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Memória reavivada

por Orlando Margarido — publicado 14/10/2011 10h55, última modificação 14/10/2011 10h55
A Pinacoteca de São Paulo renova sua exposição de acervo com prediletos do público, como Almeida Júnior

Nem rodin nem Olafur Eliasson. O que mantém a fidelidade de um visitante típico da Pinacoteca do Estado não são as esculturas do século XIX do francês responsável, em 1995, por um alentado recorde de bilheteria. Tampouco as instalações grandiosas e desafiadoras ao olhar do artista dinamarquês atualmente expostas no prédio da Luz, ou qualquer outra criação contemporânea. Carrega o sintomático título de Saudade a tela de Almeida Júnior que se mantém predileta e convoca protestos do público quando retirada, seja por curtos períodos, do posto cativo no segundo andar da instituição, aquele determinado ao acervo. Seus entusiastas não têm motivo de preocupação também agora, quando a pintura de 1899 foi movida apenas alguns metros para compor, com outras de mesma filiação acadêmica, a nova mostra da coleção do museu. Batizada Arte no Brasil – Uma história na Pinacoteca de São Paulo, trata-se da primeira renovação desde que o endereço passou há 13 anos pela reforma estrutural consagradora de seu papel influente no cenário cultural.

Sem receio, pode-se ampliar o gosto popular por Saudade a todas as telas do pintor paulista caipira e em certa medida a seus pares de Academia, como bem sabem os dirigentes e especialistas envolvidos com esse universo artístico. Há algo de acolhedor, de imediata apreensão nesses retratos, paisagens, naturezas-mortas, figuras femininas e masculinas em repouso, na pintura histórica e de gênero que tanto evoca memórias. Por isso mesmo, maior é a responsabilidade de um reduto privilegiado como a Pinacoteca em exibir tal arte. De um acervo de 9 mil peças, 8 mil enfeixam da produção colonial à moda moderna. São períodos contemplados na atual disposição por cerca de 500 obras, entre telas, esculturas, desenhos, gravuras e fotografias, muitas delas recém-restauradas em ateliê próprio. Devido à sua origem ligada à estrutura de mecenato e a uma escola de belas artes nas primeiras décadas do século XX, é natural encontrar na entidade uma concentração distintiva da fase que se consagrou chamar acadêmica, a predileta de uma burguesia do período. Daí lotes significativos de Almeida Júnior, que soma 48 pinturas, das quais podem ser apreciadas ainda O Importuno e Leitura, entre outras, além de Oscar Pereira da Silva, Eliseu Visconti e Pedro Alexandrino, por exemplo.

Manter este e demais nomes e seus trabalhos de fama e carinho para o público não foi decisão aleatória. Uma pesquisa determinou queixas dos visitantes a respeito da amplitude do espaço e da dificuldade em vencê-lo, na dúvida de ter cumprido todo o roteiro. Levado em conta também o excesso de obras, o dobro de hoje, a opção foi criar um percurso cronológico por 11 salas voltadas a temas, movimentos e condições específicas do fazer artístico. Para tanto, lembra a curadora, Valéria Piccoli, duas linhas de pensamento nortearam o projeto, uma sobre uma identidade nacional, exemplar no Modernismo, outra sobre a criação de um sistema de arte que relaciona as chamadas Missões Artísticas ou a própria Academia como escola de aprendizado.*

*Leia a íntegra da matéria na edição 668 de CartaCapital, nas bancas nesta sexta-feira 14