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Manari por ela mesma

por Paulo Rebêlo — publicado 31/10/2010 17h49, última modificação 31/10/2010 17h51
Universitária nascida na “pior cidade do Brasil” filma a vida de seus conterrâneos

Universitária nascida na “pior cidade do Brasil” filma a vida de seus conterrâneos

Por Paulo Rebêlo*

Não foi preciso tanto tempo para a “pior cidade do Brasil” virar um pequeno oásis no meio do Sertão nordestino. Manari, 400 quilômetros a sudoeste do Recife, divisa entre Pernambuco e Alagoas, deixou de ser o retrato do subdesenvolvimento para transformar-se em ícone de um Brasil profundo. Tem a cara, o cheiro e o jeito de centenas de municípios que a maioria das pessoas nunca ouviu falar e nunca vai conhecer. Com segredos paulatinamente esquecidos ou enterrados.
Segredos que a manariense Valéria Fagundes decidiu revelar a partir de um sonho guardado há sete anos, desde quando Manari tornou-se nacionalmente famosa ao ser alçada pela Organização das Nações Unidas à condição de município com o pior Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M) do Brasil – a última colocada no ranking entre 5.507 cidades brasileiras. “Não foi fácil ver na televisão que a gente era a pior cidade do Brasil. Pior ainda, ver tantas pessoas querendo tirar proveito da situa­ção”, explica a jovem estudante de jornalismo e diretora estreante durante os últimos takes de um documentário com o qual pretende mostrar como Manari está além dos vexaminosos índices de saneamento, saúde e educação.

Forçados à condição de “coitadinhos”, viram o desenvolvimento chegar (telefone, asfalto, comércio, um pouco mais de água...) como num passe de mágica e começaram a perguntar: se era tão fácil, por que nunca fizeram antes?
São dúvidas a perdurar desde 2003, quando foi divulgado o ranking no Atlas de Desenvolvimento Humano do Pnud. Pouco depois, CartaCapital foi a Manari (abril/2004) para verificar o curioso contraste: uma população sem emprego e sem expectativas, de fato, mas ao mesmo tempo feliz e solidária com seus pares de uma forma única. Não tinham nada a reclamar.
Em julho de 2006, a revista voltou ao município para ratificar, novamente, as reclamações da jovem Valéria: o desenvolvimento chegou, sem dúvida. Telefone que antes não existia, asfalto para ligar a cidade até então totalmente isolada (50 quilômetros de mato, barro e pedregulhos até a rodovia mais próxima) e outras benfeitorias.
Passados os holofotes midiáticos, os projetos sociais sucumbiram, os investimentos caíram e os políticos minguaram. O papo bonito de inclusão social e digital de governos (municipal, estadual e federal) funcionou até ir parar em capas de revistas e jornais. Depois, tudo ficou entregue à própria sorte.

A população de Manari, contudo, continua a mesma, do jeito “que Deus permite”, e com ricas histórias de vida a serem contadas no documentário realizado com o apoio de Flávio Gusmão (23 anos) na direção de fotografia e filmagens, Pedro Luna (27) na codireção e produção, Luara Dal Chiavon (20) no áudio e um pequeno aporte financeiro da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe). “Batemos na porta de todas as empresas, bancos e governos que faturaram em cima de uma tristeza que nunca existiu, mas não liberaram nem 1 real. De última hora, conseguimos aprovar um pequeno projeto na Fundarpe para cobrir uma parte dos custos”, afirma Valéria, satisfeita por poder contar com a ajuda (às vezes, até mesmo financeira) de seus conterrâneos.­ Eles relatam como surgiu o vilarejo no meio do nada, a luta pela sobrevivência ontem e hoje. E, aos poucos, reconstroem o folclore e a cultura local.
Aos 65 anos, Sebastião do Pandeiro é um dos personagens que abrem o “cofre” de sua memória pela primeira vez. Cita os relatos deixados pelo bisavô sobre as primeiras casas naquela região que, até 2003, parecia não existir no mapa. João de Hortência, de 94 anos, parece voltar à juventude quando a equipe de filmagem consegue reunir cantadores para tocar a Mazuca, hoje esquecida pelos jovens e desconhecida por muitos pesquisadores diante da falta de representantes ainda vivos. E ele dança, dança sem parar, incansável.

São histórias que surpreendem a própria Valéria, nascida e criada em Manari, há apenas três anos e meio instalada no Recife. “Na faculdade vi o poder de mobilização que o cinema tem e cultivei o sonho de fazer um documentário para mostrar esse lado que as pessoas não conhecem. Mas nunca imaginei encontrar tamanha fartura de histórias e de cultura, pessoas com tanto a ensinar, mesmo tão isoladas.”
Entre as surpresas históricas, a descoberta de um possível lençol freático em Manari Velho, um distrito sem estrada e, há até bem pouco tempo, sem energia elétrica. “Aqui não tem nada, mas água nunca faltou e é água da boa”, garante José Domingos Filho, em cujo terreno há coqueiros em abundância, cana-de-açúcar, animais e uma vegetação verde de dar inveja a muito fazendeiro rico.
Cosme João dos Santos herdou um pequeno engenho do pai, onde realiza todo o processo de plantação de cana para fazer rapadura, mas vende apenas localmente para vizinhos e amigos. Situação bem explicada pelo comerciante Paulo Celso de França, fundador e vice-presidente da Associação Cultural Oásis, recentemente transformada em ponto de cultura: “Manari tem um milhão, mas o povo não tem um tostão”, diz, referindo-se aos investimentos que contrastam com o excesso de burocracia e a inoperância política para pequenas benfeitorias que poderiam melhorar a vida do pequeno agricultor e produtor. O fim da falta de água, para começo de conversa.
Curiosa, também, a vida de agricultores como Seu Tião (Sebastião Xaveiro de Oliveira), analfabeto e hoje um orgulhoso apicultor. “Agricultor é que nem animal, não sabe nada da vida, não participa de nada.” Depois de fazer um curso da Serta sobre apicultura (nos tempos áureos das manchetes de jornais), Seu Tião mantém um pequeno apiário e engarrafa o mel do jeito que pode, mas não tem os meios para escoar a produção. Mal consegue vender na feira semanal de Manari. Tem um milhão, sem ter um tostão. •