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Crônica do Villas

Fotografias

por Alberto Villas publicado 16/01/2014 09h41, última modificação 16/01/2014 11h55
Nos dias de hoje saímos fotografando tudo que encontramos pela frente. Mas não era assim. Por Alberto Villas
epSos.de / Flickr
fotografia

Antes da fotografia digital, comprávamos filmes da Kodak ou da Fuji de 12, 24 ou 36 poses

Assim que entrei no táxi em Ipanema, sentei-me ao lado do motorista e no meio do caminho para o aeroporto comecei a deletar fotos no meu iPhone. Ele perguntou:

- O senhor está apagando fotos? Minha filha também vive apagando fotos.

Respondi que sim, que eram duplicatas, fora de foco, repetidas, sem interesse. Foi assim que começamos um longo papo sobre fotografias até ele me deixar no aeroporto Santos Dumont.

Primeiro falamos do mundo que mudou, de quando comprávamos filmes da Kodak ou da Fuji de 12, 24 ou 36 poses. Falamos do tempo em que levávamos o filme para revelar e que as fotografias só ficavam prontas depois de cinco dias úteis. Falamos também da época das fotos em preto e branco e contei a ele a história da minha filha, ainda pequenininha, que perguntou ao ver o meu álbum de criança:

- Pai, quando você era pequeno o mundo era preto e branco?

Ele riu. Contei do meu tio Carlinhos, que tinha ojeriza a fotografias. Não se deixava fotografar por nada nesse mundo. Tenho três fotos dele em casa e acho que são as únicas que existem. A primeira é  ele ainda jovem e com cabelo, andando com minha tia Lili na avenida Afonso Pena, flagrado numa época em que fotógrafos ficavam na calçada clicando casais enamorados. A segunda, ele aparece tentando esconder o rosto, como naquelas fotos de celebridades escondendo-se dos paparazzi. A terceira, ele está sentado no sofá da casa do meu avô, pensativo, não percebeu que estava sendo fotografado.

Falamos da facilidade de se fotografar hoje em dia. Comentei com ele uma reportagem que li na revista do Globo contando histórias de pessoas pobres que não tinham sequer uma foto de quando eram crianças. Eram pessoas humildes que moravam no morro e que nunca tiveram uma câmera fotográfica. Hoje mudou. Falei da agonia que deve ser uma pessoa não saber como era quando criança, não fazer ideia de como eram as perninhas tortas e o rostinho infantil.

Falei que o meu pai era um fanático por fotografia, que vivia com uma câmera dependurada no pescoço e clicando. A mulher, os filhos, os netos, os vizinhos, os amigos, os colegas de trabalho, os cachorros, os parentes, inclusive o meu tio Carlinhos. Foi ai que o motorista revelou.

- Eu tenho muito poucas fotos de quando era criança, umas dez mais ou menos, que a minha mulher guarda numa caixa de sapatos bem guardadas. Tenho até medo daquilo mofar e se perder um dia.

E continuou:

- Eu nunca vi a imagem da minha mãe, não sei como ela era, fico apenas imaginando. Minha tia disse que eu sou muito parecido com ela.

Olhei para ele. O motorista era um senhor negro, forte, rosto redondo, que veio lá do Ceará. Chegamos ao aeroporto, paguei a corrida, desci do táxi e passei o voo inteiro até São Paulo imaginando como deveria ser a mãe daquele motorista de taxi. Negra? Forte? Rosto redondo?

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