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Espionagem à brasileira

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 25/02/2008 16h25, última modificação 15/09/2010 16h26
Os brasileiros apreciam romances de espionagem internacional, como mostram as vendas de autores como Robert Ludlum e John Le Carré.

Os brasileiros apreciam romances de espionagem internacional, como mostram as vendas de autores como Robert Ludlum e John Le Carré. Mas aparentemente não gostam de escrevê-los, ou pelo menos raramente se atrevem a fazê-lo. Talvez nossos Ian Flemings em potencial ainda pensem que tais tramas estão muito distantes da realidade do País – o que já seria ingenuidade nos tempos do Imperador e o é muito mais nos dias de hoje, quando o Brasil, assim como outros grandes países periféricos, desempenha um papel cada vez mais importante na economia e geopolítica globais.

O jornalista e publicitário Robinson dos Santos, atualmente editor do Diário da Amazônia, foi um dos poucos a aceitar o desafio e saiu-se razoavelmente bem. Seu primeiro livro no gênero, Souvenir Iraquiano, edição de mil exemplares de 2005 (Cultura em Movimento, 240 págs.) patrocinada pela Fundação Cultural de Blumenau que até hoje não conseguiu uma distribuição que lhe permita chegar às livrarias, tem uma linguagem ágil e adequada ao tema e mostra muita habilidade em envolver o leitor. Seus personagens são verossímeis e atraentes, convencem como seres humanos e é fácil simpatizar com eles, apesar de todas as suas fraquezas morais.

A trama parte de ex-militares brasileiros que, aflitos por dinheiro por diferentes motivos, se envolveram em ações criminosas e se endividaram com um impiedoso chefe de quadrilha. Ocorre a um deles, que trabalhou no Iraque na época em que a ditadura militar brasileira exportava armas e tecnologia a Saddam Hussein, roubar e contrabandear peças arqueológicas mesopotâmicas que ele vira nas escavações para a construção da usina nuclear de Osirak.

Seus caminhos cruzam-se, porém, com os de um honrado militar iraquiano que decidiu desertar e com os de um espião dos EUA que, ao participar da preparação da primeira guerra do Golfo, de 1991, não vê por que não aproveitar a oportunidade para enriquecer. E nada acontece como foi planejado, para nenhuma das partes...

A trama é muito inteligente e cativante. No mínimo, é uma excelente distração que mereceria ser transformada em filme. O diabo são os detalhes. O uso da língua é, no geral, bastante satisfatório, mas vê-se vários pequenos erros, principalmente quanto a nomes e termos estrangeiros, dos quais uma boa revisão poderia ter-nos poupado.

Além disso, a pesquisa do autor deixou a desejar quanto a alguns pormenores. Não é nada que comprometa seriamente a trama, mas ainda assim são erros irritantes para quem conhece o tema. Para citar dois exemplos, o livro confunde satélites geossíncronos ou geoestacionários (que permanecem fixos sobre determinado ponto do Equador, a 36 mil km de altitude) com satélites espiões de órbita baixa (que passam por todo o planeta a altitudes de 150 km ou menos) e descreve soldados e policiais iraquianos, obviamente árabes, a falar farsi – a língua do então inimigo Irã – no deserto e nas ruas de Bagdá.

Desculpadas minúcias como estas – que valeria a pena revisar em uma eventual e bem merecida segunda edição – o livro é um bom entretenimento. Convém acrescentar que o autor está preparando outro livro, cujo título provisório é A Fronteira, cujo rascunho tive oportunidade de ler. Trata-se, neste caso, de brasileiros que participam uma operação patrocinada pela ditadura militar para prospectar e minerar urânio da Somália para Saddam Hussein, cujos interesses entram em choque com o Mossad, os EUA, as guerrilhas locais e missionários que tentam proteger seus órfãos da guerra. Tem tudo para igualar ou superar o primeiro livro, tanto em verossimilhança quanto em interesse humano.