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Entre o gênero e a literatura

por Luiz Antonio Cintra — publicado 16/04/2010 17h16, última modificação 08/09/2010 17h18
A editora Devir, que já havia publicado pelo selo Pulsar uma coletânea chamada Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica, em cuja capa uma nave espacial sobrevoava o centro de São Paulo, acaba de lançar outra do mesmo gênero, chamada Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica: Fronteiras (R$ 21,95, 192 págs.), igualmente editada por Roberto de Sousa Causo.

A editora Devir, que já havia publicado pelo selo Pulsar uma coletânea chamada Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica, em cuja capa uma nave espacial sobrevoava o centro de São Paulo, acaba de lançar outra do mesmo gênero, chamada Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica: Fronteiras (R$ 21,95, 192 págs.), igualmente editada por Roberto de Sousa Causo.

Desta vez, a nave flutua sobre o Pão de Açúcar e a coletânea se propõe um objetivo mais específico: reunir contos “fronteiriços”, que em algum grau estariam na fronteira entre a ficção científica como gênero e aquilo que os aficionados do gênero chamam de “mainstream” ou “ficção literária”, ou seja, a literatura que não se enquadra em gêneros específicos – como também seria o caso, na coletânea anterior, do conto “O Imortal”, de Machado de Assis. Veremos, porém, que nem todos se enquadram bem nesse programa, embora a maioria deles mereça ser lida.

A nova coletânea reúne quatorze contos escritos de 1910 a 2001, em ordem aproximadamente cronológica. O mais antigo, o mais divertido e provavelmente o melhor do ponto de vista literário é “A Nova Califórnia”, de Lima Barreto. Nessa história, o autor de Triste Fim de Policarpo Quaresma mostra a mesma verve irônica de seu romance mais famoso: um grande químico vai morar em uma cidadezinha do interior do Rio de Janeiro. Ali pesquisa segredos de antigos alquimistas e descobre uma maneira de fazer ouro. O problema é que a receita envolve ossos humanos e o segredo vaza, com resultados mais assustadores que uma invasão de vampiros e zumbis.

O segundo, de 1929, é “A Vingança de Mendelejeff”, de Berilo Neves – com certeza, o pior de toda a coletânea. Vale como curiosidade histórica, por tratar-se do primeiro escritor brasileiro a publicar ficção científica com certa regularidade, mas é um amontoado de clichês melodramáticos e preconceitos políticos, amarrados de forma inverossímil. Pense nas mais ridículas histórias de cientistas malucos já vistos em filmes B e histórias em quadrinhos: Berilo Neves conseguiu ser pior. Se o objetivo era reunir contos de ficção científica de certo valor literário, este ficou fora de lugar.

“Delírio”, conto de Alfonso Schmidt de 1934, não é tão ruim, mas ainda assim também está no lugar errado. Se tem algum interesse literário, não tem nenhum do ponto de vista da ficção científica: trata-se de um conto teosófico-espírita, sobre doentes em vias de “desencarnar” e suas experiências do além. Obra de fantasia ou de ficção religiosa, não científica.

Já “O Homem que Hipnotizava”, texto de 1963 de André Carneiro, poeta da “geração de 45”, hoje idoso, mas ainda bem ativo como escritor, é um ótimo conto de ficção científica. Não envolve nenhum artefato tecnológico, mas apenas a técnica, cientificamente comprovada, do hipnotismo – usada, neste caso, por um homem que tenta se iludir sobre sua própria vida.

De seu colega de geração Domingos Carvalho da Silva, “Sociedade Secreta”, de 1966, é uma distopia estatista de um futuro tecnologicamente avançado e radicalmente coletivista, na qual sobreviventes de uma era anterior sentem-se deslocados. Embora o editor relacione a distopia ao clima da ditadura militar, parece-nos tratar-se, pelo contrário, de propaganda anticomunista, ao estilo de 1984. O protagonista diz-se “sobrevivente do capitalismo e da democracia liberal”, o inimigo é o coletivismo e o momento em que foi escrito foi o da ditadura ainda relativamente liberal do general Castelo Branco.

“Um Braço na Quarta Dimensão”, de Jerônymo Monteiro, 1964, é uma história trágica e intrigante de um pobre caiçara de Mongaguá amaldiçoado com o inexplicável dom de desmaterializar-se ante qualquer perigo para voltar a aparecer de maneiras que o põem em riscos muito piores.

“Número Transcendental”, de Rubens Teixeira Scavone, 1961, trata, como a maioria dos contos desse autor, de um encontro com OVNIs e seus misteriosos tripulantes – complicado, neste caso, pelo fato de o protagonista do contato imediato ser o fugitivo de um hospício.

Ao contrário do conto de Carvalho da Silva, “Seminário dos Ratos”, de Lygia Fagundes Telles, 1977, refere-se com certeza à ditadura militar, aqui satirizada sem piedade. Um burocrata do regime militar vai a uma casa de campo especialmente preparada para que se reúna com assessores do governo de Washington que o ajudarão a combater a terrível praga de ratos que devasta as cidades, mas estes o encontram primeiro. Um bom conto, mas trata-se de uma alegoria política na forma de um conto de terror, não de ficção científica.

Em “O Visitante”, do radialista capixaba Marien Calixte (1977), a viúva de um pescador se envolve com um homem misterioso e depois com o filho nela gerado, louro e de olhos azuis. Boatos sobre uma bela luz que desce do céu nos dias em que a mulher recebia o visitante sugerem um alienígena, mas de resto também poderia ser interpretado como uma entidade encantada do folclore ou como um homem comum enaltecido pela fantasia de sua amante. A ambiguidade aparentemente proposital deixa o conto mais próximo do realismo fantástico que da ficção científica.

“Uma Semana na Vida de Fernando Alonso Filho” é o primeiro conto, publicado em 1984, do escritor de ficção científica Jorge Luiz Calife. A história se passa no futuro, entre colonos que habitam um planeta Vênus em vias de terraformação, ou seja, transformação do ambiente local em algo mais semelhante ao da Terra, que neste caso passa por séculos de chuva intensa. O conto claramente busca seguir as convenções da ficção científica “hard”, ou seja, apoiar-se em especulação científica séria sem ter maiores pretensões à excelência ou originalidade formais, mas comete dois equívocos. Primeiro, descreve como normal a alternância de dia e noite, quando a rotação de Vênus é extremamente lenta e dá-se em 243 dias terrestres. Talvez se pudesse imaginar uma maneira de modificá-la, mas o autor nada diz sobre isso. Segundo, os colonos, como os moradores de encostas do Rio de Janeiro, vivem sob o temor de serem soterrados por um deslizamento de lama – mas lama, como terra propriamente dita, só pode existir em um mundo onde a vegetação pôde crescer, morrer e se decompor por milênios. Nas condições imaginadas pelo autor para Vênus, só existiria rocha nua, lavada pelas chuvas.

“Mestre-de-Armas”, de 1989, é um dos primeiros contos de outro bem conhecido autor de ficção científica, Bráulio Tavares, que procurou seguir outra vertente do gênero: a chamada “New Wave” dos anos 1960 e 1970, um movimento que enfatizava a ficção científica “soft” – mais interessada em especulação sobre desenvovimentos sociais e políticos que nas ciências naturais – e tinha uma postura crítica em relação às atitudes militaristas e imperialistas da ficção científica da anterior “Golden Age”. Trata-se, neste caso, de um conto que descreve a melancólica carreira de um guerreiro do espaço rumo à sua (quase literal) imortalização – um duro contraponto crítico à idealização da conquista militar do espaço em obras como Tropas Estelares (Starship Troopers) de Robert Heinlein. Também é boa e pura ficção científica, com muito pouco de características “literárias”.

“O Fruto Maduro da Civilização”, de Ivan Carlos Regina (1993) é, por outro lado, um conto pessimista, com muito de experimentação literária e pouco ou nada de especulação científica, salvo o uso meio impressionista de palavras de conotação científica e tecnológica. Infelizmente, não chega a convencer nem como texto literário de qualidade, nem como ficção científica instigante.

Já “Engaiolado”, de Cid Fernandez (1998) é um texto nada pretensioso, mas muito interessante. Apoia-se em clichês de ficção ufológica, subgênero dos mais gastos no Brasil, mas a maneira como apresenta e desenvolve o mistério que assombra um pobre migrante do interior que chega à Capital é envolvente, original e cria um suspense admirável. Um dos mais recomendáveis do livro.

“Controlador”, de Leonardo Nahoum (2001) é uma história sobre peregrinos de uma religião “catislamista” que busca a morte em um mundo dominado por um ser artificial de poderes quase divinos, capaz de transformar a realidade à sua vontade. O argumento central, bem desenvolvido, lembra muito o dos romances Hyperion (1989) e The Fall of Hyperion (1990) de Dan Simmons, mas o conto toma rumos muito divergentes quanto ao ponto de vista (o “semideus” é o protagonista), as conotações ideológicas e o desfecho. Também é um conto decididamente recomendável.