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Havia um grilo na cabeça

por Pedro Alexandre Sanches — publicado 19/07/2010 12h42, última modificação 05/08/2010 11h08
O cantor e compositor Guilherme Lamounier perdeu dias de glória para a esquizofrenia
Por onde anda Guilherme Lamounier?

O repórter Pedro Alexandre Sanches descobriu. O cantor e compositor perdeu dias de glória para a esquizofrenia

O cantor e compositor Guilherme Lamounier perdeu dias de glória para a esquizofrenia

Enrosca o meu pescoço, dá um beijo no meu queixo e geme/ o dia tá nascendo e nos chamando pra curtir com ele. Cíclicos, esses versos ganharam o Brasil em 1982, na voz romântica de Fábio Jr., e de novo em 2000, na versão infanto-juvenil da dupla Sandy & Junior. Haviam aparecido antes ainda, em 1977, quando Enrosca integrou a trilha sonora da novela Locomotivas, da Globo, na voz segura e inclinada ao soul do autor, um rapaz chamado Guilherme Lamounier.

“Ele era muito, muito, muito talentoso”, avalia Luiz Cláudio Ramos, arranjador do disco Guilherme Lamounier (Continental, 1973) e atual maestro de Chico Buarque. “Eu estava pensando outro dia que só duas vezes fiz discos com orquestra, de big band. Um foi o do Guilherme, e o outro foi o mais recente do Chico (Carioca, de 2006).” Apesar de Lamounier estar vivo, Ramos usa o verbo no passado porque desde 1985, o músico está desaparecido do circuito musical.

Hoje, com 59 anos, Lamounier vive no bairro onde nasceu, Copacabana, em companhia da mãe, a cantora lírica e professora de canto Sílvia Lamounier (o avô materno, Gastão Lamounier, foi compositor de valsas e tangos gravados nos anos 1930 por Silvio Caldas, Carlos Galhardo e Augusto Calheiros). Ele ainda toca violão e compõe, mas não dá entrevistas, vive solitário, anda sujo e desarrumado. São efeitos da esquizofrenia, de que já sofria no tempo todo em que criou as canções pop ternas, suaves e amorosas que o fizeram quase famoso nos anos 1970. “Guilherme não para quieto, acha que está sendo perseguido. A vida dele é um inferno. É uma tristeza muito grande, ele tinha de se tratar e não se trata”, lamenta Ramos.

“Ele não aceita, acha que é normal e se irrita se você o contesta”, afirma outro ex-parceiro, o compositor Tibério Gaspar, coautor de todas as canções do disco de 1973, cultuado até hoje pela mistura original que estabeleceu entre psicodelia, country rock, soul e rock rural, em pequenos clássicos pop obscuros como Será Que Eu Pus um Grilo na Sua Cabeça? e Os Telhados do Mundo.

“Uma vez, ele me disse que estava chegando da Bahia, onde tinha ido visitar seus netinhos. Tinha descoberto que foi Maria Bonita na outra encarnação”, conta Gaspar, autor de sucessos como Sá Marina (gravada por Wilson Simonal em 1968) e BR-3 (vencedora do Festival Internacional da Canção de 1970, na voz de Toni Tornado), ambas em parceria com Antonio Adolfo.

Promessa de cantor-galã arquitetada pelo controverso agitador cultural Carlos Imperial (que antes orientara Roberto Carlos, Elis Regina, Simonal e Erasmo Carlos), Lamounier também participou daquela fatídica edição do festival da Globo. Defendeu Conquistando e Conquistado, composta por Imperial em dupla com o colunista social Ibrahim Sued, mas não teve chance em meio ao levante de black power à brasileira que se ensaiava naquele festival (e que foi pronta e brutalmente reprimida pela ditadura).

“Imperial ficou enfiando na cabeça de Guilherme que ele ia ser a grande sensação do festival, mas a música não era grande coisa. Começou a cantar e começou a ser vaiado. Ficou desesperado, se esgoelou sem ouvir a própria voz”, documenta Denilson Monteiro, autor da biografia Dez! Nota Dez! – Eu Sou Carlos Imperial (Ed. Matrix, 2008). “Não via que atrás dele estava Imperial, fazendo palhaçadas vestido de xamã, numa fantasia do Cacique de Ramos. Com aquilo Guilherme teve uma crise, foi internado. Imperial tinha uma postura às vezes muito agressiva, dava altos esporros no Guilherme.” Gaspar completa: “Aquilo foi ruim para a cabeça dele. Passou a ter percepções, recebia esse índio. Foi o começo, um gatilho.”

Imperial foi o mentor do primeiro LP, Guilherme Lamounier (Odeon, 1970), fortemente influenciado pela onda black – que o produtor queria apelidar “som livre”. Um dos arranjadores era o mais tarde mundialmente respeitado Dom Salvador, e havia ali um funk que no mesmo ano se tornaria bem mais conhecido na versão de um dos autores, Tim Maia. À época, segundo Denilson Monteiro, Tim e Lamounier moravam no apartamento de Imperial, onde o funk foi criado. “Imperial não gostava de maconha, e Tim e Guilherme criaram um código para falar em dar um tapa no baseado: ‘Vou ver Cristina’. Aí nasceu Cristina”, diz o biógrafo.

Monteiro guarda um depoimento de Tim Maia sobre Lamounier, que foi ao ar pela rádio Globo AM em 1995. “O mais injustiçado de todos é o Guilherme. Ele pirou total. O pessoal tinha de chegar e ajudar o Guilherme, mas ninguém ajuda”, reclamava o cantor, três anos antes de morrer.

Amigo de Tim, Fábio Jr. foi um dos que mais ajudaram, indiretamente. Além de Enrosca, transforma em sucesso nacional outras duas delicadas composições de Lamounier: Seu Melhor Amigo (você é linda como uma flor do campo/minha menina, eu te amo), em 1981, e Seres Humanos (você também tem todo direito/de ser alguém nessa vida), em 1982. “Fábio aprendeu a cantar com Guilherme”, diz Gaspar. Os direitos autorais vindos das gravações e regravações de Fábio e Sandy & Junior são importantes para a subsistência de Lamounier.
Como Fábio, ele foi ator antes de se consolidar cantor, numa passagem extraordinária de sua biografia. Aos 19 anos, atuou num filme norte-americano chamado The Sandpit Generals, de Hall Bartlet. Trata-se de uma adaptação cinematográfica do romance Capitães de Areia, de Jorge Amado, que Lamounier interpretou o menor abandonado Gato. Rodado na Bahia, o filme tinha, na parte brasileira do elenco, os também músicos Dorival Caymmi, Eliana Pittman e Aloysio de Oliveira. A trilha era de Caymmi e Lamounier.

No YouTube encontram-se cenas improváveis do filme, dubladas em russo, pois a produção venceu um festival na então União Soviética e é objeto de culto por lá. The Sandpit Generals foi lançado nos Estados Unidos em 1972 e até hoje jamais exibido comercialmente no Brasil.

O filme guarda em comum com Lamounier o fato de ter ficado perdido na poeira do tempo. O músico não grava um disco desde 1978, quando a Som Livre emplacou o sucesso modesto de Serenatas Perfumadas com Jasmim, mais um tema sereno como seu criador nunca foi. Nos dois casos, a internet veio ajudar a quebrar o silêncio e o esquecimento. Guilherme Lamounier é reverenciado em sites, blogs e redes sociais, que disponibilizam para download a íntegra de sua obra, de LPs e compactos jamais reeditados no circuito comercial. Será que ele pôs um grilo nas nossas cabeças?