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"A Batalha do Passinho" retrata febre que tomou o Rio

por Marsílea Gombata publicado 07/10/2013 05h04, última modificação 07/10/2013 09h50
Documentário de Emílio Domingos destrincha origem e proporção alcançadas por dança antropofágica que mescla funk e frevo
Divulgação
a batalha do passinho

Documentário estreia dia 11 de outubro no Rio

Se existe um traço autoral em todo o cineasta, o de Emílio Domingos é profundamente marcado pela antropologia. Não à toa. A cadeira das ciências sociais foi o berço de formação do documentarista carioca de 41 anos. Em seu primeiro longa, L.A.P.A (2008), já era possível identificar a preocupação com a origem e as características distintas em torno do caldeirão onde nasceu onde hip hop carioca. No longa, que tem codireção de Cavi Borges, figuras da cena B, como Aori, Black Alien e B Negão, lembram em depoimentos nada estáticos como a festa Zoeira e as batalhas de MCs faziam borbulhar o caldeirão Lapa, no centro do Rio. A profundidade do documentário se dá na busca pela origem da cena no Rio, assim como a de seus principais atores: onde moram, o que fazem, por que atravessam a cidade em busca dos duelos de MCs.

Em A Batalha do Passinho, segundo longa do diretor, o rigor segue. O filme, que estreia no dia 11 no Rio de Janeiro e depois vai para outras cidades, está longe de ser um enfadonho relato etnográfico. Para retratar o fenômeno cultural ‘passinho’, ritmo dançante herdeiro direito do funk carioca que virou febre, Domingos destrincha o universo em que vivem meninos e meninas das comunidades do Rio levando o espectador a acompanhar o dia a dia que propiciou o envolvimento dos jovens – e indiretamente de parentes e amigos – nos duelos de passinho promovido em bailes onde antes eram reis os MCs e os DJs.

“No funk, antes eram populares a figura do MC, do DJ. Com o passinho, ganha um novo status a pessoa que está na pista, o dançarino. Os caras começam a ficar populares com as mulheres no baile, e o fato de estarem no meio do público faz com que as pessoas se identifiquem ainda mais com eles”, explicou Domingos, sócio da Osmose Filmes.

O documentário foi feito entre 2011 e 2013, em um meio no qual “quem tem poder é traficante” ou em que o sonho de muitos é “ser reconhecido”, como lembram em diferentes momentos alguns dos protagonistas como Cebolinha, Beiçola, Brayan Dancy e Gambá, que morreu em janeiro, antes de o filme ser finalizado. O gesseiro de 22 anos que era conhecido como o “Rei do Passinho” foi espancado e asfixiado por dois homens quando voltava de um baile de Réveillon, na manhã de 1º de janeiro de 2012.

Antropofagia. Apesar de ter elementos e batidas do funk carioca, o passinho, explica Domingos, é um ritmo mais acelerado, que assimila inúmeras danças e é altamente “antropofágico”. “As pessoas rotulam o fenômeno como uma mistura de funk, frevo, break e samba, o que eu acho muito reducionista. Ao meu ver, incorpora também mímica, kuduro, ioga, contorcionismo, capoeira”, analisa o cineasta.

O passinho explodiu em 2008 com o vídeo Passinho Foda, que desde então 4,5 milhões de visualizações no YouTube. Depois, conta, tomou os bailes e foi tema de uma batalha organizada pelo escritor Julio Ludemir e o músico Rafael Nike em setembro de 2011 - a primeira competição que formalizou os duelos antes restritos à internet e aos bailes.

“Com o passinho, houve uma valorização das montagens e da dança. As letras são mais sintéticas e costumam falar da própria dança, a ênfase é no ritmo”, explica Domingos sobre a diferença com os outros funks. “Há entre os dançarinos uma relação lúdica com o passinho. Mas ao mesmo tempo, sonham em fazer sucesso, viver da dança, eles têm orgulho em mostrar o talento e representar a comunidade deles.”

Assista ao trailer:

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