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Günter Grass criou literatura poderosa para defender democracia e combater erros nazistas

por Rosane Pavam publicado 13/04/2015 18h09
Romancista morto na segunda-feira 13, aos 87 anos, parecia ter como missão alertar a má consciência dos que se esquivaram e se desculparam por seus raramente assumidos pecados de guerra
Otto Kasch/ DPA/ AFP
Gunter Grass

Foto tirada em 1997, na porta de entrada da casa do escritor Günter Grass, em Luebeck, onde desconhecidos picharam o símbolo nazista

Um escritor, um símbolo, mas também uma caricatura. Morto em Lübeck nesta segunda-feira 13, aos 87 anos, de causa não divulgada, Günter Grass teve a imagem pública para sempre ligada à de um típico intelectual europeu do pós-guerra, incisivo, intransigente em relação aos erros causados pela concentração de poder político, um defensor da democracia social.

Sua missão parecia ser a de alertar, por meio da escrita e também da persona pública, a má consciência dos que se esquivaram e se desculparam por seus raramente assumidos pecados de guerra. Com os óculos bifocais sobre os grossos bigodes e a boca a baforar eternos cachimbos, o escritor alemão usou a figura engajada para desmantelar a auto-indulgência de seus compatriotas.

Isto tudo até que em 2006 ele próprio assumisse ter trabalhado para as SS, primeiro como um adolescente engajado junto às baterias antiaéreas, depois, perto do fim da guerra, em 1944, como um membro da Waffen, nunca acusado, entretanto, de perpretrar atrocidades. “Era um peso em meus ombros”, declarou aos 78 anos, antes do lançamento de seu memorial Descascando a Cebola. “Meu silêncio por todos estes anos é uma das razões pelas quais escrevi o livro. Isto tinha de ter um fim. O que eu aceitei fazer movido por um estúpido orgulho de juventude tive de carregar comigo depois da guerra, com uma vergonha recorrente.”

Em O Tambor, romance finalizado em 1959, quando ele contava 32 anos, e escrito em um porão de Paris, Grass relatou o estado de quase apoplexia que teria levado homens e mulheres a aceitarem o nazismo como uma extensão de seu caráter. No romance, que se transformou em filme vencedor do Oscar por Volker Schlöndorff em 1979, o protagonista Oskar Matzerath decide parar de crescer, aos 3 anos, para apenas tocar seu tambor.

Era um retrato do impasse, mas também da cruel infantilidade alemã, desconectada dos infortúnios implícitos na adoção do nazismo. E era literatura excepcional, com um toque daquela mágica que passou a ser agregada ao realismo, um uso da fantasia associado ao da bem encenada precisão factual. O Tambor foi acusado de pornografia na Alemanha e proibido nos países sob domínio soviético, o que equivale a dizer que os leitores de Gdansk, na Polônia, não puderam ler, à época, um romance ambientado ali.

Nos anos 1960 e 1970, os romances de Grass enfocaram a desilusão a pairar sobre a construção de uma nova sociedade alemã no pós-guerra. Enquanto escrevia, produzia discursos para Willy Brandt, o primeiro chanceler social-democrata do país, e encontrava tempo para denunciar, por exemplo, a indústria de armamentos alemã ou a “cumplicidade moral” dos católicos e luteranos com o nazismo. Foi contrário à unificação alemã, alegando que um país responsável pelo Holocausto não teria o direito de viver como uma nação só. Dizia-se “não um pessimista, mas um cético”.

Em 2012, escreveu um poema no qual condenou o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, por seus ataques ao Irã, esses que tornariam ainda mais frágil a possibilidade de uma paz mundial. Até oito dias antes de morrer, bebericou schnapps com seu editor, Gerhard Steidl, a quem detalhou os avanços de seu “experimento literário” a unir poesia e prosa. Este último livro, sem título divulgado, deverá sair na Alemanha no segundo semestre.