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Férias a Salazar

por Eduarda Freitas — publicado 29/07/2010 17h42, última modificação 29/07/2010 17h42
Há 40 anos o ditador português Antônio Salazar saiu da vida para entrar para história

Há 40 anos o ditador português Antônio Salazar saiu da vida para entrar para história

António de Oliveira Salazar, o homem que governou Portugal durante mais de três décadas, morreu há 40 anos.
Para grande parte dos portugueses Salazar continua a ser um ditador…por isso a escolha de “ O Maior português de sempre” num concurso organizado pela televisão portuguesa, em 2007, deixou surpreendido o país e levou a que as opiniões se extremassem.
Longe das polêmicas, fica o relato de uma viagem a caminho de Milão…com Salazar…

Férias…a Salazar.

Levo preso nos dedos um livro. E em mim dois olhos enrugados.
Uma velhota olha-me. Eu olho para ela. Ela continua a olhar, eu desvio os olhos, ela sorri, eu olho outra vez, ela continua, eu não. A senhora antecipa-se ao meu ar de enfadada. “O livro … o livro que leva nas mãos…”. Vou sentada no céu que quase chega a Milão. Eu, comigo. Ela com mais dez amigas, antigas colegas, professoras reformadas, prontas para desembarcar num país que tão bem conhecem dos livros de História. “O livro…”, volta ela a repetir com os olhos pequeninos por detrás dos óculos. Ah! O livro. “Deixe-me ler o título todo, por favor, é que só consigo ler metade…só consigo ler Salazar…”, diz. Afasto as mãos tão rapidamente que quase deixo o livro cair. Férias com Salazar. O titulo. Vejo-lhe nos olhos um tom de água, sinto-lhe um suspiro triste. “Eu já li esse livro há muitos anos, menina. Depois emprestei-o e nunca mais regressou. Já andei à procura dele mas não o encontro nas livrarias”. Explico-lhe que também eu o procurei, que tive, inclusive, que o encomendar à editora. A senhora vai-me acenando que sim com a cabeça, enquanto tira uma folha de papel da carteira de couro castanho. Escreve o nome da editora, o nome da autora. “É um belo livro esse, menina, é sobre uma mulher que quase se apaixonou por Salazar. Uma jornalista francesa que quase o amou. Belo livro…», diz-me, presa no quase. A caminho de Milão, como marionetas num céu azul, ela sorri, colando a tristeza à alegria do reencontro. Eu sorrio por não saber fazer outra coisa quando não sei o que fazer. Em Milão despeço-me da senhora e das amigas que contam rugas às gargalhadas. Digo-lhes palavras de circunstâncias como boas férias e divirtam-se. Já a virar costas, ouço: “Menina, menina! Boas férias! Boas férias…com Salazar!”. Aos votos da senhora, respondo-lhe com um sorriso sem riso. E penso em palavras sem som: Vai de retro Salazar.