Você está aqui: Página Inicial / Cultura / Lembranças à venda

Cultura

Crônica

Lembranças à venda

por Matheus Pichonelli publicado 25/04/2013 20h40, última modificação 09/05/2013 15h53
Pelo Facebook, descubro que a sede do clube onde passei a juventude será leiloado. Com ele, os amigos e as memórias
Imagem do filme O Clube da Lua

Imagem do filme O Clube da Lua

Foi o último grande ato de uma era de ouro: acompanhados pela câmera da tevê local, dezenas de amigos, de épocas variadas, invadiram a quadra para carregar nos braços o aniversariante do dia. Meu amigo Álvaro Leão acabava de completar 80 anos. Se não o conhecesse, não acreditaria: aos 80 anos, inteiro como qualquer moleque do jogo, ele correu para a bola com fôlego para converter o pênalti. O gol era a desculpa para a invasão aos gritos de parabéns e festa-surpresa improvisada com bolo, velas e guaraná.

Passado um ano da festa, seu Leão, agora aos 81, segue firme nas peladas do fim de semana. Voltamos a jogar juntos algumas vezes, como tem acontecido desde que eu tinha 15 anos. É provável que ele chegue aos 90 com o mesmo pique, mas o futuro da quadra onde o conheci e fiz incontáveis amigos é incerto (leia mais AQUI).

O Clube 22 de Agosto, um dos mais tradicionais da minha cidade, Araraquara, está à venda. Não todo, é verdade. Pelo Facebook, descubro que a sede social irá a leilão. É como se alguém pegasse os 20 primeiros anos da minha vida (talvez os melhores) e perguntasse: “quem dá mais?”.

Nos encontros aos fins dos jogos de fim de semana, a pergunta entre os amigos é constante: até quando ainda poderemos nos encontrar, bater bola, botar os papos em dia? Os vidros da quadra estão estourados. Fora dele, o pátio está sem cor, sem tinta. O gramado, estragado. A sala de tevê desapareceu. A mesa de sinuca também. A lanchonete, idem. Nos raros domingos em que visito meus amigos, tenho sempre a melancólica sensação de entrar numa cidade-fantasma, que já foi grande e hoje está com os dias contados.

Sei que o leitor, a essa altura do texto, já colou em minha testa o selo de “classe média sofre”. Vendo hoje, o conceito de clube recreativo parece de fato um símbolo da exclusão. Não parece fazer sentido, afinal, erguer muros num espaço delimitado para se produzir, em um ambiente privado, aquilo que se evita em um espaço público: a convivência.

Não deixava de ser um cinismo velado: os moradores do entorno raramente entravam nas dependências do clube, que não fora feito para eles.

Mas, naquele tempo, a ideia de espaço público, gratuito e democrático, ainda engatinhava. Quase não havia quadras, parques ou equipamentos culturais disponíveis na cidade. Como os espaços privados de lazer eram caros ou simplesmente reduzidos, levamos aos clubes de mensalidades simbólicas nossos primeiros piques, pedaladas, dribles, piqueniques. Era um pequeno grande mundo de portas abertas para a adolescência, algo diferente da escola, que me cobrava silêncio e desempenho.

Na sala de aula aprendíamos a conviver com pessoas da mesma idade, mesmos anseios, mesmos uniformes. Tínhamos praticamente as mesmas origens, vivíamos nos mesmos bairros e, portanto, compartilhávamos quase sempre os mesmos valores. No clube a palavra “homogeneidade” não fazia sentido: num mesmo jogo, dividiam espaço pessoas com idades para serem meus pais, avós (caso do seu Leão) e primos menores. Ninguém ali era engenheiro, jornalista, estudante, desempregado ou comerciante; naquela quadra éramos amigos que por algumas horas fingiam ser alas, pivôs, goleiros, fixos. Qualquer um era bem-vindo, e não era preciso sequer saber jogar.

Mais que tudo: foi ali, numa arquibancada de ginásio, que conheci aos 15 anos a menina com quem me casaria aos 28.

Não foi por outro motivo que a notícia do leilão da ala social do clube – onde comemorei praticamente todos os Carnavais e formaturas da vida – veio com um semblante de fim de tarde. É como se uma porta preservada da infância começasse a se fechar. O Clube 22 de Agosto caminha na mesma direção de antigos clubes recreativos que perderam espaço nas novas cidades – o caso mais simbólico talvez seja o centenário Tietê, em São Paulo, de portas recentemente fechadas.

Por quê? Em parte, por incompetência (às vezes má-fé) administrativa. Em parte porque os tempos são outros: hoje a noção de diversão se alargou, mas para dentro. Fatiamos cada vez mais os espaços de convivência privados e suas áreas gourmet, condomínios fechados, shoppings, escola em período integral ou quartos com internet de banda larga.

Quanto aos clubes recreativos, todos parecem fadados ao destino do Clube da Lua, do clássico filme de Juan José Campanella. Protagonizado por Ricardo Darin, o filme narra a ascensão e queda de um clube em Avellaneda em meio à crise econômica argentina. Abandonado, sem associados e sem dinheiro para se reerguer, o clube vira alvo de empresários que querem transformar o espaço em um grande cassino.

O argumento era: o clube não dá retorno, o cassino trará empregos. É quando o personagem de Darin, que literalmente nasceu dentro do clube, questiona se é possível calcular em cifras as experiências vividas ali: as amizades, os “jogos” inesquecíveis, as gargalhadas, as conversas; as experiências, enfim, que não estão à venda.

Mas, em tempos de crise materiais, as urgências financeiras atropelam os patrimônios imateriais. Como sintetizava o personagem de Darin: chegou um tempo em que a ordem é sobreviver e não viver.

É quase o prenúncio do que, dez anos depois, viria acontecer no “nosso” clube, hoje frio e decadente, mas que em um passado recente me conectou a amigos de toda a vida, como o seu Leão. Não tínhamos a mesma idade, não morávamos no mesmo quarteirão, não trabalhávamos na mesma empresa. Tínhamos (temos) apenas o futebol como ponto em comum. E uma quadra onde ainda nos reunimos para jogos cada vez mais raros. Para um garoto de 15 anos, não era pouco. Para um garoto de 80, menos ainda.