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Fale com elas

por Matheus Pichonelli publicado 22/05/2013 17h08, última modificação 23/12/2013 09h11
Crianças subestimadas e professores treinados para colorir a realidade: o assustador universo escolar retratado em "O Que Traz Boas Novas"
O que Traz Boas Novas

Cena de O Que Traz Boas Novas, em cartaz em SP

A curta sinopse no site do cinema me preparou para encarar um drama ao estilo esfola-alma: um professor da Argélia cai de paraquedas em uma turma do (equivalente ao) ensino fundamental em Montreal, no Canadá, para substituir uma professora que, dias antes, morrera de forma trágica. À primeira vista, O Que Traz Boas Novas, filme de Philippe Falardeau em cartaz em São Paulo, parecia mais uma história sobre superação de primeiras impressões, preconceitos, unificação de valores e conquistas que só a escola consegue desencadear.

Era também, mas não só.

A sala de aula, como se sabe, é um laboratório de conflitos humanos que, cedo ou tarde, desembocam no que equivocadamente costumamos chamar de vida real. Em 2008, Laurent Cantet conseguiu fazer de Entre os Muros da Escola uma radiografia social a partir dos desafios de um professor diante de uma geração assentada em uma nova dinâmica de interlocução, tecnologias e valores. Surpreendentemente, O Que Traz Boas Novas fez jus à tradição sem se apresentar apenas como um drama sobre alunos e professores – nem apenas sobre um suposto choque cultural entre Ocidente e Oriente no ambiente escolar.

O filme é, a bem dizer, um grande grito contra uma forma sistemática, invisível e não-assumida de encarceramento adulto e juvenil. Explico. Logo nas primeiras cenas, sabemos que a professora das crianças, por motivos misteriosos, se enforcou durante o intervalo na sala de aula. A sequência é um exercício desesperado dos adultos responsáveis pelas crianças – direção, corpo docente, pais e funcionários – de descaracterização da cena. Na impossibilidade de se trocar de sala, o local do crime recebe novas tintas, nova posição de cadeiras e um novo professor, Bachir Lazhar (Mohamed Fellag). A ele é dada a missão de evitar que as crianças toquem no assunto. A única profissional autorizada a lidar com elas é uma psicóloga de métodos duvidosos que promete apagar as feridas do episódio. Aos demais, cabe agir mais ou menos como os pintores que mudaram as cores das paredes da sala: dourar a pílula e tentar seguir adiante.

Mas como, se naquela sala de aula alguém, aparentemente querida pelos alunos, acabava de cometer um ato de violência extrema?

Ao longo do filme, o novo professor terá como desafio driblar o luto da escola e firmar uma autoridade mambembe, frequentemente contestada pelo fato de não ser daquele país. Não demoramos a perceber que, como aqueles estudantes, ele também guarda traumas mal assimilados de seu passado na Argélia. E que mal consegue manifestar com palavras, gestos e expressões o que o levou a fugir do seu local de origem. É como se o silêncio, o rodeio, o disfarce e o autoengano fossem capazes de superar a tragédia humana. Não são, e quem dá o primeiro sinal de que é possível (e necessário) entrar no assunto com a seriedade que a realidade pede são as próprias crianças. Ao longo das aulas, o episódio do suicídio começa a aparecer nas falas, redações e até nas brincadeiras infantis. É quando Bachir percebe que elas querem – e precisam – se comunicar de alguma forma. E que se comunicar sobre a violência vivenciada não era uma mera reprodução de uma realidade violenta. Para garantir que isso aconteça sem que ninguém exploda, é preciso ter uma habilidade cirúrgica. Não porque as crianças sejam incapazes de entender o que aconteceu, mas porque a realidade exige, e exigirá sempre, e em qualquer idade, a maestria de uma precisão cirúrgica: tudo é frágil, tudo é explosivo, tudo põe a qualquer momento tudo a perder. Ao mesmo tempo, nada tem resposta clara e única como em um teste de múltipla escolha.

Saber disso não é excitar a crueldade, mas agir com uma honestidade mínima, parece dizer o diretor. A redoma envolta das crianças que o professor Bachir tentará a todo custo destampar tem uma base anterior à tragédia. Por exemplo: a certa altura, o professor é repreendido pelos pares por apresentar textos de Honoré de Balzac em sala de aula. Parece um detalhe, mas não é: a todo instante há alguma autoridade sentada sobre um manual de conduta a dizer o que pode e o que não pode ser absorvido pelas crianças. O fosso artificial cavado entre elas e o suposto mundo real é uma construção social, cuidadosa e fadada ao fracasso. E tem entre suas normas, no caso do filme, uma regra draconiana: nenhum professor ou funcionário da escola tem autorização para tocar no estudante. A regra que vale para um tapa como vale para um abraço – e a certa altura um professor de educação física, proibido de passar protetor solar em um aluno com queimaduras de segundo grau, confessa ter a impressão de lidar com elementos radioativos, e não com estudantes.

Na sala de Bachir, onde a professora anterior se matou e todos tentam fingir que nada aconteceu, um estudante passa boa parte das aulas estirado na carteira porque tem enxaqueca e sangramentos. O professor em nada pode ajudar porque, em tese, deve evitar um vínculo de proximidade acima do aceitável. (Qualquer semelhança não é mera coincidência: aqui em São Paulo, policiais são proibidos de prestar socorro a vítimas da violência urbana em nome da qualidade da investigação; o ato de jogar a água suja com o bebê dentro, como se vê, é uma praga universal).

Essa impessoalidade forçada é consequência, não causa, de uma incompetência mal disfarçada. Quando, no ambiente escolar, criam-se regras inexistentes fora de seus domínios, a escola passa a ser uma mera réplica artificial (portanto, descolada) da realidade, e não parte englobada por uma realidade de bordas indefinidas. Tão indefinidas que, entre quatro paredes, consegue agregar o drama de dois estágios civilizatórios: entre a guerra fratricida na Argélia e o vazio em meio à (aparente) plenitude material do Canadá, a banalização da vida opera como uma estrutura elementar. Tanto na História como nos pequenos relatos de tragédias diárias, há duas formas de enfrentamento: o silêncio ou a compreensão. O problema é que essas duas palavras não se combinam. Cabe à escola, e muitas vezes a um único professor, a decisão de optar por um ou por outro (nesse sentido, o professor Bachir faz do filme uma versão ao avesso de A Vida é Bela, de Roberto Benigni).

Não é preciso ir longe para compreender o silêncio (na imprensa, nas escolas, nas grandes discussões) sobre o drama do suicídio retratado pelo filme. Oficialmente, o medo é que uma simples notícia funcione como um incentivo a novas decisões. Como no filme, o ato é relatado com rodeios; é um assunto-tabu sobre o qual ninguém ousa tocar, como se fosse possível ignorar que toda semana há uma multidão de gente tomando suas últimas decisões à beira de uma janela sem que tenhamos coragem suficiente para identificar uma suposta anomalia social desencadeada em um período de paz aparente.

É parte da cultura do verniz, das soluções para baixo do tapete, que o filme busca suscitar: ao esconder a realidade, legamos ao mundo uma covardia institucionalizada, como se as crianças – de 5, 10, 40 ou 80 anos – fossem eternamente incapazes de digerir uma realidade não combinada nos contos de fada.