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Mazelas novas

por Rosane Pavam publicado 17/06/2011 13h32, última modificação 21/06/2011 18h40
Quitanilha leva arte a histórias dos subúrbios do Brasil
Mazelas novas

Marcelo Quintanilha interpreta as histórias dos subúrbios. Por Rosane Pavam. Foto: Reprodução do livro Almas Públicas

Marcello Quintanilha é um caso encantado da história em quadrinhos nacional. Faz HQ mesmo, não teme os balões, nem, portanto, dialogar. As falas que inclui em seu texto são as da periferia brasileira, ontem e hoje. Como um Rugendas de nossas atuais mazelas, não divide o mundo dos pobres em bandidos e heróis. São todos espécies de heróis. E as histórias de sua autoria tampouco têm começo ou fim. Em entrevista a CartaCapital, ele comentou com desagrado esta possibilidade de inconclusão, na qual, contudo, um leitor só veria beleza. Digamos que, citando Jean-Luc Godard, suas histórias tenham começo, meio e final, mas não necessariamente nesta ordem. 

Fealdade de Fabiano Gorila, de 1999, republicada neste belo volume contendo velhas e novas histórias, é narrativa clássica. As demais deixam a sensação de que, versado no suspense, o autor observa o mundo sem responder a perguntas por ele mesmo levantadas. Às vezes, Quintanilha nem mesmo pergunta, tirando o chão do leitor. Mas, novamente, o artista parece incomodado com esta ideia de que não responde as coisas: “Sim, elas [as histórias] nos dão todas as respostas e essa é, provavelmente, a razão principal de por que nos tiram do chão”. 

É um desenhista-roteirista de 40 anos, brasileiro de Niterói, e mora em Barcelona (“uma cidade tão boa quanto Niterói”) a trabalho, torcendo pelo time da casa. As histórias de Almas Públicas versam sobre futebol ou não: “Minhas histórias são o que eu sou.” 

Quintanilha não joga: “Eu tentei. Deus sabe o quanto eu tentei.” Seus heróis não vencem nada, ou quase nada. O prêmio é a controvérsia da convivência no subúrbio, onde se escondem do sucesso, do dinheiro, do olho de quem os poderia comprar. A arte é de primeira, sombras, cores e cortes. E tudo funciona como se pudéssemos tocar suas texturas tão reais. 

Confira abaixo a entrevista concedida a CartaCapital: 

CaraCapital: Desde Fealdade de Fabiano Gorila, você entendeu que deveria encarar a história contemporânea brasileira por que razão?
Marcello Quintanilha: Isso não pode ser considerado como uma decisão. Eu entendo essa abordagem como o resultado de um processo, porque minha intenção é chegar até o leitor com toda a carga das motivações que me levam a fazer quadrinhos, portanto, o que se entende como “história contemporânea brasileira” ou “universo brasileiro” ou “etc. brasileiro” é indissociável do meu trabalho porque minhas histórias são o que eu sou. 

CC:Mesmo atuais, suas histórias guardam uma marca histórica. Me parece que você registra o momento e o movimento das coisas para jamais perdê-los no futuro. Seria exagero, por isso, chamá-lo de historiador do presente?
MQ: Sim, eu acho que seria exagero… O traço que você chama de histórico advém do meu interesse por retratar elementos que fizeram parte da minha infância e adolescência; e, sim, muitos desses elementos hoje estão perdidos para sempre… Quanto ao meu objetivo de não voltar a perdê-los no futuro, que isso fique entre nós… 

CC: Por que Barcelona? (Eu digo a cidade, porque me parece que torce para o Barça por motivos óbvios a quase todos os brasileiros; ou não seriam tão óbvios assim?)
MQ:
Porque comecei a trabalhar na série Sept balles pour Oxford, em parceria com Jorge Zentner e Montecarlo. Foi muito enriquecedor trabalhar na série junto com os roteiristas. Eu já conhecia a cidade havia algum tempo quando tomei a decisão de me mudar. É uma cidade quase tão boa quanto Niterói. 

CC: Você joga futebol?
MQ:
Eu tentei. Deus sabe o quanto eu tentei. 

CC: Esta delicadeza de suas histórias, este seu não-apelo à violência, estas suas narrativas inconclusas e poéticas, surgiram por algum motivo que você reconheça? Você se lembra de ter optado por este caminho? Porque Fabiano Gorila era bem forte, uma história com início, meio e fim. As atuais principalmente nos tiram do chão, mas não nos dão respostas.
MQ:
Como disse, não tomei essa decisão. Sim, elas nos dão todas as respostas e essa é, provavelmente, a razão principal de por que nos tiram do chão. Em Fealdade… isso é mais aparente, porque ela está apoiada na narração de um fato com um desdobramento cronologicamente linear. A construção da narrativa muitas vezes, no entanto, obedece a uma engrenagem que funciona no sentido de esquadrinhar os sentimentos dos personagens como um objetivo em si — e não unicamente de narrar um fato — através de uma narrativa desconstruída. 

Tomando De pinho (integrante de Almas Públicas) como exemplo, veremos que se trata de uma história arquitetada inteiramente em função de um único quadro, que é, ao mesmo tempo, desfecho — porque graças a ele entendemos que Agnaldo finalmente sucumbe à tentação de admitir o assédio de um veículo de comunicação, ainda que isso não seja verdade — e introdução ao epílogo, quando tomamos conhecimento da verdadeira condição profissional de Agnaldo, reserva no time de futebol a que pertence. 

Em outros casos temos indícios de para onde foi a vida do personagem, já nas primeiras linhas, caso de Chão Bento, quando percebemos que a história é narrada por um sambista, provavelmente de algum renome, já que nos fala de sua “primeira” gravação, nos anos 40, relatando a uma possível entrevistadora as experiências que o fizeram trilhar o caminho de samba. 

ALMAS PÚBLICAS 

Marcello Quintanilha 

Conrad, 72 págs., R$ 39,90