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Crônica / Matheus Pichonelli

Morte e vida severina

por Matheus Pichonelli publicado 15/08/2014 15h57, última modificação 19/08/2014 07h24
Em meio a tantos destroços, humanos e materiais, volto a Pernambuco, e a João Cabral de Melo Neto, em busca de um sopro. Por Matheus Pichonelli
Reprodução/Morte e Vida Severina
Morte e Vida Severina

Cena da animação "Morte e Vida Severina", dirigido por Afonso Serpa e baseado na obra de João Cabral de Melo Neto e inspirado nos quadrinhos de Miguel Falcão

É uma sensação estranha: embora longe do epicentro da campanha deste ano, e tendo me encontrado em poucas ocasiões com Eduardo Campos, quando ele era ainda governador de Pernambuco, recebi a notícia de sua morte como se fosse a de uma pessoa próxima, e presente. Não era o caso, mas não deixava de ser. Em todas as ocasiões em que o vi, tive uma impressão parecida com a que se espalhou em relatos e testemunhos na imprensa e nas redes sociais sobre o presidenciável: a de estar diante de um sujeito de carisma e disposição peculiares, de humor e inteligência raras, sem tempo para crises. Campos era aquele sujeito que você olha e imagina: deve ser legal tê-lo no bar como companhia.

Poderia estar enganado, mas a impressão parece confirmada nesses dois dias posteriores à tragédia que o vitimou. Não cobri a sua campanha, não conheci a fundo as outras vítimas, mas acompanhei com atenção a manifestação de amigos que os conheciam. Um deles me tocou em especial: no Facebook, o amigo Sergio Roxo narrou seu último diálogo com o assessor Carlos Augusto Ramos Leal Filho, o Percol, por volta das 22h30. O assessor queria saber o que ele tinha achado da entrevista de Campos para o Jornal Nacional. Ao fim do texto, Roxo lembrou que, nos últimos 40 dias, Percol sempre perguntava por seu filho recém-nascido. “Hoje, depois de toda tragédia, descobri que o sobrenome dele não era Percol”, escreveu.

Estava no ônibus quando li o testemunho. E tive de desviar o pensamento para impedir que uma segunda lágrima saltasse, que daria passagem a uma terceira, e a uma quarta, e a uma enxurrada. Foi quando percebi meu estado de luto naqueles dias, em parte pela proximidade com pessoas próximas da tragédia, em parte por sua dimensão – e o quanto ela nos leva a pensar em nossa própria condição, frágil, inescapável, imprevisível.

Pouco antes de embarcar, o avião que logo desapareceria estava prenhe de entusiasmo. Campos havia passado no temido teste do JN. Era a primeira vez que se apresentava como candidato ao público nacional, e estava convicto de que causara uma primeira boa impressão. Estranho pensar: muitos que o assistiram na tevê naquela noite souberam que aquele candidato cheio de ideias para o futuro estava morto antes mesmo de abrirem os olhos pela manhã. A dimensão de tempo/espaço parecia chacoalhada. Depois daquela entrevista, Campos comemorou, jantou, brincou com o filho, segurou as mãos da mulher, telefonou para aliados, ouviu congratulações, agendou entrevistas, definiu a agenda do dia seguinte, se despediu da mulher, do filho, pediu a sobrinho que os acompanhasse até Recife, acordou, viu o que os jornais diziam do seu desempenho na tevê, voltou a receber ligações, ouviu pela 204ª vez que em 2018 a sua candidatura estaria ainda mais forte, fez brincadeiras sobre a entrevista, embarcou, atravessou o estado. Era uma travessia segura. Deu tudo errado.

A edição do dia seguinte do Jornal Nacional tinha como tema a sua morte. A virada de chave, desta vez, foi brusca demais: a morte, antes de consumada, dá antes seus sinais, entre os quais a desistência. Por isso adoecemos. Absorvemos seus trejeitos. E partimos, muitas vezes conformados, tantas vezes sem surpresa. No acidente que vitimou Campos e sua equipe, a morte passou por cima de sua própria solenidade.

O ano de 2014 tem se notabilizado, assim, pelo noticiário mórbido. Sinais de um período estranho. Muita gente se foi – Nelson Ned, Eusébio, Philip Seymour Hofmann, Eduardo Coutinho, Gabriel Garcia Marquez, Paulo Goulart, José Wilker, Canarinho, Luciano do Valle, Mauricio Torres, Dr. Osmar, Tito Villanova, Jair Rodrigues, Di Stéfano, Fernandão, Oberdan Catani, Plinio de Arruda Sampaio, Vange Leonel, Ivan Junqueira, João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves, Ariano Suassuna, Robin Williams, Lauren Bacall, Nicolau Sevcenko (quem tem atualizado a lista quase diariamente é o amigo Rodofo Albiero, de quem copio parte das minhas memórias).

Na Ucrânia, assassinos em guerra miraram e acertaram um avião comercial, vitimaram centenas de civis e talvez a esperança da cura para a Aids nas mãos dos pesquisadores mortos no não-acidente. Cansamos de ver fotos de crianças retiradas dos destroços em bombardeios enviados por Israel em direção a Gaza. A Síria segue em chamas. A Líbia volta às tensões da era Kadafi. O Egito está em ebulição. Por aqui a vida não vale um enquadro policial. Moradores de favelas seguem perseguidos, capturados e torturados. Um deles não dá notícias há mais de ano.

Para cada tragédia, e para tantas memórias de passados e presentes trágicos, há sempre um assistente de palco, dublê de roqueiro, para fazer troça, como se acima de toda a paranoia alucinógena não houvesse sequer a dor, o pesar, a humanidade.

Em meio a tantos destroços, humanos e materiais, volto a Pernambuco, e ao seu maior poeta, João Cabral de Melo Neto, em busca de um velho sopro, encontrado ao ler, no mesmo dia 13 de agosto, a notícia do resgate da criança de 11 meses que chegou à Espanha com outros 700 imigrantes da África Subsaariana. Ela foi resgatada de uma pequena e precária embarcação no oceano. Estava sem os pais – eles não conseguiram subir no barco –,  com as roupas molhadas e com 38,5 graus de febre. Tremia de frio. Era uma travessia arriscada. Ela sobreviveu. Sem poder contar o próprio nome, foi (re) batizada de Princesa. Tinha razão o João Cabral: “não há melhor resposta que o espetáculo da vida: vê-la desfiar seu fio, que também se chama vida, ver a fábrica que ela mesma, teimosamente, se fabrica”.