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João Ubaldo Ribeiro expõe raízes não extirpadas do Brasil

por Clarice Cardoso — publicado 18/07/2014 15h21, última modificação 18/07/2014 16h10
"Um país sem seus livros, suas canções, suas danças, seu cinema, suas pinturas e esculturas não é um país, é apenas um conglomerado de vizinhos malsatisfeitos", dizia o escritor baiano
Nerivaldo Góes/ASCOM/FPC

Um ex-engraxate e feirante que assassinou a mulher consegue, graças à ajuda de um político, tornar-se sargento. Recebe, antes de se aposentar, a incumbência de levar o chefe político Paulo Afonso para Aracaju. Truculência e violência são temas que marcam a execução da tarefa que, contudo, acaba revogada. Não tendo ouvido a ordem de abortar da boca do próprio chefe, o sargento simplesmente a ignora: missão dada é missão cumprida. Custe o que custar.

Na obsessão de entregar o preso a seu destino, o protetor se torna algoz e, então, perseguido, numa espiral de ruína que se mostra tão universal quanto local, tão temporal quando atual. Em Sargento Getúlio, João Ubaldo Ribeiro expõe as raízes de um modo de funcionamento do Brasil ainda não extirpadas. Tal é a função do romancista, tão belamente executada pelo ocupante da cadeira 34 da Academia Brasileira de Letras, que faleceu nesta sexta-feira, 18, aos 73 anos, vítima de uma embolia pulmonar.

Mais que a crítica política e social ali embutida, o romance se insere num momento do regionalismo que deixa de ser uma mercadoria de exportação, fundada na busca do exotismo fácil, para mergulhar nos problemas fundamentais do País, a saber, o subdesenvolvimento.

Sargento Getúlio rendeu a João Ubaldo Ribeiro o primeiro Prêmio Jabuti em 1972 e, honraria maior, alçou-o aos olhos da crítica à vertente literária de Graciliano Ramos e Guimarães Rosa. Romance curto, com linguagem tão específica que o próprio Ubaldo teve de debruçar-se para verter-lhe para o inglês. Nenhum outro tradutor o conseguiria fazer.

Na missão de levar o preso, Getúlio leva consigo o leitor, a linguagem, o romance mesmo enquanto coisa em si e delineia os contornos de um Brasil profundo e ainda tão presente. As simbologias do Nordeste são o que há ali de mais forte, na formação de um povo, de uma cultura e de uma língua. “Tendo sido criado em Sergipe até os 11 anos, não posso deixar de ser meio sergipano; tendo nascido em Itaparica, sou baiano”, dizia Ubaldo sobre si mesmo. É desse intercâmbio que nascem as principais referências da obra.

Mesmo tendo dito publicamente que a arte, ou antes, a literatura não deveria necessariamente ter uma função, reconhecia seu papel social e, mais do que isso, demonstrava nele confiar em seus escritos. Como afirmou em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras: “Um país sem seus livros, suas canções, suas danças, seu cinema, suas pinturas e esculturas, suas manifestações culturais, enfim, não é um país, é apenas um conglomerado de vizinhos malsatisfeitos”.

João Ubaldo escritor

João Ubaldo Ribeiro era filho de um jurista, professor de história e político para quem grande desonra era o fato de o filho mais velho, seu primogênito, não saber ler aos seis anos de idade. Uma vergonha para a família, dizia-se do garoto que cresceria para vencer, em 2008, o Prêmio Camões, o mais importante das letras em língua portuguesa.

Mal começou a sondar as formas das letras, aventurou-se a ler o Dom Quixote de Cervantes - as gravuras de Gustavo Dore o seduziram. Aos seis, leu, sem entender nada, Hamlet, de Shakespeare, ou assim contava. No meio da adolescência, começou seus primeiros escritos, reunidos em Setembro Não Tem Sentido e publicados quando ele tinha 21 anos.

O capítulo seguinte seria um marco na produção do então jovem escritor e, mais, do romance brasileiro contemporâneo, Sargento Getúlio. João Ubaldo Ribeiro, contudo, mais tarde se diria irritado com a “idolatria” dos leitores para com o romance, que o consideravam um clássico. Depois, ele escreveria ainda Viva o Povo Brasileiro, um painel sobre 400 anos de História do Brasil que venceu outro Jabuti e vendeu mais de 120 mil exemplares. Tornou-se popular também pelo campeão de vendas A Casa dos Budas Ditosos, sobre a luxúria, escrito sob encomenda para uma série de uma editora.

Tornar-se escritor, ele dizia, não era sua pretensão inicial. Sempre soube, contudo, que queria escrever. “Tampouco sou homem de letras no sentido rigoroso do termo. Sou apenas um romancista, um contador de histórias, cuja modesta cultura literária foi adquirida num convívio arrebatado com os livros de Ficção, a Poesia e o Teatro”, afirmou em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras.

João Ubaldo político

Se na literatura as múltiplas vozes muito se valiam da ironia, no jornalismo, João Ubaldo Ribeiro seguia pensando o Brasil de forma às vezes dura, sem o costume de temperar suas opiniões. A mesma voz de timbre forte e inigualável que construiu romances fundamentais dirigia, sem oscilar, críticas duras a personalidade políticas em suas crônicas nos jornais.

Polêmica famosa deu-se na reeleição de Fernando Henrique Cardoso para a presidência. À época, Ubaldo começou uma de suas crônicas dizendo já no primeiro parágrafo não ter gostado do resultado. “O senhor, que já passou pelo ridículo de sentar-se na cadeira do prefeito de São Paulo, na convicção de que já estava eleito, hoje pensa que é um político competente e, possivelmente, tem Maquiavel na cabeceira da cama. O senhor não é uma coisa nem outra, o buraco é bem mais embaixo. Político competente é Antônio Carlos Magalhães, que manda no Brasil e, como já disse aqui, se ele fosse candidato, votaria nele e lhe continuaria a fazer oposição, mas pelo menos ele seria um presidente bem mais macho que o senhor.”

Na prolífica edição passada da Feira Literária de Frankfurt, onde Luiz Ruffatto fez o conhecido discurso de abertura do evento no qual o Brasil foi homenageado, Ubaldo participou de um debate com João Almino sobre o País, em que atacou a “população parasitária” da esfera política de Brasília.

Nas últimas semanas, em seus textos para “O Estado de S. Paulo” e “O Globo”, comentou a Copa do Mundo e começava a tratar das eleições deste ano. “Cada vez mais abusadas, algumas palavras perderam o sentido. Quase ninguém é capaz de fazer uma distinção teórica, ou abstrata, entre esquerda e direita políticas e, por exemplo, o ex-presidente Lula as emprega para lá e para cá, conforme a necessidade do momento. Ou seja, direita, assim como esquerda, é o que convém. Nega que seja de esquerda e em seguida vocifera contra manobras da direita, como se fosse um porta-voz da esquerda continental.”

Se distante de seus primeiros textos e crônicas, o tom adotado por João Ubaldo Ribeiro em suas últimas crônicas reforçam a versatilidade e a autenticidade sempre segura de si de um de nossos mais importantes escritores. Com a perda do romancista, ficará a lacuna aberta nas letras nacionais.