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Memórias de uma América obscura

por Willian Vieira — publicado 01/09/2011 08h10, última modificação 05/09/2011 19h07
Joyce Carol Oates reconta famoso infanticídio para destroçar a classe média americana e sua relação com a mídia. Por Willian Vieira

Foi em uma manhã fria de maio de 1980, quando entrou em uma universidade polonesa para palestrar sobre sua literatura, que Joyce Carol Oates ouviu com mais atenção a pergunta que até hoje divide seus leitores entre o amor e o ódio. Por que sua escrita era tão violenta? Seria um abuso na infância ou seu temperamento difícil a razão para tal “visão distorcida da humanidade”? Aonde chegasse para divulgar um romance, lá estava a questão, sorrateira, nos olhos da plateia, na boca dos jornalistas. Tanto que ela escreveu um artigo-manifesto como resposta. Queria apontar o sexismo psicanalítico inerente à pergunta. Não concordava que, como Virginia Wolf, deveria ater-se a temas subjetivos e domésticos em vez de se entregar à violência dos dramas sociais “masculinos”.

Depois de 30 anos e dezenas de livros lançados, o mundo segue sem engolir Oates. Não esperavam que, mesmo dona de reconhecida predileção pelo grotesco, ela destilasse humor negro ao retratar a história nunca resolvida da princesinha da América. Ou que usasse o anjo loiro como um trampolim para um mergulho no obscuro universo do sucesso instantâneo de arquétipos de felicidade que só os Estados Unidos podem produzir, com a imprensa afeita a campanhas sentimentalistas e heróis catapultados do nada. Para espicaçar a classe média alta americana, seus valores, seu comportamento de massa, Oates usou a pequena para uma vingança maior. Em Minha Irmã, Meu Amor (Alfaguara, 624 págs., R$ 67,90), seu caso foi  reproduzido com tintas macabras. E chocou o país.

Em 1996, brilhavam os seis anos de JonBenet Ramsey, uma quase atleta dos concursos infantis de beleza, depositária do orgulho de uma família do Meio-Oeste americano e sexualizada ao extremo pelo arrivismo da mãe. O número de maior sucesso da menina estava guardado para a noite do Natal de 1996, quando seu corpinho mutilado seria achado no porão de casa. A família se equilibraria entre os papéis de vítimas e culpados de um crime inexplicável, ao sabor do público e da mídia.

Tudo aqui tem a idade da América. Novos crimes hediondos desencadeiam a mesma receita: choque, comoção, escrutínio público, enforcamento moral e sublimação. O que Oates fez de novo, além de trocar a cidade, o nome da família e o setting – na ficção, a menina Bliss é um prodígio da patinação no gelo que arranca suspiros mesmo ao cair na pista –, foi tocar a noção de outra culpa, que independe do crime. “O tema verdadeiro do romance não é jornalismo ou um caso particular- de assassinato, mas a exploração das crianças e da infância pelos adultos”, diz Oates a CartaCapital.

No caso, Bliss é coadjuvante. Minha Irmã, Meu Amor é a história “do irmão mais velho da mais famosa criança de 6 anos da história dos Estados Unidos”, quiçá do mundo, como diz Skyler, nome escolhido, na ficção, para o irmão da menininha morta. Ele cresceu manco, viciado em Vicodin e com uma compulsão à repetição que não apenas rememora os detalhes da história macabra como esfrega na cara do americano médio as vicissitudes da sociedade. “Skyler, o narrador vitimizado, é o único membro dessa família a se sentir culpado pelo fim da irmã caçula, ainda que, paradoxalmente, seja inocente e tenha sido prejudicado por seus parentes”, diz. Implacável com a família, a autora retrata os pais ora afeitos a explorar sua imagem ora, após o crime, tentando proteger seu status.

Mas o vilão que surge mais nu é a mídia. A sanha jornalística em supor o indizível e confirmá-lo por um consenso nascido da comoção pública é retratada quase com raiva. “Há muitas, muitas vítimas inocentes da ‘justiça feita pelos tabloides’ nos Estados Unidos, os filhos e parentes de famosos”, diz Oates. “Suas histórias nunca são contadas, são anônimas e amaldiçoadas.”

Oates é uma escritora assombrosa, não somente pela preferência por histórias de horror, das góticas às baseadas em crimes, mas pela prolificidade e variedade de temas que cobre com contos, romances, ensaios, poesias e histórias infantis, que passam dos 70 títulos. Como uma mulher de 73 anos continua a escrever de um a dois livros por ano, à mão, além de lecionar na Universidade de Princeton, é um mistério. Com Them, de 1969, ganhou o National Book Award. Outras três vezes foi indicada ao Pulitzer, como por Blonde, biografia do lado mais íntimo de Marilyn Monroe, em 2000. (Oates jura que é apenas ficção, como tem feito com outros romances baseados em crimes ou personagens reais.)

Minha Irmã, Meu Amor vai além. Oates lambuza sua narrativa em um ritmo que detém o mesmo frenesi histérico do coração da pequena Bliss enquanto descia, embrulhada em uma coberta cor-de-rosa, nos braços de seu desconhecido assassino, as escadas de casa rumo à morte silenciosa. Usa excertos de pesquisas imaginárias, intercaladas com frases da menina que ecoam- na mente do irmão, o coraçãozinho tatuado com esferográfica na mão da menina para dar sorte ou a possível manchete de jornal anunciando sua imolação em frente à cruz de ouro falso de uma igreja neopresbiteriana no centro da cidadezinha onde sua família conheceu a desgraça.

Skyler chama seu texto de “documento”. Vai tateando a forma com que desenvolverá sua narrativa explicando por quês, suas intenções. Desenhando meas culpas. Sua odisseia visitando psiquiatras em busca de uma solução, fruto, garante Oates, de pesada pesquisa factual, ganha contornos realistas. O narrador, leia-se Oates, o faz com uma mordacidade ácida, que flerta com o desespero de um suicida. “Não se trata de uma edificante história cristã de pecado-sofrimento-esclarecimento-redenção.”

O cerne da obra paira sobre a construção de uma imagem, em vida e após a morte, do anjo infantil, símbolo do “melhor” da América branca. E quem seria o perfeito artífice desse processo de transformação dramatúrgica do que a boa e velha imprensa?  É a menina Isabella, possivelmente atirada pelo pai da janela do condomínio de classe média onde, dizem, crescia inocente e feliz. É a jovem assassinada na frente das câmeras sedentas por sangue, enquanto nós, do outro lado da tela, seguramos as páginas fétidas dos jornais.

A mídia internacional não gostou. E criticou o livro pelo tom, pela proximidade com o real, pelo trabalho de mexer em um cadáver ainda fresco. Ao que Oates responde com desdém e ironia. Em seu novo romance, Mudwoman, previsto para o ano que vem, ela explora as experiências de uma mulher que ascendeu como presidente de uma rica universidade da Ivy League americana. “Mudwoman é uma investigação particularmente detalhada do estresse, da excitação, da conquista, da ambição e dos riscos de tal posição para qualquer indivíduo”, revela. “Mas é uma história com um final resolvido. Como a maioria dos meus romances que envolvem material trágico, há uma possibilidade de final feliz.”