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Morre León Ferrari, o artista que enfureceu Bergoglio

por Piero Locatelli — publicado 25/07/2013 16h41, última modificação 25/07/2013 17h57
Morte de crítico do cristianismo, aos 92 anos de idade, ocorre no momento em que pontífice viaja pelo Brasil
Divulgação
ferrari

A Civilização Ocidental e Cristã, uma das obras que despertou a ira do papa

Maior artista plástico da Argentina, León Ferrari morreu nesta quinta-feira 25, enquanto o papa Francisco, que espalhou ódio contra sua obra, passeava pelo Brasil criticando políticas progressistas, como a descriminalização das drogas.

A opinião de Bergoglio sobre Ferrari destoava daquela dada pelo resto do mundo ao seu conterrâneo. Para o New York Times, ele era um dos cinco maiores artistas vivos do mundo. Do júri da Bienal de Veneza, Ferrari recebeu seu prêmio principal em 2007, honraria única para alguém do seu país. A Arco, uma das principais feiras de arte do mundo, considerou-o o melhor artista internacional vivo em 2010.

Antes de ser o papa Francisco, porém, Bergoglio pediu aos católicos uma “jornada de jejum e orações” contra a obra de Ferrari em 2004. Quando era arcebispo de Buenos Aires, o religioso apelou para que uma retrospectiva de Ferrari no Centro Cultural Recoleta fosse fechada. Ele não aceitava que obras questionadoras do catolicismo viessem ao público. Entre elas, a de Jesus Cristo crucificado sob um avião carregado de bombas (La civilización occidental y cristiana, que remete à guerra do Vietnã). Outra escultura representava o inferno tomado por santos.

Bergoglio chamou os fiéis, em uma carta, para irem às ruas contra as obras de Ferrari, já que ele era um “um blasfemo”. Como resultado, manifestações diárias fizeram a exposição ser vetada diversas vezes. Graças aos chamados, católicos destruíram parte de suas obras e o centro cultural sofreu quatro ameaças de bomba. A exposição terminou antes do previsto, a pedido de Ferrari, preocupado com a segurança dos funcionários do museu e das suas obras. A perseguição não era novidade para o artista. Durante a ditadura argentina, teve de morar no Brasil a partir de 1976. Só retornou ao país que o expulsara nos anos 90.

Na época de sua retrospectiva, segundo reportagem da Folha de S. Paulo, Ferrari disse: "o problema que tenho com Bergoglio é que ele acha que as pessoas que não pensam como ele devem ser castigadas, condenadas. E eu penso que ninguém, nem sequer ele, deve ser castigado."

Como Ferrari deixa claro, não seria necessário que Francisco gostasse da sua obra. O problema é que ele usou sua posição de poder para incitar o ódio contra um artista que critica o cristianismo, além de tentar impedir a liberdade de crítica.

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