quebrado, nunca morei fora do Brasil, não foi exatamente fácil, mas muito mais complicado foi ficar longe de casa, do Brasil, da família. Eu tenho um bocado de filhos, né? (são três, Bem, Salvador e José). E aí a presença da Alice, a luz dela, aquele axé que ela tem, foram de uma importância enorme. Para mim, não para o Neill, é que foi importante ouvir português durante as filmagens, ouvir a Alice falar português.

CC Você usou um professor de inglês para se preparar?

WM - Todos os atores estrangeiros contaram com um coach, era um profissional canadense sensacional. Ele não me deixou falar nenhuma barbaridade, cometer algum erro terrível.

CC -Mas você pensou no Spider como se ele fosse, embora o roteiro não tivesse esta referência, um brasileiro, não?

WM - Sim. E no roteiro fica claro que ele é um estrangeiro, e que não fala inglês como um americano. O Charlton também traz para o filme o sotaque sul-africano, que, na boa, é pior do que o meu inglês. Como o elenco era multicultural, o coach era responsável essencialmente para garantir algo de suma importância para os produtores: que o público de língua inglesa entendesse o que se está falando na tela, o tempo todo.

CC - E o Spider é uma espécie de coiote que leva para Elysium imigrantes ilegais. O paralelo com a realidade é óbvio. Você pensou, ao compor o personagem, na história de milhares de latino-americanos, brasileiros inclusive, que, especialmente a partir dos anos 80, entraram ilegalmente nos EUA em busca de uma vida melhor?

WM - Sim. Mas gosto muito do personagem porque ele não é um excluído clássico. O personagem do Matt (Damon), por exemplo, é um ex-operário sem emprego. O da Alice, uma enfermeira. Já o Spider me trouxe à cabeça foi Mano Brown e os grandes rapperspaulistanos. Ele tem um caráter mais revolucionário. Ele sabe que não quer fazer parte daquele sistema. Algo aconteceu com ele, você vê desde o início, porque ele é manco.

CC - E nunca se descobre o motivo...

WM - Jamais. Eu achei ótimo. No roteiro estava escrito que ele mancava, então, bora lá, fui mancar e pronto. Ele manca, manda as pessoas para Elysium na encolha para elas terem melhor oportunidade de assistência médica, mas ele não vai. Ele nunca vai! Ele não quer fazer parte daquilo. Isso é genial.

CC - Há uma postura ética radical ali?

WM - É tão radical quanto torta, né? E por isso mesmo mais interessante. Ele tem um pouco da coragem de quem não quer meter a mão na cumbuca, mas também tem uma pitada de malandro carioca, afinal ele tem de sobreviver. Se ele tiver que te prejudicar para sobreviver, ele te ferra. É assim a primeira cena dele, quando Matt Damon vai pedir ajuda e ele não consegue, em um primeiro momento, entender como é que ele vai se beneficiar estendendo a mão para o Max.

CC - Por mais que o processo tenha sido difícil, você vê em Elysium o início de uma carreira internacional? É algo que você teria prazer em fazer?

WM - Não. Só se for algo muito legal. Depois de Tropa comecei a receber muitas propostas fora do Brasil. Mas quer saber, se não for muito legal, vou fazer pra quê, por quê?

CC - O que é muito legal para Wagner Moura?

WM - Este filme, por exemplo. Não é Hollywood básico. Não é mesmo. Não é daqueles filmes que bum, bom, explode e todo mundo morre, sabe? Trabalho como ator há mais de 20 anos, tenho três filhos, moro no Rio, sou feliz com minha família, então o critério, é o que eu digo a eles, é o mesmo que tenho ao escolher o que fazer no Brasil. Só porque é um filme americano ou Hollywood? Ah, não. É legal para c.? É. Estar aqui conversando em Cancún com você é muito legal. Mas também se fosse só por isso, eu não estaria tão feliz assim. As pessoas me respeitam no Brasil, as pessoas acham que meu trabalho é legal, não vou me submeter um negócio que vou falar depois ai meu Deus...

CC - Mas há a consciência de que você, de alguma forma, representa o Brasil nesta plataforma única de exposição em escala planetária que é um filme produzido e divulgado pela indústria do cinema americana?

WM - Tem, é fato. Mas não é o principal para mim. Não tenho mais idade para ficar fazendo teste de elenco para não sei que lá. Não tenho mais interesse nisso. Passo mais tempo trabalhando do que em casa, então tem de ser algo que eu tenha tesão de fazer. Eu tenho orgulho de Elysium. A metáfora do apartheid em um filme de ficção científica que éDistrito 9 me deixou de boca aberta. Foi a senha para eu fazer Elysium.

CC - Hollywood não sabe – ainda – que você também canta.

WM - Ah, para, vai. (rindo)

CC - Sério. Nunca pensou em fazer um musical no cinema?

WM - Sim, se for algo bem diferente, eu toparia. Mas não teria exatamente uma ligação direta com o Sua Mãe, que é uma coisa de moleque. É uma banda de 21 anos de existência. Ela é boa, pesadona, tem um conceito legal, de misturar rock inglês com música brega brasileira, mas o Sua Mãe só existe como extensão da amizade que nós sete, da banda, temos, desde a adolescência em Salvador. Ela se sustenta nesta amizade. Mas uma coisa é uma coisa...

CC - Há algum personagem que você ainda sonhe fazer no cinema, no palco, na tevê, nos EUA ou no Brasil?

WM - Eu queria muito fazer Hamlet. E fiz. Agora, tenho um projeto com o Karim (Aïnouz, diretor), de fazer um filme que retratasse os bispos das igrejas neopentecostais. Este é um fenômeno que me impressiona. Tem muita gente legal no universo protestante, vários pastores que admiro, e outros que de fato são muito loucos. Veja o Marco Feliciano. Um imbecil que ganhou com esta história toda um cacife político gigante. É um cara que vai ser eleito ad-infinitum para o Congresso por falar um monte de imbecilidades. Este conjunto de intolerância moral e religiosa me interessa muito: até que ponto estes caras acreditam no que falam ou é só proselitismo? É só dinheiro, é só filha-da-putice, ou há de falto algo que eles acreditem ser uma experiência espiritual? Este é o personagem que eu sonho em fazer no momento.

* o repórter viajou a convite da Sony Pictures