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Harry Potter encontra um(a) rival à altura

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 17/04/2015 03h23, última modificação 09/06/2015 17h14
Quem tiver saudades do universo fantástico de Hogwarts deve ler Rani e o Sino da Divisão, de Jim Anotsu, cuja protagonista é uma garota negra de quinze anos subitamente promovida a xamã.
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O livro brasileiro Rani e o Sino da Divisão de Jim Anotsu (Editora Gutenberg, R$ 37,90, 320 páginas)

Desde antes de 2011, quando o último filme da franquia encerrou o ciclo iniciado com o lançamento do primeiro livro de J. K. Rowling em 1997, muito se especulou sobre qual seria “o próximo Harry Potter”. O posto continua vago. Guerra dos Tronos tem uma popularidade quase comparável, mas obviamente não se se destina ao mesmo público infanto-juvenil.

Dito isto, quem tiver saudades do universo fantástico que girou em torno de Hogwarts e não tiver preconceitos contra autores brasileiros faria bem em dar uma oportunidade a Rani e o Sino da Divisão (Editora Gutenberg, R$ 37,90, 320 páginas) de Jim Anotsu, do qual já resenhamos os romances Annabel & Sarah e A Morte é Legal. Assim como a série britânica, gira em torno de um grupo de jovens amigos às voltas com poderes mágicos recém-manifestados, a descoberta de um mundo mágico cheio de seres mitológicos à sua volta e um conflito com entidades muito mais velhas e poderosas a ponto de destruir o mundo que só eles serão capazes de enfrentar numa espetacular batalha final após reunir os recursos mágicos necessários.

As diferenças são, porém, mais interessantes. A protagonista Rani é uma negra de quinze anos, fã e guitarrista de Punk Death Metal, subitamente promovida a xamã. O cenário é uma cidade do interior de Minas Gerais (Itaúna, rebatizada Graúna) e em vez de se submeterem aos uniformes sombrios e tradições arcaicas de um colégio interno britânico, o grupo de amigos autodenominado “Animais de Festa” anda à solta, gosta de roupas coloridas e cria suas próprias regras, para desgosto das abantesmas mais crescidas e é bem mais diversificado. Inclui um lobisomem, vampiros, demônios e até uma garota normal, se se pode chamar assim a colega de banda e melhor amiga de Rani, uma baterista sem poderes especiais, mas nada trouxa e completamente à vontade com essas novas amizades e suas peculiaridades.

Diferença ainda mais importante em relação à famosa série britânica – e para melhor – está na narrativa, fundamentalmente em primeira pessoa. Bem mais variada, original e dinâmica e reforçada por uma edição criativa, torna particularmente próximos e críveis a excêntrica protagonista e seus estranhos companheiros. Além de ser uma história sobre “Salvar o Universo Inteiro”, é também sobre rebeldia juvenil, afirmação e aceitação das diferenças, alegrias da amizade e os desafios de tentar construir uma vida em grupo sem se render a imposições desnecessárias dos mais velhos e do mundo do consumo.  Continuar a explorar o potencial desse imaginário com um arco capaz de abranger o amadurecimento da protagonista abriria as portas de uma fascinante série juvenil.

Vale uma menção especial o episódio no qual as buscas da protagonista a levam à Califórnia.  Não aquela onde ficam Hollywood e San Francisco, mas a terra lendária imaginada no século XVI pelo novelista espanhol Garci Rodríguez de Montalvo e da qual o estado norte-americano tirou seu nome, habitada por amazonas negras montadas em “grifos” atualizados como dinossauros. Por outro lado, merece reparo a presença de um D. Pedro II sábio e bondoso. Tratar como um vovô simpático e inofensivo o responsável por um dos piores genocídios da história e pelas origens da política do “branqueamento”, protetor de senhores de escravos e melhor amigo do fundador do racismo científico (o Conde de Gobineau) e é um clichê arcaico e fora de lugar nessa obra saudavelmente iconoclasta.