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Cultura

Entrevista

'Faltou a Legião Urbana'

por Matheus Pichonelli publicado 22/09/2011 11h00, última modificação 06/06/2015 18h15
Autor do livro sobre o Rock in Rio relembra os chiliques de Freddie Mercury, diz que o 1º festival foi ‘contaminado’ pelo clima de abertura política e garante: os artistas já não correm risco de tomar pedrada em 2011

Autor do livro sobre o Rock in Rio, Luiz Felipe Carneiro analisa a importância do evento para a música nacional, relembra os ataques de estrelismo de Freddie Mercury, diz que o primeiro festival foi ‘contaminado’ pelo clima da abertura política da época e garante: os artistas que estarão no palco neste ano já não correm risco de tomar pedrada dos metaleiros.

Na entrevista, ele lamenta apenas que a Legião Urbana, banda liderada por Renato Russo (morto em 1996), jamais tenha participado do festival.

Veja abaixo os principais trechos da conversa:

O pano de fundo do Rock in Rio mostrava um certo clima de subserviência dos fãs e da produção em relação aos artistas estrangeiros, que eram mais mimados que os artistas nacionais. Tantos anos depois, dá pra dizer que o Brasil superou esse amadorismo, ou provincianismo?

Amadorismo não era. Mesmo entre os organizadores, havia um clima de “Vamos ver no que vai dar”. Ninguém sabia o que ia acontecer. A primeira banda procurada foi o Queen, que era a maior banda da época. A ideia parecia um absurdo, ainda mais vinda de brasileiros. Mas tudo aconteceu de uma forma que hoje você pode perguntar para qualquer grande fã, de qualquer lugar do mundo, sobre a apresentação do Queen no Rock in Rio e ele vai dizer que foi uma das melhores. Até hoje foi o maior público da banda na formação original. Só o fato de o (guitarrista) Brian May ter me atendido para falar sobre o show de 85 mostra como o show foi importante para a banda. Sobre a recepção do público, não tem como: as pessoas esperam mais para ver os estrangeiros. Os shows dos brasileiros eles podem ver em outras oportunidades.

Os brasileiros reclamavam que não tinham o mesmo tratamento e que até mesmo o som dos estrangeiros era melhor, sugerindo uma espécie de boicote.

O som era diferente. Mas qualquer show de abertura era show um menor. Os brasileiros se sentiram um pouco desprestigiados. A Rita Lee, por exemplo, saiu falando mal. Dizia que os técnicos de som beijavam a bunda dos gringos. Mas o problema era que os técnicos brasileiros não sabiam pilotar aquilo. A Fernanda Abreu, da Blitz, ficou sem microfone uma hora. Mas no show dos Paralamas tudo funcionou bem.

E em relação ao tratamento aos artistas? O Freddie Mercury foi um tanto deselegante com os colegas brasileiros ao mandar tirar todo mundo do corredor para que ele passasse...

Na minha opinião, foi só um ataque isolado de estrelismo. Com tanto tempo de carreira, ele devia estar cansado de tanto assédio. Isso acontece. Mas outros artistas foram mais educados. O terno do George Benson foi a Elba Ramalho que escolheu. O James Taylor falava com todo mundo. O Charles Galvin, dos Titãs, também dizia que o pessoal do Guns’n Roses estava super tranquilo no Rock in Rio 2. E hoje em dia também tem muito artista brasileiro que se acha. Não dá pra generalizar. No fim, o Queen foi super respeitoso. Fez praticamente um show inteiro durante o ensaio. E fez uma grande apresentação, muito profissional.

Como foi feita a pesquisa?

Eu conseguia acompanhar, já na época, alguma coisa pela tevê. Mas o que me ajudou muito foi que meu pai tinha sido um dos advogados do Rock in Rio 2. E, não sei por quê, a Artplan (empresa organizadora do evento) mandou para ele na época vários jornais do Rock in Rio 1. O material ficou no escritório dele e, numa faxina, ele resolveu salvar o material e me trazer. Sabia que eu era louco por rock. Era um monte de envelope, com dez exemplares, um pra cada dia de show, que eram vendidos na própria Cidade do Rock, em 1985. Tinha também revistas e recortes de matérias da época. Comecei a pesquisa em cima disso. E busquei informações no que saía nos jornais da época, nos arquivos como o da Folha de S.Paulo. Tinha informação sobre o festival espalhada por vários cadernos. Parte do livro, como a que conto que o guitarrista do Whitesnake dormiu com uma socialite e no dia seguinte mandou tirar ela do quarto porque era feia, eu descobri lendo uma coluna social da época.

No livro, você faz até mesmo uma avaliação sobre quem mandou bem e quem foi mal durante os shows. Você teve acesso aos vídeos também?

Algumas partes são transcrições de críticas feitas na época. Outros shows eu assisti inteiro. Mas, com o YouTube, dá para você ter uma noção.

Teve algum show que você lamenta não ter conseguido assistir antes de fazer os textos?

Senti falta de mais materiais em vídeo do Rock in Rio 2. Da primeira e da segunda edição foi muito tranquilo, inclusive no YouTube. Mas da segunda tive mais dificuldade. Do Rock in Rio 1 tinha bastante filmagens, acho que até pela novidade do evento. E o de 2001 porque a transmissão já era uma coisa comum.

Você foi a todas as edições?

Em 1985, não. Eu era pequeno, mas lembro nitidamente da época. Eu já era fã do Queen, mas meu pai não queria me levar. Mas lembro até hoje de um pontinho de luz que via da varanda de casa. Eu morava no 26º andar de um prédio na Barra da Tijuca, e conseguia ver as luzes em Jacarepaguá. Lembro também de ter visto as coisas pela tevê. Dos dez dias de shows, em pelo menos cinco eu ficava na varanda assistindo de longe. Era programa obrigatório. No de 1991 e de 2001 eu fui. Já era louco por rock. Na segunda edição, o que eu mais queria ver era o George Michael.

Tem alguma banda que você queria muito ver no Rock in Rio e não viu?

Quando estava escrevendo o livro, fiquei imaginando como seria se a Legião Urbana tivesse encerrado o Rock in Rio 2. Mas naquela época eles não tocavam em festival. E em 85, ano do primeiro show, eles tinham acabado de lançar o primeiro disco. No segundo, eles estavam lançando o disco Quatro Estações. Teria sido lindo se eles fechassem aquele festival.

E teve alguma banda que você acha que não fazia sentido ter participado?

Não digo que eram bandas ruins. Mas em 91, por exemplo, o Capital Inicial estava caindo aos pedaços, lançando discos fracos. Eles tocaram no Rock in Rio 2 e foram quase ignorados. Logo o tecladista saiu, a banda ficou dispersa. Não deixou boas lembranças naquele ano. O curioso é que, dez anos depois, era a banda que mais lotava show. Foi o maior público do Rock in Rio 3, com 250 mil pessoas, a maioria adolescente. Eles tinham acabado de lançar o CD acústico.

Você acha que o show deste ano vai preservar algo das últimas edições?

Quem assistiu ao último show, em Madri, diz que é uma coisa inimaginável. Que parece uma Disneylândia. Muita gente me pergunta o que espero desse próximo Rock in Rio. Eu digo que vai ser diferente. Não sei se vai ser melhor ou pior. Mas vai ser diferente. Hoje em dia existe até pesquisa Ibope para saber quais bandas o público quer ver. O clima vai ser bem heterogêneo, bem ao estilo carioca. O paulista é mais roqueiro. Por isso o Lobão chama o Rio de túmulo do rock. Mas as pessoas têm um apego com o Rock in Rio, como se fosse um patrimônio. Isso mostra a força do Rock in Rio. Vários festivais, mesmo o Hollywood Rock, trouxeram atrações pop. Mas quando se fala em mudanças no Rock in Rio é como se falasse de mudar as cores da bandeira. Muita gente diz: “pô, mas tem que ser igual ao de 85, que era rock de verdade”. E eu digo: tinha o George Benson, tinha o James Taylor, tinha a Elba, a Go-Go’s. Em 91 tinha o New Kids on The Block, o George Michael. Nem tudo era rock. Nesse sentido, o de 2001 foi mais rock mesmo. O Rock in Rio sempre privilegiou diversos gêneros.

Dá para dizer que o festival de 85 foi um divisor de águas?

Acho que abriu a porta do país pra esse mercado do showbizz. Hoje o Brasil é passagem obrigatória dos artistas, tanto quanto o Japão. Depois de 85, muita gente se apresentou aqui, como o Sting, a Tina Turner, o Paul McCartney, o David Bowie. Pode ser coincidência. Teve o Hollywood Rock, que não tinha a mesma importância porque eram menos dias, o público não era tão grande, mas foi um festival importante. Em 85, não existiam empresas especializadas na logística toda, para reserva de hotel, transporte. Hoje você tem empresa de tudo.

Você acha que os artistas brasileiros ainda têm medo dos metaleiros, como você descreve no livro?

Também andei pensando sobre isso. Acho, na verdade, que o mundo tem piorado muito, em muitas coisas. Mas numa coisa tem melhorado: a tolerância. Eu posso quebrar a cara, e daqui a duas semanas você pode rir, mas acho difícil que algum artista neste ano tome alguma pedrada em show. Quem não gostar da banda vai esperar a próxima e vai dar um tempo, dar uma volta, passear na roda gigante. Você vê o que tá a fim. Eu mesmo acho ótimo que tenha Shakira. Vou poder descansar em casa nesse dia.

Nos primeiros capítulos, Tancredo Neves é mais citado do que qualquer outro artista. Embora as pessoas não pudessem votar, dava para ver o quanto as pessoas e os artistas brasileiros esperavam que as coisas finalmente mudassem com o novo presidente, que foi eleito no quinto dia de show. Você acha que o Rock in Rio teria a mesma graça se ele tivesse sido derrotado?

Acho que o público acabou sendo contaminado pelo clima daquela eleição. Se não tivesse essa coisa do Tancredo, teria perdido muito a graça. Quando ele foi eleito, o estoque de gel verde e amarelo tinha se esgotado. Você conversa com as pessoas, muitas que hoje tem mais de 50 anos até, e elas dizem o quanto esperavam que, depois daquilo tudo, as coisas começassem a mudar. Para melhorar, naquele dia também saiu a lista do vestibular. Tinha muita gente comemorando. No dia seguinte, tinha até gente falando “passei no vestibular e o Maluf perdeu no colégio (eleitoral)”. Pude até sentir aquele clima.

Um clima parecido com a cidade que vai receber Copa do Mundo e Olímpiada...

Pois é. E os turistas vão ser muito bem recebidos. Pode até acontecer um problema aqui, outro ali. Mas vai ser como sempre: as pessoas vão chegar aqui e todo mundo vai achar a cidade linda.