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Literatura afetiva

por Marsílea Gombata publicado 20/09/2013 05h45, última modificação 20/09/2013 10h39
Segundo romance do Juan Pablo Villalobos, "Se Vivêssemos em um Lugar Normal" mistura acidez com crítica social e elementos da identidade mexicana
Reprodução
Se vivessemos em um lugar normal capa.jpg

Livro é o segundo da trilogia dedicada ao México

Se Vivêssemos em um Lugar Normal (Companhia das Letras), segundo romance do mexicano Juan Pablo Villalobos, questiona, a começar pelo título, a trajetória que ele e sua família tomam dentro do curso histórico de seu país. Segundo de sete filhos de uma família que mora no alto do Morro da Puta Que Pariu, o protagonista Orestes tem como maior preocupação conseguir entender se é pobre ou da classe média, em um cotidiano marcado pela ação de rebeldes opositores, pela crise econômica dos anos 1980 e pela rotineira disputa por quesadillas preparadas por sua mãe.

Na ficção que, segundo o autor, bebe pouco de sua experiência pessoal, a cidade palco do enredo tem “mais vacas que pessoas, mais charros que cavalos, mais padres que vacas, e as pessoas gostam de acreditar na existência de fantasmas, milagres, naves espaciais, santos e similares”.

O livro, que é lançado nesta sexta-feira 20, é o segundo de uma trilogia dedicada ao México, ao lado de Festa no Covil. Seu estilo direto e agressivo levam o leitor a acompanhar o processo de tomada de consciência junto a Orestes, que alcança uma espécie de elucidação ao perceber, por exemplo, a inveja que lhe era inerente e a limitação à qual seus pais eram impostos: “Olhei para meus pais, (...) em vez de fumaça, o que eu via no rosto deles era a sombra - a ameaça - da infelicidade eterna.”

“O que realmente me preocupava no momento de escrever o romance, sobre essa tomada de consciência, são os mecanismos de manipulação política. Quando no romance o protagonista descobre esses mecanismos de manipulação, que vêm desde o poder econômico e político, ele tenta se rebelar. E a relação de Orestes com isso é através desse cinismo, do sarcasmo que ele usa", explica a CartaCapital. O autor, casado com uma brasileira, vive em Campinas, no interior de São Paulo, de onde faz traduções e escreve seus romances.

Confira os principais trechos da entrevista:

CartaCapital - De onde surgiu a ideia do livro e como o enxerga em sua obra?

Juan Pablo Villalobos - Para falar a verdade, eu comecei a pensar nesse livro (Se Vivêssemos em um Lugar Normal) e no anterior (Festa no Covil) como parte de uma trilogia quando terminei esse segundo romance. Não foi algo que tive como projeto desde o início, mas quando terminei esse livro percebi que ele continha algumas coisas em comum com o primeiro, e que o projeto do terceiro que tenho na cabeça também estava na mesma linha. E o que eles têm em comum? Os três são livros sobre o México, que trazem histórias familiares, ficções. São histórias íntimas que tentam falar de “grandes temas” do México, suas questões políticas, econômicas e sociais.

CC - Quais intersecções entre Brasil e México você destacaria?

JPV - Ambos têm problemas estruturais muito parecidos. Mas os processos históricos são completamente diferentes. Nós não passamos por uma ditadura, mas por um longo período fomos governados pelo mesmo grupo político, o que era uma ditadura perfeita, como observou o peruano Mario Vargas Llosa. O México, provavelmente, não tem algumas questões que o Brasil tem, como a racial, mas mostra estruturas parecidas. A desigualdade, por exemplo, é um problema grande tanto do Brasil quanto do México.

CCComo enxerga o México hoje? Ele é muito diferente do país que deixou há dez anos?

JPV - Vou com bastante frequência para o México e procuro sempre me informar sobre as notícias de lá. O país passou, nos últimos anos, por uma transformação importante em termos sociais gerada pela violência do tráfico. O México que eu deixei não era tão violento quanto o de hoje. Piorou em 2006, quando o ex-presidente Felipe Calderón decidiu começar uma guerra contra os cartéis do narcotráfico e gerou um clima de insegurança muito grande em todo o país. Por outro lado, algumas questões continuam as mesmas, assim como no Brasil: a desigualdade, problemas de injustiça e os poucos que acumulam muito diante da grande parcela que não tem acesso a um bom trabalho, saúde ou educação. São problemas estruturais, que não são exclusivos do México, mas estão em todos os países da América Latina.

CCO livro traz muitos elementos da cultura mexicana, como a religião e a comida, no caso as quesadillas. O quanto esses elementos te fazem falta e de quais mais sente saudade?

JPV - Na minha obra, a comida tem uma importância fundamental. No primeiro livro da trilogia eu falo dela, assim como no segundo e no terceiro. É uma questão muito pessoal esse interesse pela gastronomia, até porque acho que boa parte da identidade mexicana passa por ela. A gastronomia, no caso dos mexicanos, é um dos principais componentes da formação da identidade cultural.

No caso dos meus livros, essas comidas das quais falo sempre simbolizam alguma coisa. No primeiro, eu falava de pozole, que é um prato preparado com cabeça de porco, pois tinha um simbolismo no livro que fala de cabeças decapitadas. No segundo, falo de quesadillas, que, dependendo se têm mais ou menos queijo, simbolizam o momento econômico da família, ponto central no romance.

CC - Ao se dar conta da importância da luta de classes, através da ação de rebeldes nos anos 1980, o personagem se depara com o papel insignificante de sua família nesse processo. O quanto dessa história é da vida de Juan Pablo Villalobos?

JPV -  Esse é um romance que está construído com três diferentes materiais. O principal, eu diria 90%, é a ficção. Outro é o material histórico, ou seja, falo no livro de questões políticas, econômicas, sociais e fatos que aconteceram nos anos 1980, como crise, políticas de desvalorização, inflação e um período político conturbado. O terceiro elemento é o que poderia ser chamado de autobiográfico, ainda que minimamente. Como, por exemplo, o fato de o protagonista ser o segundo filho da família, como eu sou, e a história se passar em uma cidade que seria onde eu cresci. Mas o que acontece no romance, que tem um enredo muito absurdo, é ficção e não poderia ser verdade.

CC - O livro, de tom ácido e ágil, tece críticas à hipocrisia de certas grupos - como quando o padre diz que dinheiro não importa - e à ausência de consciência política das classes sociais mais baixas. Isso vem mudando no México de hoje? E no Brasil?

JPV -  O que realmente me preocupava no momento de escrever o romance, sobre essa tomada de consciência, são sobre os mecanismos de manipulação política. Há um discurso religioso na sociedade mexicana, que pode existir também na brasileira, que fala para o pobre se resignar, que questões materiais não são importantes. E também político, do PRI [Partido Revolucionário Institucional], que governou o México de 1929 até 2000, e voltou ao poder no ano passado. O PRI criou uma cultura de manipulação política e também de compra de parte da sociedade através de um mecanismo muito sofisticado para controlar os movimentos sociais. Primeiro os minimiza, como se não fossem uma questão da sociedade importante, depois tentar comprar e trazer para si, para convencer que não há posições contrarias. A terceira etapa é a ameaça e depois dessa vem a repressão. São quatro fases, não de práticas públicas do PRI, mas que continuam funcionando dentro do sistema de governo no México.

Então, quando no romance o protagonista Orestes descobre esses mecanismos de manipulação política, que vêm desde o poder econômico e político, ele tenta se rebelar. E a relação do Orestes com isso é através desse cinismo, do sarcasmo que ele usa.

CCComo será o terceiro livro que fecha a trilogia sobre o México?

JPV - Na verdade, não gosto muito de falar sobre o que estou fazendo. Sou meio supersticioso e prefiro não falar.

CC - Quais são suas principais influências literárias? Elas são as mesmas de quando você começou a escrever ou a se envolver com literatura?

JPV - Acho que mudaram muito e continuam mudando. Nossos interesses como leitor se transformam com o tempo. Sou formado em literatura, tenho uma formação literária forte, com a leitura de clássicos e traduções. Mas no caso de romances, a minha maior influência é a literatura francesa da primeira metade do século 20, de escritores como Alfred Jarry, Raymond Queneau, Boris Vian, além do irlandês Samuel Beckett e do romeno Eugene Ionesco, que escreveram parte da obra deles em francês.

CC - Qual sua expectativa em relação ao festival Pauliceia Literária, no qual debate com o angolano Valter Hugo Mãe?

JPV - Quando eu morava na Espanha, há cinco anos, li O Apocalipse dos Trabalhadores, de Valter Hugo Mãe. Acho que é um autor muito interessante, que tem muitas coincidências comigo, como a preocupação com a questão social e a identidade, no caso dele, a sociedade portuguesa. Acredito que será um debate muito interessante porque tanto O Apocalipse dos Trabalhadores quanto o Se Vivêssemos em um Lugar Normal têm em comum esse interesse pela questão social e econômica.

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Lançamentos:

São Paulo
Sexta-feira, 20/9, às 13h
Bate-papo com Valter Hugo Mãe na Pauliceia LiteráriaSede da Associação dos Advogados de São Paulo (AASP) - Rua Álvares Penteado, 151 – Centro

Campinas
Terça-feira, 24/9, às 19h
Livraria da Vila Galleria Shopping – Rod. Dom Pedro I – s/nº