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Crítica - Alabama Monroe

Entre perdas e danos

por Deni Rubbo — publicado 08/02/2014 16h47
Jamais escapamos da dor da perda. Ainda assim, algumas vezes, podemos remediá-la, mesmo que parcialmente, com que temos de especial: a imaginação
Alabama Monroe

Ocasal Didier (Johan Heldenberg) e Elise (Veerle Baetens) em cena do filme Alabama Monroe

Muito além de um drama familiar, Alabama Monroe (The Broken Circle Breakdown, no original), dirigido por Felix Van Groeningen e um dos candidatos ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2014, é expressivo pela capacidade perturbadora de abordar um sentimento universal à condição humana: a dor da perda.

A situação em que se deflagra a trama é extremamente adversa para o casal Didier (Johan Heldenberg) e Elise (Veerle Baetens), protagonistas do filme: a filha de apenas seis anos é diagnosticada com câncer terminal. Contudo, os acontecimentos não são narrados na forma de surpresas, como fazem os melodramas convencionais. O filme não segue uma história linear dos fatos, mas é montado entre episódios descontínuos da história do casal (e da filha) – lembrando, embora com menos cortes drásticos, filmes do mexicano Alejandro Inãrritu.

Didier é um músico tocador de banjo na Bélgica, admirador do estilo de vida americano e do histórico slogan da “terra das oportunidades”, “dos sonhadores” (um pouco ingênuo para alguém em pleno século XXI); Elise é uma jovem tatuadora. Ambos vivem a paixão da energia pela música, em particular o estilo bluegrass, tipicamente americano, mistura de blues com country de raiz.

Mas há uma diferença fundamental entre Didier e Elise – e este é o nervo central do filme: o primeiro, ateu, considera a morte um fim; a segunda, religiosa, mas não fervorosa, acredita na vida após a morte. Didier olha para a filha e sofre para responder que o pássaro é um pássaro, que a estrela é somente uma estrela e que o que morre está morto. Elise é diferente. Aos olhos dela, a filha morta pode significar um pássaro, uma estrela. É um movimento de fé.

Diante do trágico acontecimento, Didier e Elise procuram um impossível socorro no outro. Resta ao músico viver essa catástrofe sem Deus e frustrar-se com o fato de os governos se dobrarem ao fanatismo religioso para barrar o avanço das pesquisas com células-troco.

É o sonho que se transforma em pesadelo. Dupla morte num só golpe: do “sonho americano” e da filha.

Mas a dicotomia expressa fortemente no filme – sob uma situação-limite, vale dizer – em que sentimentos e comportamentos exagerados, excessivos e explosivos dos que possuem uma visão de mundo distinta estão aflorados e irredutíveis, não possuem pesos iguais. Isso porque o filme é religioso. Porém, tal postura não é desleal no sentido de projetar uma caricatura de personagem cujos erros e vacilações se justificariam pela opção antirreligiosa. Nem mesmo poupa a religiosa Elise. Assim, o filme não perde o brilho com sua “crença”, mas é inegável que Didier tem uma pequena desvantagem nesse jogo de oposições.

Apenas a trilha sonora parece permanecer incólume às tempestades psicológicas dos protagonistas, embora isso não signifique que a música tenha uma importância secundária. Na verdade, ela não só participa de todos os momentos da trama, interna (sequências das apresentações da banda) e externamente (como música tocada para o filme), mas constitui-se como uma narrativa, poderosa e decisiva, do começo ao fim.

E o que amarra o aparente caos narrativo são as músicas – o estilo vigorante do bluegrass, é claro –, inapropriadamente surpreendente, por exemplo, quando toca uma canção “alegre” durante a cena em que a menina está perdendo seus cabelos, mas fundamental na mediação entre passado, presente e futuro. Sem contar que essa narração musical é protagonista – de uma maneira pagã, talvez –, pela inserção dos músicos da banda, no enterro da filha e, principalmente, na morte de Elise no hospital.

No fundo, todos nós, ateus ou religiosos, somos mais vulneráveis e frágeis do que supomos às contingências da vida (ou, os “sustos do acaso”, como num dos versos de Mario Benedetti), que nossos limites e intolerâncias parecem, muitas vezes, estar na primeira porta da diferença.

Da aldeia rural da Bélgica à cidade moderna dos Estados Unidos. (“A gente corre perigos. Essa é a pura verdade. A gente corre riscos e é um joguete do destino até nos lugares mais inverossímeis”, dirá Auxilio Lacouture, personagem de Amuleto de Roberto Bolaño).

Jamais escapamos da dor da perda. Ainda assim, algumas vezes, podemos remediá-la, mesmo que parcialmente, com que temos de especial: a imaginação. Seja nas estrelas, seja nos pássaros, seja na música.

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