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Fantasia à brasileira? Por que não?

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 15/08/2008 15h49, última modificação 15/09/2010 15h54
Passa por um momento interessante a literatura brasileira de ficção científica, terror e fantasia – ou como se diz mais genericamente, ficção especulativa, visto que os híbridos dos três gêneros são cada vez mais comuns.

Passa por um momento interessante a literatura brasileira de ficção científica, terror e fantasia – ou como se diz mais genericamente, ficção especulativa, visto que os híbridos dos três gêneros são cada vez mais comuns. Depois de uma relativa seca que durou a maior parte dos anos 80 e 90, novos escritores e novas obras têm surgido em um ritmo que, mais que firme, mostra alguma tendência de crescimento em quantidade e qualidade. A maior parte dos trabalhos é de autores iniciantes e inexperientes e – como em qualquer ramo da literatura – muita coisa é medíocre. Mas também começam a aparecer textos que merecem ser lidos.

Por trás de boa parte da nova onda está o estímulo à literatura amadora proporcionado pela internet, que facilitou o contato entre autores e a publicação de textos em blogs e fanzines eletrônicos. Boa parte deles começa por produzir fanfics, contos amadores sobre filmes, mangás e seriados famosos, de Star Wars a Pokémon. São textos às vezes desajeitados ou de mau gosto, mas ocasionalmente servem aos mais esforçados como ensaios para vôos mais altos.

Outro é o sucesso nas livrarias e nos cinemas de obras como Senhor dos Anéis e Harry Potter e, mais recentemente, das obras de Neil Gaiman, que passou dos roteiros de quadrinhos e filmes aos contos e romances e, a julgar pelas filas por autógrafos em Parati, talvez seja hoje o maior ídolo literário dos jovens brasileiros.

Este é um fator ambivalente, já que faz pipocar pela internet demasiados candidatos a escritores que nunca leram um livro fora da escola, não aprenderam a alinhavar um parágrafo que faça sentido, mas julgam ter uma fórmula mágica para a mega-heptalogia épica que revolucionará a literatura brasileira e mundial e os fará mais ricos e famosos que J. K. Rowling e os maiores intelectuais do Brasil e do planeta. Proliferam como (paulos) coelhos. Parece exagero? Infelizmente, não é, mas também há os de ambições menos infladas e habilidades mais desenvolvidas que chegam a algo digno de atenção.

Vale anotar também a influência da moda dos role-playing games (RPGs), jogos nos quais os participantes assumem o papel de personagens de ficção, mais freqüentemente da literatura fantástica. Entre os RPGs mais populares dos anos 90, estiveram os baseados em Senhor dos Anéis e fantasias épicas mais ou menos análogas, como o ainda popular D&D; na série vampiresca de Anne Rice iniciada com Entrevista com o Vampiro, da qual saiu a série de RPGs “Mundo das Trevas” da editora estadunidense White Wolf; e na ficção científica de William Gibson, um dos fundadores do subgênero conhecido com cyberpunk com o romance Neuromancer, primeira matriz de jogos como Cyberpunk 2020e GURPS Cyberpunk, que também tiveram seus momentos de glória.

Não deve ser à toa que, se forem excluídos os clones de Star Trek e Star Wars, os elfos, vampiros ou cyberpunks continuam a surgir em nove entre dez tentativas de escrever ficção especulativa no Brasil – e em uma proporção menos esmagadora, mas ainda significativa, das obras aproveitáveis.

A construção de uma aventura de RPG é necessariamente muito esquemática em termos ficcionais, pois ainda que uma cena ou situação seja proposta pelo “mestre” ou “narrador”, o desenvolvimento e o desfecho dependem muito da iniciativa e dos caprichos dos jogadores. A diversão e a rapidez na improvisação são mais importantes que coerência e uma boa elaboração, de modo que a transcrição de uma sessão raramente é interessante para quem dela não participou, mesmo que seja fã do mesmo jogo. Mas ao menos algumas das pessoas que viveram esses mundos fantásticos sentiram-se tentados a explorar melhor seu potencial literário e estão percorrendo o caminho inverso, do RPG à literatura.

Sintoma disso é que os dois primeiros simpósios de literatura fantástica do Brasil – as Fantasticon 2007 e 2008 – foram promovidos pela editora Devir, originalmente especializada em RPGs de mesa. Foram, ademais, celebrados nos meses de julho, nas dependências do Colégio Arquidiocesano de São Paulo, junto com os Encontros Internacionais de RPG. Mesmo se a iniciativa, segundo o organizador Silvio Alexandre, foi inspirada no Simpósio de Ficção Científica associado ao II Festival Internacional de Cinema no Rio de Janeiro, em 1969.
Destas novas safras, começo pelo que talvez seja o melhor, o recém-publicado Fábulas do Tempo e da Eternidade (Tarja, R$ 25, 176 págs.), resenhado de maneira mais extensa na CartaCapital 509, página 63 (Volta ao Cosmo em Doze Tempos). É o primeiro livro de Cristina Lasaitis, paulista graduada em psicobiologia e especialista em medicina comportamental nascida em 1983, mas ninguém diria: não deixa nada a dever às melhores obras da ficção científica brasileira. Com muita sensibilidade, doze contos exploram personagens ricos e insólitos que se debatem com o tema do tempo sob vários aspectos da ficção científica e fantasia e em diferentes universos imaginários. Neste caso, não se vê influência do RPG, mas sim dos clássicos da ficção científica literária.

Das linhagens aparentemente originadas dos mundos do RPG, a dos vampiros e afins parece ser a mais vigorosa, ao menos em quantidade de obras e leitores. Já conta com um quase-veterano: André Vianco, um dos raros escritores profissionais brasileiros, que publicou treze volumes desde 2000 (todos pela Novo Século) e é bastante popular entre jovens, embora seu trabalho seja literariamente menos satisfatório que o de outros autores e autoras menos conhecidos da mesma vertente, como Martha Argel e Giulia Moon (que publicam desde 2002).

Uma variação curiosa sobre o tema é a série da potiguar Nazarethe Fonseca que já tem dois volumes:Alma e Sangue: o despertar do vampiro (Novo Século, R$ 39,90, 432 páginas) e Kara & Kmam - uma saga de Alma e Sangue (Tarja, R$ 20, 152 páginas). É uma história de vampiros envolvidos em complicadas tramas políticas e dramas existenciais à maneira de Anne Rice que vai de São Luís do Maranhão à Europa, mas também tem elementos de folhetim romântico à maneira da “Coleção Sabrina” e similares, de erotismo carregado e de espiritismo. O sabor exótico dessa mistura de sangue, água-com-açúcar, pimenta e cuxá deveria ser experimentado ao menos por quem se cansou de vampiros convencionais e mulherzinhas idem.

Outra linhagem é a dos mundos medievais ou pseudo-medievais. Um nome relativamente conhecido é Orlando Paes Filho, que publicou seis livros desde 2003, é relativamente bem-vendido e tem um bom punhado de fãs fiéis, mas à sua série de romances pseudo-históricos sobre cavaleiros cristãos não só falta um mínimo de humor, veracidade e senso crítico, como é pavorosamente ruim do ponto de vista literário, apesar da infatigável autopromoção do autor – ainda mais carola, intolerante e presunçoso ao vivo do que nos escritos.

Fuja sem hesitar. Quem quiser sonhar com cavaleiros, ou mesmo com elfos e dragões, conta com alternativas mais divertidas e menos pretensiosas, além de literariamente mais honestas.

Honestidade é uma palavra duplamente adequada no caso de Pelo Sangue e Pela Fé (Espaço Editorial, R$ 40, 528 págs.) do livreiro paulista Claudio Villa. Primeiro, essa obra – por falhas dos editores e revisores – foi publicada em 2007 com um sem-número de erros e defeitos, mas o autor tomou a iniciativa, rara no meio editorial brasileiro, de promover um recall no início de 2008 e substituir os exemplares defeituosos sem custo para o leitor. Segundo, trata-se de uma narrativa simples, declaradamente baseada em aventuras de RPG vividas pelo autor com amigos e até certo ponto uma bricolagem (ainda que não demasiado previsível) de temas tradicionais, envolvendo cavaleiros, elfos e piratas, mas contada com a sinceridade e a paixão de um naïf bem-feito.

Entre as melhores, mais adultas e mais originais histórias em mundos imaginários estão dois pequenos livros da bibliotecária carioca Ana Lúcia Merege, O Caçador: Um Conto de Fadas em Mosaico (Fábrica de Livros, 111 páginas) e Jogo do Equilíbrio, que infelizmente não estão disponíveis nas livrarias, mas podem ser encomendados diretamente à autora ([email protected]). No primeiro livro, o caçador da história da Branca de Neve – aquele que aparece no início e some após desobedecer à ordem da Rainha Má para matar a heroína – inicia uma longa jornada por outros contos de fada (João e o Pé de Feijão, Cinderela, Bela Adormecida...) e cresce construindo seu próprio caráter e tornando-se herói da própria história – como uma criança que forma sua personalidade e seus sonhos a partir de histórias como essa e ao mesmo tempo como o herói de um romance de formação clássico. Jogo do Equilíbrio é mais curto e menos fantasioso, mas ainda mais original e bem contado: um saltimbanco que vive em uma imaginária cidade renascentista de sabor ibérico, mas de problemas bem realistas, faz o diabo para ganhar a vida, cuidar do filho e segurar a mulher que ama.

Entre outras obras comparáveis mais ou menos recentes vale citar Guerreiros de Darinka de 2005, da professora de jornalismo Renata Cantanhede (Novo Século, R$ 39,90, 453 págs), menos bem-sucedida. Imagina um mundo e uma situação política que parece, em princípio interessante e conta sua história de maneira convencionalmente correta, mas falta emoção e ações marcantes a essa história de reis, escravos, guerreiros e princesas rebeldes. A narrativa permanece morna e algo monótona do começo ao que passa por fim – a história se interrompe de repente, sem passar por nenhum momento culminante ou memorável, como se fosse um longo prólogo a um segundo volume no qual a história realmente começaria. É pouco para tantas páginas.

Também de 2005, A Lendária Hy Brasil, segundo livro da bióloga carioca Michelle Klautau (Devir, R$ 25, 320 págs.) é menos elegante e profissional no uso da língua, mas tem muito mais originalidade e senso de humor, bem como personagens mais marcantes. No frigir dos ovos, vale mais a pena ler essa história de elfos que saem de um continente pseudo-europeu para descobrir uma terra de amazonas, cidades de ouro, orixás e magos, tendo como guia nada menos que uma versão particularmente elegante de Zé Pelintra.

A série “Caverna de Cristais”, da jornalista e professora de biologia Helena Gomes, iniciada em 2003 comO Arqueiro e a Feiticeira, (Devir, R$ 24,50, 288 págs.) e continuada em 2007 por Aliança dos Povos (Idea, R$ 49,90, 592 págs.) tem altos e baixos. É uma combinação muito curiosa de temas de fantasia medieval, ficção científica e terror com um bom senso de aventura, mas os personagens são um tanto estereotipados e as citações e empréstimos de outros escritores e universos (de Senhor dos Anéis a Star Wars) óbvios demais (o primeiro livro, por exemplo, é introduzido por um personagem chamado “Tolkien”).

Outra série, “Guerra das Sombras”, do diplomata Jorge Tavares, iniciada em 2006 com O Livro de Dinaer(Novo Século, R$ 39,90, 422 páginas) e continuada no ano seguinte com O Livro de Ariela (idem, R$ 35, 352 páginas) tem alguns altos e um longo baixo. A intriga política é bem construída, as idéias são maduras, mas a prosa, que só ocasionalmente tropeça no primeiro livro, narrado de maneira razoavelmente provocante por uma ambígua divindade, arrasta-se penosamente no segundo, confiado a uma narradora empolada e redundante que mal mereceria ser personagem secundário.

Essas obras nem de longe esgotam o que tem sido publicado, mas talvez bastem como amostra de uma tendência que cresce, ramifica-se e dá frutos, alguns dos quais já suficientemente bonitos e maduros para convidar à mordida. Promete mais para o futuro, principalmente se puder contar com editores que orientem seu crescimento.

Como soube fazer com a ficção científica, nos anos 60, o editor baiano Gumercindo Rocha Dorea, com o qual o gênero chegou a ser realmente popular, pelo menos por algum tempo. Como escreveu o escritor e crítico Roberto Causo, Gumercindo agrupou autores que já tinham compromisso com o gênero (como Jerônymo Monteiro e Rubens Scavone), convidou a escrever FC, como experimento, figuras literárias estabelecidas (Dinah Silveira de Queiroz, Antonio Olinto) e autores iniciantes no gênero que depois vieram a ser mestres (André Carneiro, Fausto Cunha), intercalando-os na sua “Coleção Ficção Científica GRD” com autores internacionais de peso como C. S. Lewis, Robert A. Heinlein, Chad Oliver e outros, com bastante sucesso. A fantasia brasileira do século XXI mereceria um experimento semelhante.