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Cultura

Entrevista - Leonardo Padura

Leonardo Padura: Cuba não é o paraíso nem o inferno

por Marsílea Gombata publicado 07/07/2015 04h13
Um dos principais nomes na Flip 2015, o escritor cubano Leonardo Padura diz que o cansaço cubano não é exclusividade da ilha, mas parte de um contexto universal
Walter Craveiro/ Flip Festa Literária
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O escritor cubano Leonardo Padura durante sua participação na Flip, no último domingo 5 de julho

Com Hereges, seu novo romance a ser lançado aqui em setembro, Leonardo Padura viu o seu principal objetivo ruir. Na tentativa de tirar a política do primeiro plano da história, como aconteceu com o aclamado O homem que amava os cachorros (Boitempo Editorial, 2013), o escritor cubano buscou falar da liberdade individual, mas acabou vendo o assunto ganhar corpo diante do atual momento político de Cuba. Desde o anúncio da retomada das relações com os Estados Unidos, em dezembro, a ilha vive a expectativa do amanhã e sonha em ver no pedestal não apenas os direitos sociais garantidos pela revolução de 1959, como também aqueles que versam sobre a liberdade individual e de expressão. “O livre arbítrio é algo essencial na condição de homem civilizado porque sempre vivemos em sociedades que nos ditam regras de caráter político, social, religioso, ético, inclusive de mercado”, disse em entrevista a CartaCapital.

Roteirista, jornalista e crítico literário até ganhar popularidade com seus livros – recebeu no mês passado, por exemplo, o Prêmio Princesa das Astúrias pelo conjunto de sua obra – Padura foi uma das principais atrações da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), que acabou neste domingo 5 de julho. Questionado sobre o tão falado cansaço dos cubanos em relação às limitações no país, ele lembra que Cuba não é o paraíso socialista que alguns pintam nem o inferno comunista que muitos gostam de lhe atribuir e que está mais para um “purgatório”, mais próximo da realidade. “O cansaço cubano é parte de um cansaço universal. Nós o sentimos porque o vemos todos os dias”, observa

Leia os principais trechos da entrevista: 

CartaCapital Queria que o senhor começasse apresentando um pouco o seu novo livro, Hereges, que será lançado no Brasil em setembro.

Leonardo Padura – Esse é um livro cuja unidade tem um conceito e um objeto material. O conceito é a busca pela liberdade do indivíduo e o preço que muitas vezes se paga por ela. E o objeto é um quadro de Rembrandt, um óleo que pertence a uma série de retratos que fez, de um jovem judeu em Amsterdã onde vivia, e que são tentativas de representar a figura de Cristo como pessoa. São três historias: a primeira com esse jovem judeu sefaradi que quer ser pintor. A segunda é a de um menino asquenazi à espera de seu pai que chegará a Cuba com o navio S.S. Saint Louis, em 1939, onde se escondem 937 judeus vindos de Hamburgo. A terceira é a de uma jovem cubana emo que desaparece, e uma amiga sua pede a Mario Conde que a procure. Essas três historias estão conectadas pelo fato de serem três personagens em busca de sua liberdade. É um romance difícil de se resumir, pois são três argumentos em um só livro.

CC Em outra ocasião, o senhor disse ter descoberto que o livre-arbítrio é essencial na cultura e na religião judaica.  Como foi essa descoberta?

LP – Eu sempre me interessei pela cultura judaica. É algo que não conheço e com meu interesse tratava de vencer essa ignorância. O fenômeno do livre arbítrio é algo essencial na condição de homem civilizado porque sempre vivemos em sociedades que nos ditam regras de caráter político, social, religioso, ético, inclusive de mercado. Tem a ver com essa ideia de o homem criar o seu próprio destino. E esse é um conceito essencial na filosofia judaica. Porque, apesar de ser uma religião que parece restritiva, cheia de regras, normas e preceitos, houve sempre nela um espaço ao indivíduo, ao exercício do livre arbítrio, e me pareceu interessante utilizar isso como conceito no romance.

CC A história do personagem, esse jovem cubano que decide praticar sua liberdade, pode ser vista como um paralelo ao momento do homem cubano, diante de um futuro de abertura?

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Antes de ir a Paraty, Padura encontrou-se com o ex-presidente Lula em São Paulo
LP – Um paralelo, não! É uma história que vai diretamente a esse problema, sobre o espaço que tem o indivíduo em uma sociedade como a cubana para praticar sua liberdade individual. Decidi que se eu contasse apenas a história como a da jovem cubana, esse livro teria uma leitura fundamentalmente política. Mas se eu visse esse conflito através da história, do tempo, da geografia, em diferentes momentos e espaços, ela adquiriria um caráter mais universal e a leitura política ficaria por trás de uma leitura que me interessa mais, de caráter humano. Por isso, esse problema hoje em Cuba ganha uma perspectiva mais universal no curso da história, e vemos que não é um conflito que se repetiu outras vezes.

CC O seu livro anterior, O homem que amava os cachorros, mostra como a utopia que impulsionou a Revolução Russa de 1917 degringolou e se tornou um pesadelo autoritário responsável não apenas por cercear as liberdades como também acabar com milhões de vidas. Quais as semelhanças em relação a Cuba?

LP – Esse é um romance que tem a ver com a perseguição de uma grande utopia, que tentou-se colocar em prática para se criar uma sociedade mais justa. E essa sociedade que se junta em um Estado, que é a União Soviética, muito rapidamente tem um processo de perda quando a figura de Stalin toma o poder. Nos países onde se manteve um sistema de caráter marxista, com condições diferentes, como China e Cuba, tratou-se de preservar uma cultura social e politica, modificando a economia, e a economia, como bem disse o marxismo, é a essência da sociedade. Portanto, são sociedades que estão em processo de distanciamento do socialismo do século 20 e tentando, cada uma à sua maneira, criar uma nova sociedade ou uma nova forma de entendê-la. Já não têm o mesmo caráter romântico que tiveram no início, são muito mais pragmáticas.

CCO livro explora o assassino de Trostki. Pesquisar sobre sua vida ajudou a desmistificá-lo, já que não se fala quase dele em Cuba, e também a gerar compaixão? 

LP – Quando há aprofundamento sobre uma figura, momentos históricos, acontecimentos que se mitificam por muitas razões, de alguma maneira, se está desmistificando isso, pois estamos tentando chegar à verdadeira essência. E isso aconteceu comigo em relação a Trotski. Quanto mais eu estudava e me aproximava de sua personalidade, fui sentindo uma admiração que não sei até que ponto pude controlar no livro. A compaixão que tive foi mais em relação a seu assassino, Ramón Mercader, sempre apresentado como um homem de um só caráter que o próprio governo tratou de humanizar, quando foi um homem manipulado além de sua vontade.

CCMuitos brasileiros veem Cuba como uma ditadura, sem levar em conta os avanços sociais que alcançou. Como o senhor enxerga essa dicotomia: a priorização dos direitos sociais em detrimento dos individuais? É possível ter ambos?

LP – Fora de Cuba, da perspectiva política e ideológica que se imaginou, há duas tendências: a idealização de um paraíso socialista e a condenação de um inferno comunista. E isso corresponde mais a certos interesses do que à realidade propriamente dita. Porque Cuba não é um paraíso socialista nem um inferno comunista. É uma espécie de purgatório onde as coisas podem ser um pouco mais normais. Há muitos que dizem: os direitos como saúde, alimentação e educação estão garantidos. Mas, sem dúvida, outros direitos que o indivíduo deveria ter são limitados em Cuba. Não o fazem de maneira sangrenta, mas reprimem direitos de expressão e qualquer militância politica. E creio que Cuba é uma sociedade marcada pelos preconceitos, poucas vezes analisada desde a sua integralidade e sua complexidade. O país e sua lógica interna não são o que se vê de fora. É muito difícil esquematizar a saudação ou a condenação de Cuba. 

CC Por que ainda elege Cuba para viver? Já pensou em viver em outro país?

LP – Não, não me interessa. Teria de acontecer algo muito grave para viver fora de Cuba. É de Cuba que tiro a substância para a minha literatura e o meu jornalismo. E tenho um forte sentido de pertencimento espiritual e cultural com Cuba, desde a cultura cubana até o fato de viver no pequeno bairro Mantilla, no sul da cidade onde minha família viveu por muitos anos. É nesse território que me encontro como pessoa, no qual sinto que sou exatamente a pessoa que sou.

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Comemorações do último Dia do Trabalho, nas ruas de Havana

CC Estamos prestes a ver uma nova Rússia em Cuba: com a crescente abertura levando a um capitalismo ainda mais selvagem ao combatido inicialmente?

LP – Olha, é muito difícil predizer como será o futuro em Cuba, porque é o futuro e não o conhecemos. Em 16 de dezembro do ano passado se alguém me dissesse que Cuba e EUA começariam no dia seguinte conversações para reestabelecer relações eu diria que era mentira. Predizer o futuro é impossível. E Cuba é como um jogo de cartas em que falta a metade delas, e nunca se poderá completar ele todo por falta de informação. O governo fala em continuidade, mas também em mudanças econômicas importantes que virão. Quando chegarão, quais serão e que estrutura a sociedade cubana tomará ainda não se sabe.

CC – Muito se fala que os cubanos estão cansados. É verdade? O que querem os cubanos hoje?

LP – Os cubanos querem viver melhor. Em 1990, logo após o fim da União Soviética, teve início uma crise econômica muito forte em Cuba, e os cubanos passaram 25 anos vivendo em uma situação primeiramente dramática na vida cotidiana e, depois, com uma certa normalização da sociedade nessa situação difícil. Imagina um país onde 80% das pessoas trabalham para o Estado, onde só agora tem surgido um pequeno setor privado. E o próprio Estado passou a reconhecer que o salário que se paga a essas pessoas são insuficientes para se viver em Cuba.

Então se você trabalha em uma fábrica, uma farmácia, uma editora do Estado e o seu salário não dá para tudo, o que se faz? Existem muitas estratégias de sobrevivência. O farmacêutico vende o remédio sem receita, o padeiro vende farinha para alguém, o motorista rouba um pouco de gasolina e vende a outra pessoa. E também há algo muito importante em Cuba, que é ter fé. Fé é “familiar en el extranjero”. Então se você tem um parente no exterior, que de vez em quando te envia 100 dólares, quando se ganha 25 dólares, você acaba tendo quatro vezes o  seu salário.

As pessoas estão muito cansadas dessa luta. Uma luta que, na verdade, se vê no mundo inteiro. Eu visito muito a Espanha e tenho vários amigos cubanos que tiveram de ir para os EUA porque não conseguiam trabalho lá. Em outros lugares vive-se com muita tensão econômica, e creio que no Brasil acontece o mesmo. O cansaço cubano é parte de um cansaço universal. Acontece que nós o sentimos porque o vemos todos os dias. Por isso digo que a utopia socialista do século 20 fracassou, mas também digo que é preciso criar uma nova utopia, porque a maioria das pessoas, mesmo com liberdade e direitos, vivem em condições que não são as melhores.