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Ficção científica otimista no século XXI: uma tarefa difícil

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 22/11/2011 16h41, última modificação 22/11/2011 17h07
Desde meados dos anos 1960, a ficção científica literária, influenciada pelo terror da guerra nuclear e pelas críticas da contracultura ao status quo, passou a ironizar o ingênuo otimismo das gerações anteriores
shine

A antologia Shine, publicada pela editora britânica Solaris Books (416 páginas, disponível na Livraria Cultura em inglês por R$ 19,80 como livro de bolso e R$ 12,79 como e-book).

A ficção científica deveria ser mais otimista? Foi com base nessa premissa que Jetse de Vries, editor e escritor de ficção científica holandês, propôs a antologia Shine, publicada pela editora britânica Solaris Books (416 páginas, disponível na Livraria Culturaem inglês por R$ 19,80 como livro de bolso e R$ 12,79 como e-book).

Ativo no Twitter como @Shineanthology, De Vries tem-se queixado do pessimismo da ficção científica contemporânea e em 2 de agosto propôs o seguinte desafio ao seus mil, trezentos e tantos seguidores: “a qualquer um que me aponte dez romances otimistas de ficção científica e fantasia publicados em 2011, pago tudo o que puder beber por uma noite na WorldCon (a convenção mundial de ficção científica), ou outra convenção à qual eu vá”. Com duas restrições: “não valem romances pós-apocalípticos nos quais 99,99% da humanidade morre e 0,01% prospera”, nem “romances ligados a séries como Star Trek e Star Wars: romances em universos originais descrevendo um futuro otimista no qual as coisas sejam melhores do que hoje”. Ninguém reivindicou o prêmio e ele se queixou: “agora, se eu fizesse a mesma aposta com 10 romances nos quais o futuro seja pior do que hoje, eu teria de arranjar um monte de dinheiro extra. Todo mundo ficaria bêbado”.

Este resenhista não tem conhecimento tão completo do cenário da ficção científica internacional para garantir se realmente não há sequer dez romances nessas condições em 2011, mas é provável que @Shineanthology esteja certo.

Os romances utópicos foram comuns nos primórdios da ficção científica –Platão e Thomas Morus, de certa forma, estão entre os precursores do gênero – e as space operas ambientadas em futuros de “vida longa e prosperidade”, como diria Spock, foram a cara da ficção científica durante a chamada “era de ouro” do gênero, dos anos 1930 ao início dos 1960.

Desde meados dos anos 1960, porém, a ficção científica literária, influenciada pelo terror da guerra nuclear e pelas críticas da contracultura ao status quo, passou a ironizar o ingênuo otimismo das gerações anteriores em relação ao futuro e trouxe a chamada New Wave, ou Nova Onda, que passou a enfatizar os conflitos e contradições do progresso, a degradação do ambiente e o vazio espiritual do consumismo. E a ficção científica dos anos 1980 em diante, sob a influência das crises econômicas, da destruição do ambiente e dos retrocessos sociais da era neoliberal, passou a soar cada vez mais pessimista ou, pior ainda, cinicamente indiferente a um futuro de desintegração política e social. É a marca das gerações cyberpunk e pós-ciberpunk e de cenários como os de Neuromancer de William Gibson e Nevasca.

O otimismo da velha space opera sobreviveu em séries populares como “Jornada nas Estrelas”, mas entre a série original dos anos 60 e as renovações que teve desde os anos 80, seu caráter se tornou cada vez mais nostálgico. A crença em um futuro de progresso contínuo e conquistas espaciais sem fim, natural para as gerações anteriores, hoje diverte espectadores mais céticos como mais uma fantasia retrô, com o mesmo encanto infantil de um épico de fantasia medieval, uma aventura steampunk ou um filme de super-heróis.

Ante esse cenário, Jetse de Vries quis nadar contra a corrente, tentando promover uma ficção científica esperançosa e razoavelmente realista, voltada para a solução de problemas reais e atuais no futuro próximo, com recursos compatíveis com o que hoje é tido como tecnologicamente viável. Não se espera de um escritor as respostas que faltam hoje a engenheiros, cientistas e políticos, é claro, mas que estimule os leitores a superar a indiferença e o conformismo e se interessar por novas possibilidades técnicas e sociais.

Nesta antologia, não se esperem milagres com verniz científico como teletransporte, viagens interestelares, antigravidade e energia tirada do nada. Foram explicitamente excluídas as “fuga para a frente”, nas quais um grupo foge da Terra e de seus problemas criando uma utopia no espaço e soluções “deus ex machina”, ou seja invenções mirabolantes de gênios solitários e intervenções salvadoras de alienígenas, viajantes do tempo e super-heróis.

Sem entrar no mérito literário dos textos, a coletânea foi bem sucedida em seus objetivos? Em termos. Vê-se, no fundo, um certo conservadorismo na maioria dos 16 contos, selecionados entre mais de cem submissões. Em muitos deles, percebe-se não tanto a aspiração por um futuro diferente e melhor quanto por uma volta a uma versão idealizada do passado. O que talvez se explique pelo fato de que, salvo por um conto de 2006, todos foram escritos em 2009, sob o impacto da crise dos países ricos e, apesar das pretensões universalistas do organizador, quase todos cresceram e vivem nessa realidade.

Como conta o organizador no blog http://shineanthology.wordpress.com/, no qual deu diretrizes e descreveu o andamento da coletânea até sua publicação e recepção, em certo momento tinha recebido 103 submissões, das quais 77 eram ambientadas na América do Norte ou Europa (incluindo 54 nos EUA), 18 no espaço, 2em mundos imaginários. Apenas 6 tinham seus cenários no resto do planeta – que, vale lembrar, inclui mais de 80% da humanidade real.

De Vries pressionou os autores a usar mais cenários não-ocidentais e conseguiu um resultado final geograficamente um pouco mais equilibrado do ponto de vista da ambientação. Infelizmente, não bastou. Muitas vezes, o resultado soou superficial e paternalista, mostrando os problemas do resto do mundo através das preocupações e preconceitos da cobertura midiática anglo-americana.  Apesar de o organizador dizer que veria com bons olhos submissões vindas de autores “não ocidentais”, nenhum corresponde a esse critério e apenas quatro dos 17 autores (um dos textos foi escrito a quatro mãos) têm nomes que não são anglo-saxões: o israelense Lavie Thidar, a francesa Aliette de Bodard, a mexicana (vivendo no Canadá) Silvia Moreno-Garcia e o brasileiro (pernambucano) Jacques Barcia.

Não houve mais por uma de qualidade ou de preconceito cultural, apesar de tudo, do organizador? O fato é que os dois latino-americanos respondem por contos dos mais interessantes e que mais se aproximam dos objetivos declarados da antologia, ao passo que a maioria dos demais contos promove tecnologias que resolvem os problemas “num passe de mágica” (como sugere a capa do livro), ignorando a complexidade das lutas sociais e políticas por trás da maioria deles, ou aborda a proposta de “ficção otimista” com clara ironia.

Segue aqui uma breve apreciação de cada conto. Como a antologia tem poucas chances de ser traduzida e editada no Brasil e não há como tratar as questões em pauta sem aludir ao enredo, cabe avisar que esta resenha não se esforçou por evitar “spoilers”, ou seja, revelações antecipadas sobre a trama.

The Earth of Yunhe (A Terra de Yunhe), do escritor estadunidense Eric Gregory, o primeiro da antologia e o favorito de muitos dos resenhistas internacionais, é sobre uma comunidade chinesa (Yunhe é um município real da província de Zhejiang, a cerca de500 quilômetros de Xangai) que foi obrigada a viver precariamente numa cidade flutuante devido à destruição do solo pela mineração de carvão. A protagonista é uma engenheira filha do líder, um velho autoritário e hostil a dissidências. Acontece que o irmão dela abandona a comunidade para participar de uma organização internacional chamada “Ecclesia” e depois retorna dizendo ter uma solução radical para os problemas de seu povo. É preso, mas a irmã, depois de repreendê-lo, vem a entender sua ideia e o ajuda a difundi-la para os demais moradores, pela internet móvel. O povo se levanta em sua defesa e o pai, depois de fracassar na tentativa de reprimi-los, tenta o suicídio, mas oportunamente desmaia.

Apesar do caráter esquemático do conflito, o conto evita ser maniqueísta. É possível compreender o ponto de vista do pai da protagonista como um líder que não está apenas defendendo seu poder e privilégios, mas sinceramente acredita fazer o necessário para a sobrevivência do povo. E a “Ecclesia” não é apenas uma angelical ONG do Ocidente, mas um poder com sua própria agenda: ela descobre uma solução, mas quer retê-la para conseguir vantagens monetárias e políticas e o filho do líder precisa traí-la para salvar seu povo. A trama se torna simplória, porém, ao presumir que uma proposta tecnicamente complexa, que as autoridades se recusaram a considerar, poderia ser tão rapidamente compreendida e apoiada por populares. É um eco da fé ingênua do ciber-utopismo dos anos 90 na mera difusão mecânica da informação, que não compreende a necessidade de esta ser assimilada, criticada e interpretada para ter um efeito (além de subestimar a eficiência da censura e da ideologia).

Além disso, a solução – transformação do solo destruído em jardins luxuriantes pela nanotecnologia – é um “deus ex machina”. Não é invenção de um gênio solitário e sim resultado do vazamento de um vasto trabalho de pesquisa, mas resolve como um deus onipotente todos os problemas de conforto, ambiente e energia, sem esforço, custo ou efeitos colaterais negativos. Basta, literalmente, ter fé no milagre para ser salvo. Será isso realista?

The Greenman Watches the Black Bar Go Up, Up, Up (O guerrilheiro verde olha a barra preta subir, subir, subir) é do autor pernambucano Jacques Barcia. Ao introduzir esse conto, o organizador explica: “no momento em que Shine foi anunciada, recebi mensagens entusiásticas não só do mundo ocidental – embora, não me entendam mal, essas também foram muito bem-vindas – mas uma boa parte delas do mundo em geral. Por alguma razão incompreensível, houve um bocado de encorajamentos das Filipinas e do Brasil. Infelizmente, ainda que eu tenha conseguido algumas boas submissões das Filipinas, nenhuma delas chegou à seleção, embora algumas tenham chegado perto. Culpe o seu editor. Da mesma forma, consegui várias do Brasil e apesar de ter precisado deixar várias de lado, estou muito feliz de publicar esta”. Ficamos assim sabendo que, para Jetse de Vries, o Brasil não é parte do “Ocidente”.

O conto é ambientado num Recife do futuro, protegido por diques do nível do mar elevado pelo aquecimento global, mas relativamente próspero. Além de ser viúvo de um casamento homossexual, o protagonista é um vitorioso ex-guerrilheiro ambientalista (o sentido de “greenman” nesse contexto) que é contratado por um bem-intencionado grupo de investidores adolescentes para investigar uma trading de créditos de carbono lucrativa, mas suspeita. Depois de breve investigação, descobre o fantasma do marido morto na forma de um programa de computador. Resulta que a empresa de fato faz uma manipulação fraudulenta de créditos de carbono, mas por trás disso toca um projeto muito mais ambicioso de conquistar a imortalidade por esse meio que poderia criar um mundo “perfeito”, mas implica num consumo absurdo de energia. O investigador aconselha seus clientes a manter o projeto fora do mercado até que seus problemas sejam resolvidos.

Nada de soluções e julgamentos fáceis: o protagonista é um herói, mas também um veterano ecoterrorista, presumivelmente com mortes nas costas. Aponta os riscos de manipulação do mercado de créditos de carbono, no qual muitos ambientalistas parecem ter uma fé ingênua. E os antagonistas, embora cometam fraudes e encubram um projeto perigoso, também representam uma oportunidade de superação, sem que nada seja de graça, nem inteiramente garantido. Segundo o próprio organizador, é o conto mais de acordo com as intenções da antologia. O ponto fraco é o mistério ser resolvido de maneira demasiado simples, com pouco suspense. De outra forma, teria sido uma boa história de detetive e não só uma especulação interessante.

Overhead (Despesas administrativas), do empresário estadunidense Jason Stoddard, é, pelo contrário, a que mais se afasta do projeto Shine. Neste conto, uma colônia secreta na Lua é financiada com recursos secretamente desviados por um executivo idealista de uma vasta transnacional. Ao longo da história, a economia da Terra entra em colapso e as grandes corporações lhe impõem um governo totalitário. O executivo se suicida quando seu desfalque é descoberto e a colônia da Lua, organizada em linhas libertárias, é atacada por um míssil nuclear. Sobreviverá incógnita, é claro, para prosperar e perseguir seu sonho de enviar uma missão tripulada à lua Europa de Júpiter, onde espera encontrar vida alienígena. É um caso típico de “fuga para a frente”, como diz De Vries, que segue o modelo das utopias espaciais libertarian que foram populares nos anos 90, embora neste caso com um certo viés de esquerda liberal. Por que foi aceita? Ao se ler os efusivos agradecimentos do organizador à generosidade de Stoddard ao introduzir o conto, é-se levado a concluir que tratou de pagar favores. Não é um texto mal escrito, mas contraria o espírito da antologia.

Summer Ice (Gelo no verão), da escritora canadense Holly Phillips, é o único conto não escrito especialmente para a antologia: fora publicado em 2006 na Fantasy Magazine. O que é muito curioso, pois é um conto muito realista sobre uma artista em alguma cidade da América do Norte após uma grave crise climática e trata de buscar sua felicidade pela adaptação conformada à situação e o cultivo de laços de solidariedade e amizade com os vizinhos e a comunidade. Dá aulas, ajuda a cultivar a horta do prédio, circula de ônibus elétrico, sonha com os invernos com neve do passado ao tomar sorvete – o grande luxo do seu dia – e participa de um mutirão para recuperar a abandonada praça da cidade. O conto é literariamente bom, mas perde grande parte de seu impacto para um leitor do Hemisfério Sul, pois a vida pós-apocalíptica da protagonista é o dia-a-dia de muitos moradores de subúrbios latino-americanos. O otimismo está em garantir que é possível buscar a felicidade na crise e na relativa pobreza, o que a maioria das pessoas deste lado do Equador sabe por experiência própria.

Sustainable Development (Desenvolvimento sustentável), de Paula R. Stiles, editora, autora, historiadora e ex-voluntária do Peace Corps, é um conto curto e sem encantos. Uma cidadezinha do interior do Camarões recebe robôs para ajudar no trabalho, mas a voluntária de alguma agência internacional observa que os homens, preguiçosos, não sabem usá-los. Vai embora, volta algum tempo depois e vê que as mulheres da aldeia encontraram uso para os robôs, fazendo-os pilar mandioca. Fim da história, cujo único interesse está na brevíssima descrição do cenário e da vida na aldeia.

The Church of Accelerated Redemption (A Igreja da Redenção Acelerada), obra a quatro mãos do escritor inglês Gareth L. Powell e da engenheira francesa Aliette de Bodard, é uma história criativa e movimentada. Uma programadora terceirizada é contratada para serviços de manutenção em computadores avançados programados para rezar, a uma velocidade alucinante, pela salvação dos fiéis que contribuem financeiramente para a igreja do título, localizada em Paris. O prédio é cercado por um protesto contra a escravidão das inteligências artificiais e é atraída por um dos manifestantes, que vê através da porta de vidro. Verifica o lugar e a data da próxima manifestação e trata de abordar o rapaz misterioso, que então revela ser ele mesmo uma inteligência artificial. Quando criança, teve a cabeça esmagada por um trem e o cérebro em grande parte substituído por circuitos eletrônicos.

Apesar de ele ser incapaz de amar como um humano, ela resolve ajudá-lo assim mesmo. Juntos, “libertam” os programas utilizados pela igreja e os transmitem a uma instalação secreta, onde inteligências artificiais “foragidas” trabalham para resolver os catastróficos problemas ambientais criados pela humanidade e assim demonstrar seu direito à liberdade. No conjunto, chega a ser instigante, apesar de abusar do inverossímil (não só na origem do rapaz-computador, como no comportamento da programadora, cujos sentimentos pelo parceiro estranho e insensível são improváveis e ficam inexplicados) e recorrer à uma solução literalmente “ex machina” para resolver os problemas da humanidade, o que não ajuda muito a inspirar a busca de respostas reais.

The Solnet Ascendancy (A Ascendência Solnet), do israelense Lavie Tidhar ganha, porém, a palma de conto mais inverossímil da coletânea. Um voluntário australiano de uma ONG, de passagem em Sola, povoação de uma ilha isolada do norte do arquipélago de Vanuatu onde nenhuma ajuda internacional surte efeito, sugere a um funcionário local como instalar uma pequena rede de internet sem fio – The Sola Wireless Network Initiative, ou Solnet – para facilitar a vida da administração e das escolas locais.

Sem mais nem menos, a ilha de poucos milhares de habitantes, sem conhecimento do mundo exterior, faz sua própria revolução tecnológica e cria invenções além da imaginação. Entre outras, corais orgânicos que funcionam como computadores e um elevador espacial bem inverossímil, pois sua construção seria inimaginável sem uma formidável base industrial e de lançamento de foguetes e seria óbvia para o mundo. Termina anos depois com o voluntário boquiaberto ao retornar, a Sola e ser convidado pelo governo local a atuar no sentido contrário, vendendo as novas tecnologias da ilha aos atrasados australianos. É uma involuntária redução ao absurdo das fantasias do ciber-utopismo libertarian dos anos 1990, que incluem o desprezo pela assistência social e a crença de que basta liberar e promover a livre iniciativa na internet para resolver todos os problemas sem consequências negativas e impulsionar o progresso à “singularidade”, na qual inteligências artificiais o acelerariam ao infinito. Era de se esperar que em 2010, depois de vinte anos de convivência com a tediosa mediocridade comercial da internet e o caos da economia desregulada, tais ingenuidades já não fossem repetidas.

Twittering the Stars (Tuitando as estrelas), da escritora estadunidense Mari Ness, tem um formato original: é escrito como uma série de mensagens de uma bióloga que acessa o Twitter enquanto participa de uma expedição de mineração a um asteroide. Como no histórico do microblog, as mensagens aparecem em ordem cronológica inversa: fica a critério do leitor ler na ordem em que aparecem impressas ou começar do “final” e seguir uma ordem cronológica linear. A segunda opção parece melhor, pois o formato é a única ousadia do conto, que de resto é uma história de aventura espacial bem convencional, com cenas de suspense que perdem o sentido quando se sabe desde o começo quem sobrevive e quem morre.

A combinação de especulação científica-tecnológica, ação e aventura sentimental é bem equilibrada, mas o fulcro do enredo é pouco verossímil. Primeiro, os tripulantes inexplicavelmente descobrem não ter combustível suficiente para retornar à Terra – coisa muito improvável, dado o rigor e as margens de segurança com que tais preparações são feitas. Segundo, ao buscarem combustível de outra nave que os socorre, um dos astronautas não só é ferido por um fragmento de cometa – o que eleva a improbabilidade ao quadrado – como contaminado por um misterioso micróbio alienígena, improvável ao cubo. Faria sentido num episódio de “Jornada nas Estrelas”, não num conto de ficção científica hard. Quanto ao “otimismo” e à “solução de problemas reais” supostamente essenciais à proposta da antologia, aparecem apenas perifericamente, na medida em que a mineração do asteroide permite abastecer baterias de carros elétricos na Terra.

Seeds (Sementes) de Silvia Moreno-Garcia, mexicana residente no Canadá, é um texto breve que cai muito bem ao leitor já entediado com os excessos de boas intenções e de soluções milagrosas e sem conflitos. Se tem um conto com dentes e garras, é este. Com a conivência dos governos locais, uma empresa de biotecnologia chamada Germingen (leia-se Monsanto) monopolizou a cultura do milho no México com a venda casada com um herbicida chamado Germingrow (leia-se Roundup®) com sementes transgênicas “terminator”, cuja reprodução está sob seu estrito controle e pode ser congelada a qualquer momento se o contrato não for renovado pelo cliente. Acontece que o representante da empresa é chamado a atender a um freguês de Oaxaca que diz ter um problema.

O apressado executivo perde a paciência enquanto o caipira estica muitos dedos de prosa sobre cultura mexicana e a história do milho, até revelar o problema: o fungo huitlacoche, conhecido (e apreciado) desde o tempo dos astecas, devastou a roça de Germingen. Como as sementes são todas geneticamente idênticas, isso significa um risco de rápida destruição do negócio mundial da empresa. Em pânico, o funcionário diz que a plantação será bombardeada (com napalm, parece) e o cliente indenizado, mas o camponês lhe explica que é tarde demais: seus amigos já cuidaram de espalhar as sementes contaminadas por todo o México. “¡Maiz y Libertad!” (Milho e liberdade!), proclama o indígena, um lema dos camponeses mexicanos em luta contra a expulsão do campo e a abertura do mercado ao milho estadunidense desde a adesão do México ao Nafta.

At Budokan (No Budokan, referindo-se a uma famosa casa de espetáculos de Tóquio), do escritor britânico de ficção científica Alastair Reynolds, é um dos contos mais criativos e divertidos enquanto ficção científica, mas pouco tem a ver com a proposta da antologia. Um astro do heavy metal fez sucesso com um espetáculo que usa cadáveres animados por computadores para dançarem como zumbis (tudo devidamente legalizado). O público se cansa da novidade e ele se vê em problemas ao tentar um show com robôs gigantes que fogem do controle, com os resultados que se pode imaginar. Enquanto tenta se esconder até que esqueçam a catástrofe, é convidado por um ex-sócio a participar de um novo projeto, ainda mais espetacular. Num galpão secreto, lhe é revelado o segredo: o ex-parceiro, em trabalho conjunto com uma empresa de biotecnologia, que já se popularizara recriando dinossauros para oferecer um novo prato aos gourmets, criou um tiranossauro guitarrista, nada menos. O negócio é bem-sucedido, mas depois de algumas apresentações o tiranossauro começa a improvisar, demonstrando inteligência e criando o risco de que ativistas dos direitos animais reivindiquem sua libertação. O metaleiro comemora essa demonstração de vitalidade do rock, mas falta senso de ironia a quem quer que julgue o conto aponta para alternativas otimistas.

Sarging Rasmussen: a Report by Organic (Xavecando Rasmussen: um relatório por Organic), do canadense Gord Sellar, cai na mesma categoria: divertido, sarcástico, mas sem a menor pretensão de explorar saídas otimistas com seriedade. Um ambientalista entra no movimento com a esperança de conquistar garotas ativistas, mas ao constatar que elas não se interessam por rapazes feministas, sensíveis e engajados na luta ambiental, inscreve-se num programa de treinamento de PUAs (“pick-up artists”, “artistas da paquera”) para aprender a ser um macho conquistador com técnicas “científicas” de cantada baseadasem psicologia evolucionista. Mais cheio de siglas e sub-rotinas do que um manual de linguagem Java, essa teoria soa como uma fantasia geek – encontrar os códigos secretos da programação genética humana para vencer o jogo (sexual) – mas por incrível que pareça, tais programas existem e são vendidos no mundo real (confira-se, por exemplo, o site pualingo.com).

Não fica só nisso: retornando a seus ideais, o ex-militante resolve pôr suas novas habilidades a serviço da causa ambiental. Aperfeiçoa-se uma versão “2.0”do jogo, voltada não só para cantar garotas, como para fazer amigos e influenciar pessoas (principalmente políticos e funcionários da ONU) com as mesmas técnicas pseudo-darwinistas, em nome da causa ambiental. Curioso que não ocorra ao personagem que tal manipulação da “natureza humana”, se funcionasse, seria mais uma forma de degradar o ambiente e seria usada com muito mais naturalidade por seus inimigos. Se fosse para levar a sério, seria o caso de observar que se trataria de mais uma saída “mágica”, que busca soluções para os problemas em se aderir ao sistema e à ideologia dominante, em vez de mudar comportamentos e procurar alternativas.

Scheherazade Cast in Starlight (Xerazade forjada na luz das estrelas) é um miniconto de Jason Andrew, um autor estadunidense de livros técnicos. Uma iraniana cujo irmão foi morto na repressão dos protestos contra a eleição de Mahmoud Ahmadinejad divulga na internet vídeos de denúncia contra o regime em nome da globalização. O povo se revolta e o Irã magicamente se transforma numa democracia liberal. Outra demonstração de ingênuo ciber-utopismo, agravada pela incompreensão dos conflitos do Oriente Médio e de suas divisões sociais e culturais. Tão profunda, apesar da retórica liberal-democrática, quanto a dos assessores de Bush júnior ao acreditar piamente que a invasão seria recebida com flores pelos iraquianos e transformaria o paísem um novo Chile, na vitrine do capitalismo global no mundo árabe.

Russian Roulette 2020 (Roleta russa 2020), de Eva Maria Chapman, uma professora e escritora que vive na Inglaterra. Nascida em Praga (atual República Tcheca), acompanhou a família em sua fuga do stalinismo aos três anos, em 1950. É um conto inábil, ingênuo, amador no amor por clichês e no descaso pela consistência. Num futuro próximo de degradação ambiental, crise e brutal concentração de renda, um grupo de colegiais privilegiados que vivem nos EUA (incluindo uma brasileira cujos pais fugiram das “revoltas de famintos no Rio de Janeiro” para a Califórnia e se chama, acreditem, “Enrita”) ganha uma viagem de formatura à Rússia. São jovens doentios, atrofiados e profundamente viciados em redes sociais, jogos online e pornografia na internet, das quais não querem se desligar nem por um momento, mas são forçados a fazê-lo ao se hospedar numa escola experimental.

Ali são transformados pelo contato com jovens puros, que aderem a uma ideologia mística, ecológica, anticonsumista e puritana que “emergiu da taiga” e é combatida pela Igreja Ortodoxa Russa. O protagonista estadunidense, mas descendente de russos, se apaixona por uma jovem e bela russa, que adora nadar e dar cambalhotas nua na floresta, mas recusa até um beijo porque “só misturará secreções com o pai de seus filhos”, que condena a revolução russa do século XX, mas vive na eterna alegria de trabalhar na construção de uma utopia coletiva, exatamente como uma camponesa de “realismo socialista”, sem mais profundidade do que a tinta de um cartaz de propaganda stalinista. E seguindo o mais batido dos clichês, o protagonista estadunidense finalmente ganha seu beijinho ao ajudar a moça a enfrentar terroristas ortodoxos.

Castoff World (Mundo descartado), da escritora estadunidense Kay Kenyon, é um conto aflitivo sobre uma menina pequena cuja família fugiu do colapso econômico e ambiental dos EUA para uma ilha de lixo flutuante no meio do Pacífico, um agregado mantido e progressivamente transformado por nanorrobôs que processam plásticos descartados para convertê-los em algo menos danoso para o ambiente. A criança sobrevive à morte da mãe, do pai e do avô para lutar sozinha pela vida e proteger-se de piratas que ocasionalmente invadem a ilha em busca de algo para saquear. Os nanorrobôs gradualmente desenvolvem uma espécie de consciência e compadecendo-se da menina, põem a ilha em movimento até a costa da América do Norte, onde a criança é recolhida por moradores que retornaram a uma vida simples e primitiva. É uma história emocionante e bem escrita, mas que dificilmente se enquadra no manifesto otimista da antologia.

Paul Kishosha’s children (As crianças de Paul Kishosha), do geólogo (ou melhor, areólogo, especialista em Marte) da NASA Ken Edgett, conta a história de um cientista tanzaniano cuja mãe, no leito de morte, lhe pede que abandone sua carreira na NASA, fique na Tanzânia e ajude seu país. Ele obedece e tenta fazer sua parte dando aulas de ciência a crianças africanas. Supera o desinteresse inicial delas recuperando um personagem “marciano” que inventara para uma redação dos tempos de escola. Faz desenhos animados com ele, primeiro para o YouTube e depois para a televisão, que se tornam um grande sucesso. Vinte anos depois, inspirados por “Joe the Martian”, milhões de crianças africanas buscaram carreiras científicas, a Tanzânia se tornou líder mundial em tecnologia, astronautas tanzanianos voltam de Marte e o país constrói o primeiro elevador espacial. Com menos exageros, seria uma boa história, mas fazer um “Castelo Ra-tim-bum” ou “Mundo de Beakman” africano causar por si só tamanha revolução tecnológica torna esse conto um dos menos verossímeis da antologia. Mesmo que se conseguisse motivar tantas crianças tanzanianas a se tornarem engenheiros e cientistas, como lhes dar educação superior, empregos e investimentos no próprio país?

Ishin (Ishin, palavra japonesa que significa “renovação”) da professora e escritora estadunidense (vivendo no Canadá) Madeline Ashby, aborda uma dupla que trabalha no Afeganistão para os serviços secretos dos EUA, desenvolvendo o sistema de contra-insurgência Ishin, que inclui microcâmeras transportadas por robôs aéreos do tamanho de uma libélula. Eles gostariam de convencer os militares de que o sistema deveria ser usado não apenas para combater guerrilheiros e narcotraficantes, mas também para monitorar a necessidade de irrigação e fertilizantes em fazendas, a pressão da água e do petróleo nos dutos e assim por diante para prevenir a fome e as revoltas. Mais uma vez, um conto bem-intencionado falha em entender as realidades em campo. Enquanto os burocratas do exército folheiam seus relatórios, o protagonista pensa: “Papel. Não admira que estejamos perdendo”. “Não, Ms. Ashby”, dá vontade de responder, “não é por usar papel em vez de tablets que os EUA estão perdendo essa guerra e sim por tentar impor unilateralmente seus interesses sem oferecer nadaem troca”. Mas a autora parece acreditar sinceramente que o Pentágono está lá para defender os direitos das mulheres.

O protagonista e o parceiro parecem ter uma relação homossexual, mas ao contrário do que acontece no conto de Jacques Barcia, ela permanece implícita, o que deixa a incômoda sensação de que a escritora se envergonha do “segredo sujo”. Mas a alta tecnologia é driblada pelo Talebã, o parceiro é morto num atentado e o protagonista o vinga comandando seus “predadores” (robôs aéreos) num massacre selvagem de guerrilheiros. No final, aparece entrevistando uma recruta, mais pessoal para seu projeto. Uma história bem contada, mas que compreende mal o problema que procura resolver.