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Mil palavras

por Calçada da Memória — publicado 12/08/2010 15h31, última modificação 12/08/2010 16h21
Suso D'Amico, versátil roteirista de Ladrões de Bicicleta (1948), foi além. Leia também as resenhas de Ladões de Bicicleta, As Amigas e Rocco e Seus Irmãos. Por José Geraldo Couto

Versátil, roteirista de Ladrões de Bicicleta (1948) Suso D’Amico foi além

Por José Geraldo Couto

Se não tivesse feito mais nada, a romana Suso Cecchi D’Amico (1914-2010), que morreu em 31 de julho, aos 96 anos, mereceria figurar na história do cinema pela pungente sequência final que escreveu para Ladrões de Biclicleta (1948), de Vittorio De Sica: na saída de um jogo de futebol, um trabalhador desempregado é pego roubando uma bicicleta e sofre diante do filho uma humilhação brutal.

Mas Suso, cujo nome de batismo era Giovanna, fez muito mais que isso. Ao longo de seis décadas, participou da escrita de mais de cem filmes, em alguns deles sem receber o devido crédito, caso de A Princesa e o Plebeu, de William Wyler, e Caravaggio, de Derek Jarman.

Sua entrada no mundo do cinema se deu de modo curioso. Filha de um escritor e uma pintora, ela tinha feito traduções e trabalhado como secretária de um ministério até ser chamada pela produção do clássico neorrealista Roma, Cidade Aberta para dar aulas de boas maneiras a Maria Michi e de conversação em inglês a Giovanna Galletti, atrizes do filme.

Criativa, versátil e laboriosa, Suso D’Amico trabalhou com os principais diretores italianos de seu tempo. Escreveu comédias para Monicelli, épicos políticos para Francesco Rosi, dramas existenciais para Antonioni.

Sua parceria mais profícua foi com Luchino Visconti. A partir de Belíssima (1951), participou da escrita de todos os filmes do mestre. Desprovida de vaidade, Suso trabalhava frequentemente em colaboração com outros escritores e dizia que, no cinema, “a palavra está a serviço da imagem”. Poucos entenderam isso. Poucos criaram como ela palavras e imagens tão duradouras.

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Ladrões de Bicicleta (1948)

Marco do neorrealismo e do cinema em geral, esse drama social de Vittorio De Sica, escrito por Cesare Zavattini e Suso D’Amico, encena a odisseia de um pregador de cartazes (Lamberto Maggiorani) em busca de sua bicicleta roubada, seu instrumento de trabalho. Suso introduziu no roteiro a figura do filho (Enzo Staiola).

As Amigas (1955)

Clelia (Eleonora Rossi Drago) chega em Turim para inaugurar a filial de um salão de modas e se envolve com a vizinha de hotel, que tentara o suicídio. Por intermédio dela, entra no círculo de amigas da alta sociedade, onde impera a elegância, mas também as intrigas e o preconceito social. Michelangelo Antonioni em seu elemento.

Rocco e Seus Irmãos (1960)

Neste clássico de Luchino Visconti, com argumento de Suso D’Amico, uma viúva e seus filhos mudam do sul da Itália para Milão. Rocco (Alain Delon) torna-se pugilista, um irmão (Renato Salvatori) descamba para o crime, outro torna-se operário etc. Ponto de equilíbrio entre o estilo suntuoso do diretor e sua preocupação social.