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Igor Stravinsky: a peça que faltava

por Alexandre Siqueira — publicado 23/09/2015 06h19
Reencontrada após 107 anos, partitura de 'Canto Fúnebre' gera expectativa e ganha um capítulo à parte das descobertas tardias da história da música
Igor Stravinsky

Stravinsky em foto tirada em Nova York, em 1946

Público, biógrafos e músicos já haviam perdido a esperança de conhecê-la. Desaparecida há 107 anos, Canto Fúnebre, partitura de Igor Stravinsky, ressurgiu. Trata-se da peça orquestral composta em 1908, ano em que o músico iniciava a composição de sua primeira obra de grande repercussão, O Pássaro de Fogo, e da ópera O Rouxinol.

Foi preciso vasculhar todo o acervo do Conservatório da cidade cinza de Dostoievsky, São Petersburgo, para que emergissem os manuscritos, ainda incompletos, da obra daquele que foi um dos maiores artistas do século XX.

A empreitada foi liderada por Natalya Braginskaya, especialista na obra de Stravinsky, que, no fim de outubro, presidirá um colóquio em Bordeaux (“De Bordeaux a São Petersburgo”), no qual deve fazer alusão à descoberta.

O Canto Fúnebre foi tocado uma só vez, na mesma cidade, e estava perdida desde a revolução de 1917. A peça provocou forte impacto no público e no próprio compositor, de acordo com seus relatos (“Crônicas de minha vida”, 1935), mas não desencadeou sua afirmação artística.

Foi necessário partir para a Europa Ocidental e associar-se a Serguei Diaghilev e aos Ballets Russes para que o reconhecimento viesse. De qualquer forma, seria no mínimo incomum que uma carreira se afirmasse a partir de um canto fúnebre, descrito por Natalya como um hino no interior de uma procissão. 

O mote central da peça é a morte do compositor Nikolai Rimsky-Korsakov, do qual Stravinsky foi aluno e grande admirador.

Cada melodia, apresentada instrumento por instrumento, seria como uma coroa de flores depositada no túmulo do mestre russo, tudo acompanhado por um “fundo grave de murmúrios em tremolo”, de acordo com o relato do compositor em sua autobiografia.

Ao menos dois aspectos fundamentais da estética de Stravinsky são esperados: a dimensão ritualística e a atração por um arcaísmo, real ou idealizado.

Tais características aparecem explícitas, em diferentes graus, durante toda a carreira do músico, como nas obras Pássaro de Fogo, Sagração da Primavera, As bodas, Œdipus Rex, e suas últimas obras seriais, como o Threni e o Requiem Canticles, por exemplo. Além disso, o Canto Fúnebre surge como a primeira de uma lista de obras escritas em memória de seus amigos, na qual inserem-se, entre outras, a parte final da Sinfonia para Instrumentos de Sopro dedicada a Claude Debussy, Im Memoriam Dylan Thomas e Introitus para coro masculino e percussão dedicado a T. S. Eliot.  

A história da música ocidental está pontuada por descobertas tardias de obras de grandes artistas, como as orquestrações de melodias de Guy Ropartz feitas por Villa-Lobos, encontradas em 2009, ou uma peça para piano de Mozart, descoberta em 2012.

Serão necessários ainda alguns meses até que a peça orquestral de Stravinsky seja restaurada e editada. Resta esperar que o Canto Fúnebre seja apresentado pelas mãos hábeis de músicos sintonizados com o espírito inquieto do mais cosmopolita dos compositores russos.