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Flauta Mágica de Mozart, versão ópera-filme e com diálogos em sueco?

por Alexandre Freitas — publicado 19/07/2010 10h58, última modificação 19/07/2010 10h58
Parece que jamais chegamos a uma compreensão plena, total, das intenções do compositor e mesmo da narrativa da ópera

Não, obrigado. Minha resposta imediata. Desde muitos anos acho esse gênero meio sem lugar e, algumas vezes, piegas. Mesmo se a primeira ópera que vi na vida tenha sido uma versão filme (Barbeiro de Sevilha, com Plácido Domingo) e que eu tenha gostado.

Se refletisse um pouco mais, entretanto, talvez me lembrasse de que Ingmar Bergman havia dirigido uma versão da Flauta Mágica para a televisão. E ai, minha resposta seria diferente.
A essa versão de Bergman dedico a modesta coluna.

“Intimidade, sensualidade, contato!”, pede Bergman aos sexagenários da orquestra sueca. “Lembrem-se, não é o sentido moral que nos interessa, é o estético! Mozart estava a três meses de sua morte. Estava a flor da pele. É preciso que isso se sinta!” diz o diretor a todo elenco.

Não sei se chamaria a obra de ópera-filme. Talvez. O que vejo é um diretor tratando ópera como teatro e teatro como cinema. E daí as deliciosas tensões e incômodos que brotam da própria forma da obra.

O filme é gravado no palco de um teatro de ópera sueco do fim do século XVIII, similar aquele em que a Flauta Mágica teve sua estréia. Apesar de na maioria do tempo nos sentirmos no palco, pululam planos sobre pessoas que constituiriam o público. A cada novo rosto, a música parece parar e, no lugar de nos somarmos aos olhos desse público, parecemos observados por eles. Por olhares com expressões indecifráveis, mas comunicativas, como a própria essência musical. Ao mesmo tempo, as imagens do público se alternam conduzidas ora pelo ritmo, ora pela harmonia, ora pela dinâmica da música.

Parece que jamais chegamos a uma compreensão plena, total, das intenções do compositor e mesmo da narrativa da ópera. Algo de essencial parece escapar em várias passagens. Talvez tenha sido por isso que Frédéric Mitterrand, cineasta e atual ministro da cultura na França, diz nunca ter “entendido” a Flauta. Seria preciso conhecer códigos maçônicos ultra confidenciais, que Miterrand, a julgar pela declaração, não conhece.

Podemos, entretanto, fruí-la com intensidade. Não creio ser preciso entender de rituais secretos ou numerologia. Apesar da riqueza simbólica dessa obra, Mozart tinha uma pretensão de se comunicar com clareza. Seria um equívoco tachá-la como obra difícil, hermética.

“Esqueça as dificuldades técnicas. Pode esquecer até mesmo as palavras. Mas seja nobre e apaixonado. Você leva jeito, eu sinto”. Bergman sussurra mais ou menos isso, enquanto acaricia ternamente a nuca do tenor Joseph Kostlinger, o príncipe Tamino. O resultado é que sua suave presença cênica acaba compensando certos entraves vocais. Dessa maneira, os olhos consolam discretamente os ouvidos. A obra flui.

Fim do primeiro ato. Pausa de cinco minutos e a câmera passeia nos bastidores do teatro, onde a rainha da noite fuma um cigarrinho, o príncipe e a princesa jogam xadrez e o dragão, com jeito de monstro de série japonesa de antigamente, passeia tranquilamente no fundo da imagem.

Duas outras passagens são marcantes: a transfiguração da rainha da noite na sua famosa ária e a terceira provação do heróico casal. Nesta última, os dois caminham por entre demônios e fogo, em um estranho silêncio que só é rompido pelo som da flauta.

Texto, música, teatro, cinema, saga poética, códigos secretos, humor, moral, tudo elevado a máxima potência. Esse é o Mozart de Bergman.