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The Observer

Jimi Hendrix: "Curto Strauss e Wagner: são bons"

por The Observer — publicado 10/12/2013 09h51, última modificação 10/12/2013 15h58
Em nova coletânea de entrevistas e pensamentos, o artista fala sobre a chegada a Londres, o medo do palco, o racismo e os planos para o futuro
Jimi Hendrix

Capa do álbum "Axis: Bold as Love", de Jimi Hendrix

Por Jimi Hendrix

Quando eu tinha 17 anos, formei uma banda com outros rapazes, mas eles me deram um caldo. Eu não sabia por que no início, mas depois de uns três meses percebi que tinha de arranjar uma guitarra elétrica. Minha primeira foi uma Danelectro, que meu pai comprou para mim. Devo ter perturbado ele durante muito tempo. Mas primeiro tive de lhe mostrar que sabia tocar. Naqueles dias eu só gostava de rock'n'roll, acho. Costumávamos tocar coisas de pessoas como os Coasters.

De qualquer modo, todos tinham de fazer as mesmas coisas antes que pudessem entrar em uma banda. Você tinha até de fazer os mesmos passos. Comecei a procurar lugares para tocar. Lembro que minha primeira apresentação foi em um quartel da Guarda Nacional. Ganhamos 35 centavos cada e três hambúrgueres. Foi muito difícil para mim no começo. Eu sabia umas três canções, e quando chegava a hora de tocar no palco eu tremia inteiro. Por isso tinha de tocar atrás da cortina. Não conseguia ficar na frente do palco. Então você fica muito desanimado. Escuta várias bandas tocando ao seu redor, e o guitarrista sempre parece muito melhor que você. A maioria das pessoas desiste nesse ponto, mas é melhor não. Apenas siga em frente, siga em frente. Às vezes você fica tão frustrado que odeia a guitarra, mas tudo isso apenas faz parte do aprendizado. Se você insistir, será recompensado. Se você for muito teimoso, vai conseguir.

23 de setembro de 1966. Foi quando cheguei à Inglaterra. Eles me deixaram esperando no aeroporto três ou quatro horas, porque eu não tinha visto de trabalho. A certa altura falaram em me mandar de volta para Nova York até que tudo fosse esclarecido. Eles agiam como se eu fosse ganhar todo o dinheiro da Inglaterra e levá-lo de volta para os Estados Unidos!

Fui morar em um apartamento com Chas Chandler. Tinha sido de Ringo [Starr]. Na verdade, só levaram a bateria embora no dia seguinte. Havia altos falantes em todo lugar, e um banheiro muito brega, cheio de espelhos. Imediatamente começaram a chegar reclamações. Em geral eram sobre festas ruidosas e tardias quando estávamos fora da cidade! Voltávamos na manhã seguinte e ouvíamos todas as queixas. Chas ficou muito bravo com isso, mas eu não deixei que me incomodasse.

A primeira vez que toquei guitarra na Inglaterra foi com o Cream. Eu gosto do modo como Eric Clapton toca. Seus solos parecem Albert King. Eric é simplesmente demais. E Ginger Baker parece um polvo, cara. Ele é um verdadeiro baterista nato.

Eu não podia trabalhar muito porque não tinha visto. Se quisesse ficar na Inglaterra, teria de conseguir empregos suficientes para ter um visto prolongado. Então precisávamos tocar com vários grupos. Chas tinha muitos números de telefone. Ele me ajudou a encontrar meu baixista e meu baterista e formar o Jimi Hendrix Experience. Foi muito difícil encontrar os acompanhantes certos, pessoas que sentissem a mesma coisa que eu.

18 de junho de 1967. Monterey, Califórnia. Paul McCartney era o grande Beatle mau, o lindo gato que conseguiu para nós uma apresentação no Monterey Pop Festival. Foi nosso início nos EUA. Tudo foi perfeito. Eu disse: "Puxa! Está tudo em cima! O que vou fazer?"

Em outras palavras, eu estava assustado com aquilo, quase. Estava assustado de subir lá e tocar na frente de tanta gente. Você realmente quer deixar aquelas pessoas ligadas. É como um sentimento de preocupação realmente profundo. Você fica muito intenso. É assim que eu vejo a coisa. Para mim é natural. Quando você toca a primeira nota, ou quando a primeira coisa dá certo, então tudo bem. Vamos pegar essa gente de jeito!

Legenda:

Jimi Hendrix: "Nós conseguimos, cara, porque fazíamos uma coisa nossa, original. Tínhamos nosso lindo som rock-blues-country-funky-freaky, e estava realmente atraindo as pessoas. Eu me sentia como se estivéssemos dando tesão no mundo inteiro com essa coisa nova".

A música me dá um barato no palco, essa é a verdade. É quase como ser viciado em música. No palco eu esqueço tudo, até a dor. Veja o meu polegar como ficou feio. Quando estou tocando, não penso nisso. Eu apenas fico lá e mando ver. Às vezes você entra em um som tal, que você vai para uma outra coisa. Você não esquece a plateia, mas esquece toda a paranoia, aquela coisa que você dizia: "Oh, meu Deus. estou no palco – o que vou fazer agora?" Então você entra nessa outra coisa, e vem a ser quase como uma peça de certa maneira. Às vezes tenho de me conter, porque fico tão excitado – não, excitado não, envolvido.

Quando eu estava na Grã-Bretanha costumava pensar nos Estados Unidos todos os dias. Sou norte-americano. Queria que as pessoas daqui me vissem. Também queria ver se nós daríamos certo aqui. E conseguimos, cara, porque fizemos nossa própria coisa, e foi realmente a nossa coisa e de ninguém mais. Nós tínhamos um som rock-blues-country-funky-freaky maravilhoso, e realmente estava ligando as pessoas. Eu sentia como se estivéssemos dando tesão no mundo inteiro com essa coisa nova, a melhor, a coisa nova mais adorável. Então eu decidi destruir minha guitarra no fim da canção, como um sacrifício. Você sacrifica as coisas que ama. Eu amo minha guitarra.

A raça não é um problema no meu mundo. Não vejo as coisas em termos de raças. Vejo as coisas em termos de pessoas. Não estou pensando em pessoas pretas ou pessoas brancas. Estou pensando no obsoleto e no novo. Não há divisão de cor agora, nem preto nem branco. Todas as frustrações e os tumultos que acontecem hoje são sobre coisas mais pessoais. Todo mundo tem guerras dentro de si mesmo, por isso formam coisas diferentes, e se revelam como uma guerra contra as outras pessoas. Eles se justificam enquanto justificam os outros em suas tentativas de conseguir liberdade pessoal. Isso é tudo.

Não é que eu não me relacione com os Panteras Negras. Naturalmente me sinto parte do que eles fazem, em certos aspectos. Alguém tem de tomar uma decisão, e nós somos os mais prejudicados no que diz respeito à paz de espírito e à vida. Mas não sou a favor da agressão, violência ou como você quiser chamá-la. Não sou a favor da guerrilha. Nem coisas frustradas, como atirar coquetéis Molotov aqui e ali, ou quebrar uma vitrine de loja. Isso não é nada. Especialmente no nosso bairro.

Eu não sinto ódio por ninguém, porque isso não passa de dar dois passos para trás. Você tem de relaxar e esperar passar pelo sentimento psicológico. Outras pessoas não têm pernas, ou visão, e lutaram em guerras. Você deve ter pena delas e pensar que parte de sua personalidade elas perderam. É bom quando você começa a acumular pensamentos universais. É bom para aquele segundo. Se você começa a pensar negativo, ele muda para amargura, agressão, ódio. Todas essas coisas nós temos de eliminar da face da terra para que possamos viver em harmonia. E as outras pessoas também precisam perceber isto, ou vão lutar pelo resto de suas vidas.

Espero pelo menos dar coragem para os que lutam, através de minhas canções. Eu experimento coisas diferentes, passo por minhas dificuldades, e o que eu aprendo tento transmitir para os outros através da música. Existe uma canção que estou escrevendo agora que é dedicada aos Panteras Negras, não referente à raça, mas ao simbolismo do que acontece hoje. Eles deveriam apenas ser um símbolo para os olhos do establishment. Deveriam ser só uma coisa legendária.

Meu sucesso inicial foi um passo na direção certa, mas foi apenas um passo. Agora pretendo entrar em muitas outras coisas. Eu gostaria de tirar uma pausa de seis meses e frequentar uma escola de música. Quero aprender a ler música, ser um estudante modelo, estudar e pensar. Estou cansado de tentar escrever coisas e descobrir que não posso. Eu quero uma grande banda. Não quero dizer três harpas e 14 violinos – quero dizer uma grande banda, cheia de músicos competentes que eu possa conduzir e compor para ela.

Quero fazer parte de uma grande e nova expansão musical. É por isso que preciso encontrar um novo canal para minha música. Vamos ficar imóveis por algum tempo e reunir tudo o que aprendemos musicalmente nos últimos 30 anos, e vamos misturar todas as ideias que funcionaram em uma nova forma de música clássica. Vai ser uma coisa que abrirá uma nova sensação na mente das pessoas.

Eu curto Strauss e Wagner, esses caras são bons, e acho que eles vão formar o pano de fundo da minha música. Flutuando no céu sobre ele estarão os blues – ainda estou cheio de blues –, e depois haverá a música celeste ocidental e a doce música do ópio (vocês terão de trazer seu próprio ópio!), e estas serão misturadas para formar uma só. E com essa música pintaremos imagens da terra e do espaço, de modo que o ouvinte seja levado para outro lugar. Você tem de dar às pessoas alguma coisa para sonhar.

No momento em que eu sentir que não tenho mais nada a dar musicalmente, é quando eu não serei encontrado neste planeta, a menos que eu tenha uma mulher e filhos, porque se eu não tiver nada para comunicar através de minha música, não terei nenhum motivo para viver. Não tenho certeza se viverei até os 28 anos, mas, mais uma vez, tantas coisas lindas me aconteceram nos últimos três anos. O mundo não me deve nada.

Quando as pessoas temem a morte, é um caso de insegurança total. Seu corpo é apenas um veículo físico para transportá-lo de um lugar para outro sem se meter em muita encrenca. Então você tem esse corpo colocado sobre você, que você tem de transportar, acalentar e proteger e assim por diante, mas até esse corpo se exaure. A ideia é organizar o seu próprio ser, ver se você pode se preparar para o próximo mundo, porque existe um. Espero que vocês consigam sacar.

As pessoas ainda lamentam quando os outros morrem. Isso é autopiedade. Todos os seres humanos são egoístas até certo ponto, e é por isso que as pessoas ficam tristes quando alguém morre. Elas não acabaram de usá-lo. A pessoa que morreu não está chorando. A tristeza é para quando um bebê nasce neste mundo pesado.

Eu lhe digo, quando eu morrer vou ter uma jam session. Eu quero que as pessoas fiquem malucas e enlouqueçam. E, conhecendo-me, provavelmente vou ficar de porre no meu próprio funeral. A música será tocada alto, e será a nossa música. Não quero qualquer canção dos Beatles, mas algumas coisas de Eddie Cochran e muito blues. Roland Kirk estará lá, e eu tentarei trazer Miles Davis se ele se estiver disposto. Por isso quase vale a pena morrer. Só pelo funeral. É engraçado o modo como as pessoas adoram os mortos. Você tem de morrer para que elas pensem que você vale alguma coisa. Depois que você morre, você foi feito para a vida. Quando eu morrer, apenas continuem tocando os discos.

Este é um trecho editado de Starting at Zero: His Own Story (Bloomsbury, £12,99). Para solicitar uma cópia por £14,99 acesse theguardian.com/bookshop