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Cultura

Resenha

As transformações de Mo

por Marsílea Gombata publicado 18/06/2013 09h15
Em 'Mudanças', Nobel de Literatura de 2012 relata as transformações da China durante e depois da era Mao Tsé-Tung
Reprodução
mo yan

Mo Yan discursa ao receber Nobel de Literatura de 2012

Dono de um estilo bem humorado, Mo Yan poderia perfeitamente passar por um autor que nunca vivera um período repressor. A leveza com que analisa as duras mudanças na China durante e depois da era Mao Tsé-Tung marca o livro Mudança (Cosac Naify), no qual o vencedor do Nobel de Literatura 2012 retrata as transformações vividas por um país que tem a mutação como essência.

Mudança narra o crescer de um menino na segunda metade do século XX, na China transformada pelo domínio maoísta. Lembranças da escola, partidas de ping pong, a amizade dos colegas Lu Wenli e He Zhiwu e sonhos de adolescentes povoam a primeira parte do livro com imagens inspiradoras. Em um segundo momento, as vivências como militar, vigilante e instrutor político marcam a vida adulta até o encontro do autor consigo mesmo: as muitas viagens em que aprimorou sua habilidade de escrita.

Comparado a William Faulkner – por romances como romance O Sorgo Vermelho, que originou o filme homônimo de Zhang Yimou – a obra laureada com o Nobel é parte da série What Was Communism, dirigida pelo escritor esquerdista Tariq Ali, que busca responder perguntas como: “O colapso do comunismo foi inevitável?” e “O que, de fato, ocorreu nas diferentes partes do mundo?”.

Fiel à proposta, Mudanças confunde propositalmente a história da China com a do narrador. Assim como o russo Nikita Mickhalkov, que retoma diferentes momentos da União Soviética no filme Anna dos 6 aos 18, as lembranças do narrador são pautadas pelas próprias transformações da China – "Nem em sonho imaginávamos que o presidente Mao morreria um dia. Dois anos mais tarde, o país não apenas sobrevivera como melhorava a cada dia". Sem se ater ao teor repressor do Estado chinês, o autor mostra o papel cada vez mais central que o Partido Comunista ocupa na vida dos cidadãos (“Filiado ao Partido, (...) conseguiria pelo menos salvar um pouco de sua dignidade”), assim como importância da acumulação capitalista na sociedade chinesa (“Filhas de funcionários da Fazenda Estatal, são meninas bem alimentadas e, por isso mesmo, bem desenvolvidas, donas de uma pele de porcelana. Vêm de famílias ricas, usam roupas coloridas, e só de olhar já dá para saber que não pertencem a nossa ralé. Babávamos por elas.”).

Como pano de fundo, ainda, Mo pincela o abismo entre cidade e campo, cada vez mais distante do enriquecimento urbano. Enquanto o campo vivia atraso e vergonha (“Naquela época, falar em língua culta na roça era motivo de chacota; na nossa escola não era diferente”), a capital “monstruosa e assustadora” experimentava crescimento sem precedentes: “Pequim, meu Deus, estávamos em Pequim! Quem diria que um rapaz pobre de Gaomi pisaria o solo da capital (...) veria todos aqueles carros brancos e pretos, e jipes verdes, todos aqueles prédios altos e edifícios enormes, todos aqueles estrangeiros narigudos de olhos azuis”.

Desafetos

Alvo de polêmicas dentre seus conterrâneos, Mo Yan conquistou desafetos como Ai Weiwei e Liao Yiwu, que o acusam de estar de acordo com as diretrizes autoritárias do governo chinês. Fora da China, até mesmo o britânico de origem indiana Salman Rushdie o condenou por apoiar a censura, depois que Mo se negou a assinar uma carta aberta pedindo a libertação do escritor Liu Xiaobo, ganhador do Nobel da Paz de 2010 que está preso desde 2008.

Talvez repouse em tais polêmicas a razão para Mo Yan se recusar a dar entrevistas. Fica, portanto, a visão de uma China como ela é – e suas transformações vividas por Mo.