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Filarmônica de Berlim lança selo fonográfico próprio

por Deutsche Welle publicado 10/06/2014 18h42
Com Schumann, orquestra alemã se lança no mercado com aposta em repertório tradicional e pacote multimídia
Divulgação
A Orquestra Filarmônica de Berlim, criada há 132 anos

A Orquestra Filarmônica de Berlim, criada há 132 anos

A Filarmônica de Berlim ostenta um alentado histórico de registros fonográficos, abarcando mais de cem anos. Após longa colaboração com a Deutsche Grammophon, a orquestra está lançando seu próprio selo: Berliner Philharmoniker Recordings.

O passo pode parecer temerário demais, considerando-se que o setor fonográfico, como um todo, vem atravessando uma longa crise, e que gravadoras estabelecidas registram vendas em declínio, sobretudo em comparação com os recordes alcançados por volta do ano 2000.

Contudo onde há vales há também picos. Em 2013, pela primeira vez em 15 anos, o mercado musical alemão contabilizou um aumento de faturamento, em grande parte graças às vendas e streaming de formatos digitais.

O primeiro lançamento do selo da casa, no fim de maio, foi a integral das sinfonias de Robert Schumann, sob a regência do maestro titular da Filarmônica, Simon Rattle.

Ele admite que o celebrado conjunto berlinense não escolheu necessariamente as obras mais populares do repertório para abrir o seu catálogo. "As sinfonias de Schumann nunca foram consideradas candidatas certas a best-seller. Mas para nós, da Filarmônica, essa música está mais perto do nosso coração do que muitas outras", justifica.

"Por isso, para nós é maravilhoso lançar nosso novo selo com Schumann. Achamos que essas gravações são algo de especial, e que temos uma abordagem muito própria dessas fantásticas peças. Tomara que este seja, realmente, o início de uma nova onda de gravações produzidas por orquestras", anunciou o entusiástico regente inglês num vídeo de divulgação da Filarmônica.

Outras orquestras já tomaram essa iniciativa alguns anos atrás: a marca LSO Live, da Orquestra Sinfônica de Londres, opera desde 2000. Quatro anos mais tarde a venerável Royal Concertgebouw Orchestra de Amsterdã lançou o RCO Live. E a Sinfônica de Viena mantém há dois anos seu selo, o Wiener Symphoniker.

Mas neste meio tempo, a Filarmônica de Berlim tampouco tem negligenciado as tendências do setor da música erudita. Seis anos atrás, ela criou a plataforma de vídeo online Digital Concert Hall, cujos usuários de todo o mundo têm acesso a seus concertos, em qualquer dispositivo, por streaming ou on demand.

A orquestra também investiu no salto para as telas de cinema da Europa, com uma série ao vivo que abre seu palco aos fãs, em salas de exibição selecionadas.

Pacote multimídia completo

De certo modo, lançar a própria gravadora foi um avanço natural na evolução da instituição, que desde a década de 1960 possui sua sala própria no coração de Berlim. Olaf Maninger, violoncelista-solo e diretor gerente da firma Berlin Phil Media, revela que esse passo já vinha sendo preparado há dez anos.

"Depois do Digital Concert Hall, acho que o selo fonográfico é a única possibilidade para divulgarmos o nosso repertório de música clássica e a nossa opinião artística. A fundação da Berliner Philharmoniker Recordings representa um novo capítulo em nossa história multimídia. Agora estamos aptos a controlar a seleção do nosso repertório, as características do produto e o marketing." Além disso, distribuição e vendas também são centralizadas.

Para as quatro sinfonias de Schumann, a ideia foi se afastar do modelo tradicional de comercialização de música, propondo um produto multimídia completo. A luxuosa embalagem, com capa dura de tecido, contém o ciclo não só em dois CDs, como em blu-ray e em vídeo de alta definição, ao preço de 49,90 euros.

Os extras incluem vídeos dos bastidores e um livreto com o histórico dos laços tradicionais entre a orquestra berlinense e as sinfonias de Schumann. O pacote vem, ainda, acompanhado de um código que concede sete dias de acesso grátis à plataforma Digital Concert Hall. Será também lançada uma versão em vinil.

Um olho na história, outro no mercado

"Nós não achamos que podemos trazer de volta, com o nosso selo, a época de ouro das vendas de LPs e CDs", sublinha Tobias Möller, diretor de marketing e comunicação. "No entanto, fazer gravações tem sido sempre parte da Filarmônica de Berlim."

Até há pouco, seus lançamentos estavam a cargo da mais prestigiosa companhia fonográfica de música erudita do mundo, a Deutsche Grammophon. No ano passado, ela lançou uma "edição centenária", contendo registros do conjunto orquestral realizados entre 1913 e 2013.

A Sony entrou no barco em 1981, quando o então regente titular da Filarmônica, Herbert von Karajan, abraçou a causa dos compact discs, juntamente com Akio Morita, presidente da multinacional japonesa.

Agora cabe ver como os fãs da música clássica reagirão ao lançamento inaugural do selo Berliner Philharmoniker, nas próximas semanas. "Esperamos que seja um sucesso. Mas ao mesmo tempo mantemos uma visão realista do ramo fonográfico", ressalva Möller.

Aposta no prestígio da tradição

O futuro da indústria musical e seus recursos para assegurar o faturamento são grandes questões da atualidade, tanto para os músicos quanto para as gravadoras. "Os principais selos parecem estar mudando de forma e perfil, até mesmo de nomes, a cada semana", comenta Rattle.

Com as sinfonias schumannianas, a orquestra estabelece a filosofia de gravar sempre obras que lhe são próximas e caras. Os próximos lançamentos incluem a Paixão segundo São João, de Johann Sebastian Bach, regida por Rattle e encenada pelo diretor americano Peter Sellars; e um ciclo completo das sinfonias de Franz Schubert, sob a batuta do austríaco Nikolaus Harnoncourt.

Apesar de todas as incertezas relacionadas ao novo empreendimento, Thomas Möller está seguro de que o selo se provará uma fonte confiável de lucro. Graças ao prestígio global do conjunto, que conta 132 anos de existência, o Berliner Philharmoniker Recordings provavelmente não precisará de um grande orçamento de marketing para estabelecer seu nome.

"Através de nossas atividades online, temos contato direto com uma gigantesca comunidade de melômanos e de amigos fiéis da Filarmônica de Berlim. Portanto quase não há necessidade de investirmos em distribuidores e varejistas. Pelo ponto de vista econômico, esse é um dos aspectos mais interessantes de termos o nosso próprio selo", aposta o diretor de marketing.

  • Autoria Melanie Sevcenko / Augusto Valente
  • Edição Roselaine Wandscheer